O conhecimento não está mais no cérebro, está na rede

“Na era digital e da avalancha informativa, o volume de conhecimento ganhou proporções ciclópicas e já não pode mais ser administrado apenas por mentes privilegiadas. O binômio homem/rede seria a alternativa para processar os 1,27 zetabytes de informação que são atualmente publicados na Web a cada 12 meses [dados publicados no documento The Age of Exabytes]. É o equivalente a 600 quatrilhões de páginas datilografadas, ou uma quantidade de documentos 84 milhões de vezes maior do que todo o acervo da Biblioteca do Congresso dos EUA (a maior do mundo).”

As frases acima formam uma espécie de resumo do livro Too Big to Know (Grande Demais para ser Entendido), escrito por David Weinberger, da Universidade Harvard, e que acaba de ser lançado no mercado. O jornalista e professor Carlos Castilho resenhou o livro para o site Observatório da Imprensa. Vale a pena ler sua resenha.

O desafio de ler 11 mil páginas por hora

O conhecimento não está mais no cérebro das pessoas, mas na rede que interliga os individuo pensantes. Está é a polêmica tese defendida pelo norte-americano David Weinberger, da Universidade Harvard, no livro Too Big to Know (Grande Demais para ser Entendido), que acaba de ser lançado no mercado.

Noutras palavras, o que Weinberger sugere é que não é mais possível separar os indivíduos das estruturas de interatividade. A cultura tradicional baseia-se no fato de que o conhecimento, assim como a sabedoria, são atributos exclusivamente humanos, embora se expressem por meio de escritos, imagens ou sons.

Na era digital e da avalancha informativa, o volume de conhecimento ganhou proporções ciclópicas e já não pode mais ser administrado apenas por mentes privilegiadas. O binômio homem/rede seria a alternativa para processar os 1,27 zetabytes de informação que são atualmente publicados na Web a cada 12 meses [dados publicados no documento The Age of Exabytes]. É o equivalente a 600 quatrilhões de páginas datilografadas, ou uma quantidade de documentos 84 milhões de vezes maior do que todo o acervo da Biblioteca do Congresso dos EUA (a maior do mundo).

Cada ser humano teria que ler, por ano, 100 milhões de páginas datilografadas de 30 linhas para dar conta de tudo o que é produzido no planeta em matéria de informação. Uma tarefa impraticável porque significaria ler 11.415 páginas por hora, dia e noite sem parar, ou 190 por minuto.

Esses números indicam que a mente humana já não é mais materialmente capaz de dar conta da absorção de tal quantidade de dados usando apenas os cinco sentidos. Este conhecimento, por motivos óbvios, não está mais apenas no cérebro humano. Ele está também nas redes virtuais que interconectam os cérebros humanos e disponibilizam os dados, informações e conhecimentos procurados.

David Weinberger, um dos pioneiros na exploração das consequências sociais e econômicas da internet [foi co-autor do polêmico ClueTrain Manifest e dos livros Small Pieces Loosely Joined eEverything is Miscellaneous], afirma no seu livro mais recente que “na medida em que o conhecimento passa a se estruturar em redes, a pessoa mais inteligente num recinto não é a que está dando uma palestra ou aula e nem o grupo de ouvintes ou participantes. É a sala onde acontece a palestra ou aula. A pessoa mais inteligente é a sala”.

Weinberger esclarece que a metáfora não se refere a um supercérebro, ou supercomputador, mas sim ao conjunto de links que transformam a mente humana e as redes um sistema inseparável. Um sábio já não chega a esta condição apenas absorvendo informação, mas participando de redes. Sem elas, não passaria de um ser comum.

A tese do pesquisador norte-americano vai um pouco além das teorias sobre inteligência artificial que foram muito badaladas no final dos anos 1990 e início do século 21, mas depois perderam seu atrativo quando as redes começaram a ganhar espaço. E se Weinberger estiver certo, a tecnologia torna-se ainda mais relevante para o conhecimento humano, porque sem ela até as redes acabarão sendo soterradas pela avalancha informativa que não para de crescer [cf. documento Tackling Information Overload, produzido pela Xerox]. Só o material produzido por empresas, governos, escolas e universidades, tanto em papel como em formato digital, cresce ao vertiginoso ritmo de 65% ao ano. Usando o mesmo cálculo feito pelo estudoThe Age of Exabytes, em 2013 teríamos que ler quase 19 mil paginas por hora, ou 316 por minuto.

Se formos pensar em termos de notícias, fica claro, sem precisar fazer exercícios matemáticos, que é impossível a um ser humano se dizer bem informado hoje em dia se não estiver conectado a uma ou mais redes. Não dá para ler quatro edições completas de um grande jornal em um minuto.