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São Paulo, Brasil - 28 de janeiro de 2022, 13:19

Dois pesos duas medidas

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Coisas aparentemente desconexas podem explicar muito do comportamento do brasileiro e como ele é refletido no dia a dia de nossas atividades. Inclusive nas relações de consumo. O que pode parecer uma bobagem tem muitas vezes um significado muito importante no que observamos em nosso dia a dia.

Muitos de vocês devem lembrar da “Lei de Gérson”. Para os mais novos, há mais de duas décadas, houve uma propaganda de cigarros na TV na qual então jogador de futebol, tricampeão com a seleção brasileira de 70 afirmava ao apresentar a relação preço x qualidade do produto afirmava: “porque o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, certo?”. Esta afirmativa acabou criando a tal “lei” que é inclusive citada em trabalhos acadêmicos pelo mundo afora. Triste, não?  Outro dia, vi na internet uma publicação em http://blogs.ft.com/beyond-brics/2013/01/15/brazils-monetary-jeitinho/ falando do jeitinho brasileiro na condução da política monetária. Um outro blog, o do Noblat do Jornal “O Globo” , Marco Antônio Villa no post  “Vou-me embora pra Bruzundanga” escreve, “o Brasil é um país fantástico. Nulidades são
transformadas em gênios da noite para o dia. Uma eficaz máquina de
propaganda faz milagres”.

É por estas e outras, que o tal jeitinho brasileiro, conjugado com a necessidade de levar vantagem em tudo, uma combinação que um grande amigo chama de “moral macunaíma”, permeia quase todas (se não todas) as nossas atividades. Sociais ou comerciais. Talvez por esta razão, o serviço ao cliente em nosso país seja este vexame que é. Um circulo vicioso em que a propaganda vende, as empresas não entregam e quem paga o pato é o Cliente. Sobra educação e falta competência. Onde se treina pessoas para contornar os problemas e não resolvê-los. Afinal, todos querem levar alguma vantagem, certo?  Errado. Todos perdem. Em uma sociedade onde um leva vantagem e alguém certamente leva desvantagem seguramente não se desenvolve nem culturalmente nem economicamente.

Mais eis que o país do futebol, vem nos dar uma lição.

Esta semana durante um jogo entre brasileiros pela Copa Libertadores, o jogador  do Atlético Mineiro  Ronaldinho, dito o Gaúcho,  nos mostra como levar vantagem em uma situação não esportiva. Em um dado momento, na cobrança de um lateral vai até o goleiro do São Paulo, Rogério Ceni e pede água. É atendido e obviamente fica sozinho lá na pequena área. Bem, o lateral é batido ele recebe a bola evidentemente sem marcação cruza e o companheiro faz o gol.

A malandragem do jogador brasileiro é enaltecida!  O grande e experiente jogador usa da inteligência para enganar os adversários. O goleiro são paulino é chamado de bobo. Enfim, uma vantagem que nada tem de ilegal ou imoral, mas certamente não denota espírito esportivo algum, é considerada uma qualidade pela maioria da imprensa, a qual é formadora de opinião. O que fica?  Que a malandragem é uma coisa que deve ser usada a seu favor desde que não seja ilegal, mesmo que discutível sob o ponto de vista ético. Fiquei surpreso ao ver amigos meus afirmando: “futebol é isso. Pelo menos no Brasil uma mistura de malandragem com esporte. Ainda bem que é assim. Espero que continue assim”ou “nada
a ver …ele não fez nada de ilegal, e nem mesmo imoral …eu sou
contra as dancinhas, as comemorações desrespeitosas, mas neste caso
…não acho que ele tenha feito algo que possa ser maldoso”  ou ainda
“Eu
te entendo, pq São Paulino, mas…se algo não é ilegal, e nem imoral
…. tá valendo !! antidesportivo seria ele fazer “um gol de mão” e
ficar quieto, “fazer um penalti, e dar um passo fora da área …o juiz
não dar o penalti, e vc ficar quieto (Didi)”, seria vc “provocar a
expulsão do adversário (neymar) que nem te tocou” …enfim, não vi
atitude antidesportiva !!! sinto muito !!”

E olha que nem sou são paulino.  Se não tivesse sido contra o São Paulo, mas contra o Coríntians, será que a opinião teria sido a mesma? Acho que não.

Mesmo considerando que o assunto futebol contém um componente grande de paixão irracional,   uma questão precisa ser discutida: qual a diferença de atitudes antidesportivas consideradas como malandragem positivas e uma atitude de ética questionável durante um atendimento ao cliente, mesmo que dentro da lei, ser  tomada?

A meu ver nenhuma. É uma questão de educação – ou da falta dela – ou da tal “moral macunaíma”, como disse o meu amigo.

Pensem nisto e até a próxima!

0 comentário em “Dois pesos duas medidas”

  1. Enio,

    Excelente! Irretocável! Tomo a liberdade de retransmitir na minha rede… Não assisti à cena do Dentuço, mas repassando todas as atitudes desse senhor desde que voltou ao Brasil, honestamente não me surpreende! (tá bom que esse comentário está carregado de paixão rubro negra, mas nem assim ele perde a validade…)

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