Amizade e trabalho, funciona?

0
7
Autor: Flávio Yukio Motonaga
No final de semana me encontrei informalmente com um cliente, dono de uma startup para qual prestei
consultoria. Empresa formada por jovens profissionais, individualmente hábeis em suas especialidades. 
O idealizador do negócio – notoriamente talentoso em angariar fãs, leitores, usuários, dentre todos outros tipos de público que se pode acumular pela Internet – tem lidado com grandes e novos desafios. É evidente seu carisma, a criatividade e a facilidade que tem para descobrir os caminhos para chamar a atenção das pessoas. Por outro lado, tamanha habilidade parece ser uma de suas fraquezas no momento que há prazos em jogo, reputação perante investidores e direcionamento de equipe.
Um possível agravante é que o profissional responsável pela infraestrutura tecnológica é amigo e – no contexto de investidores, prazos e metas – a própria amizade pode virar uma barreira para que comandos, ordens e senso de responsabilidade tenham efeito prático no trabalho.
Na minha juventude tinha aquela ideia de que bons amigos poderiam produzir na mesma sintonia que a amizade. A camaradagem, inicialmente, gerava um tipo de segurança e conforto, daquela sensação de que a amizade poderia garantir a “raça” e o “agarrar a camisa”.
No plano do ideal e da teoria, faz bastante sentido. E confesso acreditar que, em alguns casos raros, profissionais consigam transformar a energia da amizade em produtividade e resultados. Mas na prática, na maioria das vezes, isso é utopia.
Quando tudo está funcionando bem, quando existem profissionais realmente autônomos que buscam uma provação a si – e não ao amigo – e existe uma expertise técnica suficiente para “dar conta do recado”, por que a amizade poderia atrapalhar o trabalho?
O fato é que, em 365 dias por ano, teremos que resolver mais problemas dentro da empresa do que somente aparar as arestas. Principalmente quando se fala, por exemplo, em startups. É nessa hora que a amizade dentro do trabalho pode virar uma barreira.
Lembro muito bem da dificuldade que tive com amigos quando alguma demanda não estava suficientemente boa (seja em prazo ou execução) para se apresentar ao cliente. Por um lado, teria que assumir um tipo de fardo em ter que cobrar mais agilidade ou capricho. Por outro, passava a encarar uma dura realidade: a autonomia criada na amizade nem sempre se aplica na autonomia profissional. E por um terceiro, a cobrança de agilidade e capricho, muitas vezes, batia negativamente de maneira pessoal (para ambos).
A chance da miopia se estabelecer é real: o amigo quer provar ao outro que faz pela amizade e tira de frente a necessidade de realização perante o próprio negócio, perante os objetivos, prazos e metas. Predomina, infelizmente, valores do ego.
Quando o trabalho está em primeiro lugar, determinadas emoções e sentimentos não se aplicam. Mas como saber dividir no momento em que a base da relação profissional se estabeleceu pelo ato “heroico” e camarada da amizade?
Bom… Só me resta dizer que a quem quiser insistir, boa sorte!
Flávio Yukio Motonaga é sócio diretor da líbero+ e dono do blog MME.