Os “furos jornalísticos” vão seguir a trilha dos dinossauros?

Pouco mais de uma semana atrás, The Guardian, um dos mais importantes jornais ingleses, ou seja, do mundo, iniciou um experimento revolucionário: abriu sua agenda de notícias futuras para os leitores. Com isso, abriu mão daquilo que era considerado um dos principais instrumentos de atração de leitores, mas que está se mostrando pouco relevante afinal: as novidades inesperadas. Mais do que isso, porém, na opinião do pessoal aqui do Laboratório, o jornal está saudavelmente recusando-se a continuar dirigindo a opinião pública. Em vez disso, irá compartilhar com esta o encaminhamento das questões.  

É um processo que merece ser acompanhado e debatido, pois está claro que a Internet alterou o comportamento do leitor; está na hora de alterar o comportamento dos comunicadores. Vamos apreciar particularmente a extinção da necessidade patológica dos repórteres descobrirem os tais “furos jornalísticos”, necessidade que leva, o mais das vezes, a uma relação ambígua com a ética sem qualquer benefício para a sociedade e os cidadãos.

Publico abaixo artigo sobre o assunto, escrito pelo jornalista e professor Carlos Castilho, e publicado no Observatório da Imprensa.

Pauta aberta sinaliza fim do “furo” jornalístic0

Um dos maiores tabus do jornalismo começa a ser desmontado gradualmente com o avanço da experiência lançada em meados de outubro pelo jornal inglês The Guardian. Ao abrir sua agenda futura de notícias para o público em geral, o matutino quebrou uma regra de ouro das redações, segundo a qual o sigilo sobre o que será publicado no dia seguinte é a principal arma para atrair leitores.

Ao fazer um balanço da primeira semana de existência do seu projeto Open Newslisto Guardian foi cauteloso embora a experiência esteja sendo acompanhada de perto pelos concorrentes do jornal e, principalmente, por dezenas de blogs especializados em cobertura da imprensa. 

A iniciativa quebra também um comportamento quase secular em matéria de jornalismo. O Guardian está tentando mostrar que é possível conquistar a fidelidade do leitor dando-lhe mais participação na produção do noticiário. A esmagadora maioria dos demais jornais em todo mundo ainda segue a regra de que o comprador de jornais e revistas opta pela novidade e pelo ineditismo, em primeiro lugar. 

São duas linhas completamente diferentes e que obedecem a duas visões distintas da realidade informativa atual. A proposta do projeto Open NewsList parte do princípio de que a avalancha informativa gerada pela internet reduziu drasticamente a possibilidade daquilo que os jornalistas chamam de “furo”, ou seja notícia, foto, vídeo ou entrevista publicados com exclusividade, antes que os demais concorrentes.

O “furo” sempre foi encarado pelos profissionais como o troféu máximo da categoria e um atestado de qualidade e eficiência jornalística, por parte da empresa. A grande maioria dos jornais ainda apoia o seu marketing na exibição de feitos inéditos pelos seus funcionários na investigação jornalística. 

Guardian está fazendo uma aposta ousada no abandono de um dos mais celebrados valores do jornalismo, o ineditismo. O contexto informativo atual, caracterizado por uma superoferta informativa que reduziu drasticamente o preço da commodity notícia inédita, pode explicar parte da ousadia do jornal inglês, mas as incertezas ainda são muitas para antecipar um sucesso.

principal incógnita é o comportamento do leitor e até que ponto ele se envolverá na produção de notícias, acrescentando detalhes, novos enfoques e correções. Após uma semana de experiência, o resultado é promissor porque foi intenso o uso do Twitter como ferramenta de participação dos leitores, com cerca de mil mensagens enviadas à redação do jornal. Surgiram até debates entre jornalistas e leitores sobre alguns temas, como foi o caso da morte do ex-homem forte da Libia, Muammar Kadhafi. 

A avaliação dos resultados da experiência será um processo lento porque, passada a novidade, os leitores tendem a ser menos participativos na medida em que a colaboração inevitavelmente toma tempo, que é retirado da rotina diária de cada pessoa. A partir dai, o resultado ficará dependente da capacidade da experiência contagiar um número suficientemente grande de leitores, de forma que sempre haja um grupo disposto a participar na produção de notícias. Aí vale mais a estatística de que a motivação, como já acontece hoje com a enciclopédia virtual Wikipédia.

Tecnicamente, o sistema montado pelo Guardian é simples mas eficiente. A pauta diária do jornal é publicada no site da versão online, onde cada assunto tem ao lado o link para o Twitter do repórter ou do setor encarregado de redigir a notícia . 

Há cinco áreas principais, que corresponderiam às principais editorias de um jornal: internacional, noticias nacionais, esportes, economia, ciência/ambiente. Há uma pauta matutina e outra vespertina. Os interessados podem incluir o hashtag #opennews no seu Twitter, o que lhes permitirá receber os temas das reportagens em preparação bem como os comentários de outros leitores. 

Guardian também foi cauteloso na hora de associar a sua experiência à possibilidade de implantar a transparência total na sua redação. Embora assumindo que a sua preocupação central não é mais o furo, o jornal admitiu que pode reter algumas informações em casos de embargo na divulgação de notícias liberadas por órgãos governamentais ou quando houver risco de consequências imprevisiveis, como informações financeiras ou de segurança nacional.