A comédia corporativa de The Office

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Uma das grandes revelações entre as séries de comédia dos últimos anos é a”The Office” – cuja tradução em português seria “O Escritório”. Quem anda às voltas com o mundo corporativo com certeza irá reconhecer no seriado um sem número de situações que são divertidas justamente porquê nos são familiares. Assuntos como liderança, competitividade no ambiente de trabalho, relacionamentos românticos entre colegas, downsizing, vigilância eletrônica, assédio sexual, entre outros, são tratados de forma extremamente hábil – e absolutamente divertida – nos 30 minutos de duração de cada episódio.

The Office começou como uma série britânica que fez tanto sucesso que acabou ganhando outras versões: americana, francesa, alemã e canadense. As más línguas dizem que houve inclusive uma tentativa de adaptação desta série por uma grande emissora brasileira – sem o mesmo sucesso das versões mais oficiais. Aqui falaremos apenas da versão americana que é tão boa – senão melhor, sob certos aspectos – que a versão original.

A série americana é centrada na figura de Michael Scott (Steve Carell), que é o gerente regional da filial de uma fictícia empresa distribuidora de papel. A relativa falta das necessárias qualidades de liderança por parte de Michael – somada à sua absoluta falta de tato ao lidar com as outras pessoas – é responsável por uma série de situações que divertem a nós telespectadores – e infernizam o dia-a-dia dos funcionários. Por exemplo, em um episódio memorável, Michael não gosta do presente que recebeu no amigo oculto da empresa e força as pessoas a trocarem de presente até que ele consiga um presente de que goste. Em outro episódio, ele passa a vigiar os e-mails dos funcionários, com as mais hilariantes conseqüências.

Os motivos pelos quais um indivíduo tão visivelmente inepto está ocupando um cargo de chefia vão sendo revelados no decorrer da série. Na verdade, Michael era, antes de ser o chefe da filial, o melhor vendedor da empresa: foi justamente porquê ele era tão bom como vendedor que a alta gerência resolveu promovê-lo a gerente regional. Este tipo de situação – retratada na série – pode se tornar real – e sabemos que muitas vezes se torna – quando a promoção a um cargo de gerência ou de liderança leva em conta apenas a capacidade técnica sem avaliar também as competências comportamentais necessárias ao cargo.

A meu ver, uma das grandes virtudes de The Office é justamente mostrar que, muitas vezes, este tipo de desajuste entre o comportamento e a função é muito mais um resultado dos mecanismos internos da própria organização do que um “defeito” da pessoa que foi promovida. Isto fica perfeitamente indicado em um episódio, absolutamente engraçado, em que Michael é chamado à matriz da empresa em Nova York para uma reunião de gerentes regionais e percebemos, para nosso assombro e diversão, que todos os gerentes presentes na reunião têm exatamente o mesmo perfil do Michael – o que não pode ser, de forma alguma, uma mera coincidência, mas antes uma falha no processo seletivo interno da empresa.

The Office é diversão garantida para todos aqueles que convivem com o mundo corporativo ou que já tiveram pelo menos um chefe na vida.

Tadeu Alvarenga é sócio-diretor da Alves & Alvarenga Consultoria em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas. ([email protected])