A crise e o inconsciente do empreendedor

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Autor: Luiz Fernando Garcia

 

O ano de 2009 começa em meio a uma grande onda de pessimismo econômico mundial. Indústrias prometem demitir um terço de seus empregados, donos de empresa não investem em novas áreas e achar novos empresários no mercado é tão difícil quanto ver um brasileiro torcendo pela Argentina na Copa do Mundo.

 

Empreendedores em geral veem está situação econômica com tanto medo, que acabam justificando os próprios erros e baixo faturamento das empresas pela crise. Perderam-se anunciantes, clientes deixaram de pagar, os produtos não vendem como antes ou qualquer outra coisa que afete o negócio, a culpada será a crise e sempre ela.

 

Mas o que faz as pessoas pensarem de forma tão inadequada? A resposta é dolorosa, porém verdadeira e confirmada em um estudo com mais de 850 empreendedores em todo o Brasil. Trata-se do próprio inconsciente, atuando a todo instante, com um papel determinante na vida pessoal e profissional do empreendedor. De fato, existem determinados traumas vividos na infância que ficam gravados no inconsciente e que, na vida adulta, constantemente se atualizam afetando os resultados profissionais do empresário.

 

Para simplificar, vale à pena um exemplo que presenciei recentemente. Durante um trabalho de consultoria ao dono de uma empresa especializada em personalização de produtos para o automobilismo, ouvi a seguinte máxima: “Não dá mais para viver no Brasil. A crise chegou e os negócios vão de mal a pior. Estou pensando em voltar para a Alemanha porque lá sim eu poderei dar continuidade ao meu negócio, ganhar em euro e ainda criar os filhos com muito mais qualidade de vida e segurança”.

 

Indo mais a fundo na vida desse empresário, foi possível descobrir o quanto ele estava cansado de ser o primeiro homem dentro da empresa, ser o responsável pelos principais resultados, ter passado mais de vinte anos usando a arte para ter condições de dar uma melhor condição de vida a sua família e, principalmente, que o que ele realmente desejava era ter alguém de confiança que continuasse a tocar a empresa e a manter os resultados para que ele tivesse mais condições de cuidar de si mesmo.

 

Afinal, viver na Alemanha não seria nem de longe um meio para fugir da turbulência do mercado. Já o Brasil, entre os 35 países emergentes no mundo tem apresentado os melhores indicadores econômicos frente à crise. Por isso, o que ele queria mesmo era fugir de seus traumas atualizados todos os dias no trabalho, porque desde a infância a arte foi a forma que encontrou para escapar dos problemas vividos em família. Só que agora, criar passara, muitas vezes, a ser um fardo. Para ele, usar a crise global como desculpa era o meio mais fácil e propício, ainda que inconsciente, para trabalhar rumo ao seu auto-boicote. E, dessa forma, quem sabe, correr para a Alemanha.

 

A crise mundial realmente afeta os negócios de muitos empresários, mas isto não significa o fim. Esta não é a primeira e nem a última situação crítica que o meio empresarial passa. O que diferenciará um empreendedor do outro, é a capacidade de criar soluções para escapar dos problemas. Ou seja, usar os obstáculos como desafios e superar. Pensar estrategicamente e não usar a crise como uma desculpa para os fracassos, pode ser determinante para os donos de empresas continuarem lucrando com seus negócios. Isto é saber jogar com o inconsciente.

 

Luiz Fernando Garcia é consultor especialista em manejo comportamental e empreendedorismo em negócios, além de metodologista, empresário e palestrante.