A hora certa para pendurar as chuteiras

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Autor: Marcos Morita
O terceiro pênalti perdido na semana passada por Rogério Ceni em pleno Morumbi, trouxe à tona alguns dilemas vividos por executivos e empresários nos últimos tempos: existe a hora certa de literalmente, pendurar as chuteiras? Vale a pena esticar a carreira a qualquer custo? A maior expectativa aliada à melhoria na qualidade de vida, fez com que senhores e senhoras na faixa dos sessenta ou mais, ainda sintam-se totalmente aptos e capazes para fixar objetivos, liderar equipes, cumprir metas, conquistar novos mercados, viajar e enfrentar longas e extenuantes jornadas de trabalho.
O segundo grupo, composto pelos empresários, em geral têm maior autonomia. A frente de seus negócios, criados ou herdados, tornam-se uma espécie de lenda viva na organização, mesmo que já tenham passado o bastão para a próxima geração. Antônio Ermírio de Moraes e Abílio Diniz fazem ou fizeram parte deste grupo. Já os executivos têm contra si os estatutos e regulamentos das empresas, os quais fixam a idade máxima para se aposentar.
Quem conviveu anos ou décadas com secretárias, motoristas, combustível pago, planos de saúde de primeira linha e um cartão de visitas que abria portas e convites, tornar-se um simples mortal do dia para a noite pode ser um forte baque caso não esteja preparado. Ir ao banco, ao correio, revisar o carro, consertar o computador e anotar os recados, podem ser tarefas interessantes nas primeiras semanas.
Comparo a carreira de um executivo ao ciclo de vida de um produto, composto por quatro fases: introdução, crescimento, maturidade e declínio, o qual tem se tornado cada vez mais curto, face às inovações, tecnologias, globalização, competitividade e consumismo. Já se foi o tempo em que fogões e geladeiras duravam décadas na cozinha de nossas mães. Hoje compramos um computador, smartphone, eletrodoméstico ou veículo, já sabendo que em alguns meses ou anos estarão ultrapassados, seja em design ou desempenho.
As carreiras inexoravelmente seguirão o mesmo movimento, onde cabelos brancos e óculos para presbiopia, também conhecida como vista cansada, deixarão de ser sinônimo de experiência adquirida, adquirindo conotações negativas. Neste cenário de maior expectativa de vida e menor tempo útil como profissional, desenvolver uma nova ocupação torna-se essencial aos profissionais precavidos e cientes de que diferentemente do veículo Gol, não poderão renovar-se eternamente em novas versões para se manterem no mercado.
Acredito que não haja uma hora mais correta ou adequada para se pensar no assunto, porém deixá-la para a fase do declínio pode não ser uma boa estratégia, haja vista que alguns projetos consomem anos para tornarem-se realidade ou prover um retorno financeiro satisfatório, caso o profissional não consiga viver com as reservas acumuladas durante a carreira. Abrir um negócio, tornar-se consultor, conselheiro, professor, técnico de futebol, cartola ou comentarista são atividades que requerem ou deveriam requerer preparo e dedicação prévia.
Talvez uma boa estratégia seja aproveitar os últimos anos em que esteja na ativa, seja ou não por vontade própria, para começar a colocar seu plano B em prática. O contracheque garantido no final do mês e a rede de relacionamentos podem ajudá-lo a planejar a transição com mais calma, esteja sozinho ou com o acompanhamento de um mentor. Ter uma nova atividade ou carreira certamente ajudará na perda do sobrenome corporativo, seja por aposentadoria ou demissão de profissionais seniores, comum em épocas de redução de custos.
Enfim, o ex-goleiro artilheiro tem ensinado que as vezes é melhor sair de cena quando ainda se é querido e valorizado, com o risco de queimarmos a imagem construída a duras penas durante décadas. Com sua postura de querer se manter a qualquer custo no posto, colocou-se em uma verdadeira arapuca, haja vista a situação inédita que sua equipe de coração se encontra, insistindo em permanecer na zona de rebaixamento. Infelizmente para Rogério Ceni, a letra da música de Ney Matogrosso: “se correr o bicho pega se ficar o bicho come”, nunca esteve tão viva.
Marcos Morita é professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ.

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