A propaganda ainda é a alma do negócio

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Cláudio Boriola

Praticamente não se fala mais em pagamento à vista! Compras à prazo são realizadas sem nenhum critério pelos consumidores, que se encantam com a possibilidade de ter algo material pelo qual não teriam condições de pagar no ato, em dinheiro, e firmam compromissos intermináveis, que podem comprometer sua vida financeira.

Mas o que impulsiona alguém a entrar numa loja e despejar dez, quinze, ou até mais, folhas de cheques sobre o balcão? Obviamente, a resposta vai variar de pessoa para pessoa, mas uma coisa é certa: a propaganda ainda é uma das grandes responsáveis pelo endividamento de milhares de brasileiros. Mas, antes de qualquer coisa, vamos deixar bem claro que não devemos ser contra ela. A propaganda, feita de forma honesta, clara e objetiva ajuda o comprador a se informar sobre o produto e suas condições de pagamento. O problema é que nem sempre é assim.

As tentações aparecem em todas as mídias possíveis. Atualmente, na TV, temos um comercial sendo veiculado que mostra um armário em promoção, numa grande rede de lojas. Em momento algum o valor à vista é citado. O destaque é dado ao valor da prestação: R$ 10,00! Sim, por dez Reais (é o que diz a propaganda), você pode ter um belíssimo armário na sala da sua residência. Para piorar, nem o número de mensalidades é destacado, aparecendo rapidamente num pequeno espaço da tela. E o apresentador continua mostrando, sorridente, uma nota de dez Reais nas mãos, como se ela fosse a chave de um portão intransponível.

Nos jornais e revistas, as tentações também têm várias formas. Não é difícil localizarmos anúncios (principalmente de eletro-eletrônicos e celulares) que trazem o valor da mensalidade com um tamanho infinitamente maior que o valor à vista. Em cores vivas e chamativas, a prestação (sempre baixa!) é o primeiro elemento que se vê nessas peças publicitárias. Quando começam os descontos em sua conta corrente é que o consumidor vai sentir os efeitos de uma compra mal programada.

O que pode ser encontrado nas próprias lojas ainda é pior. Entre novembro e dezembro de 2005, o Procon visitou 1509 lojas no estado de São Paulo e encontrou 191 tipos de irregularidades. Uma das que mais chamaram a atenção é a simples falta do preço à vista na vitrine. Ou seja, o consumidor chega à loja e não tem acesso ao valor à vista da compra que pretende fazer. Isso fere no mínimo dois incisos do 6º artigo do Código de Defesa do Consumidor (disponível para download gratuito em www.boriola.com.br): o terceiro, que diz que o vendedor tem a obrigação de informar, adequada e claramente, sobre o produto, suas especificação, quantidade, características, composição, qualidade e preço, e o quarto, contra a publicidade abusiva e enganosa, incluindo métodos comerciais coercitivos e desleais.

Atualmente, uma nova forma de pagamento à prazo também está em alta: as compras com desconto direto na folha de pagamento. Essa modalidade tem forte inclinação para trazer grandes prejuízos se forem feitas sem um estudo prévio. Assim como numa compra com cartão de crédito, o comprador não “vê” o dinheiro sendo retirados da sua conta. É simples: basta concretizar a compra assinando uma série de documentos, que o seu salário virá “menor” nos próximos meses. E aí o risco que se corre é de faltar dinheiro para o essencial.

Por isso, o cidadão brasileiro precisa aprender a ser extremamente racional e questionador no momento de fazer suas compras. Muitas perguntas podem ser feitas: “Com qual finalidade vou comprar um aparelho celular em doze vezes?”, “Será que não consigo outra saída para não precisar pagar durante dois anos uma geladeira?”, “Calculando minhas economias, não consigo negociar um bom desconto para comprar esse fogão à vista?”. Enfim, somente alguns exemplos do modo de se pensar antes de firmar longos compromissos.

Comprando um presente para o dia das crianças em seis vezes, comprometem-se as finanças até o mês de abril do ano seguinte. Mesmo com o décimo terceiro em dezembro, temos os presentes de final de ano. Divide-se novamente em seis vezes, pagando até junho do ano seguinte. Em janeiro e fevereiro, somam-se os gastos escolares e impostos. Pronto, a bola de neve está descendo a montanha e não tem freio.

Para escapar dessas armadilhas, o mais recomendado é fazer cuidadosamente o planejamento financeiro. Se for realmente impossível fugir das compras à prazo, não as faça sem antes calcular e recalcular todos os seus gastos mensais e pesquisar na maior quantidade de lojas possível. Comprar com o menor número de parcelas possível também ajuda a acabar mais rapidamente com o sofrimento. Você pode estudar também a possibilidade de abrir uma poupança e guardar nela o dinheiro que seria gasto em pagamentos de parcelas. Quando o saldo chegar ao preço do produto à vista, procure a loja que sua pesquisa indicou ser a mais barata e faça a negociação.

Não importa o método. Lembre-se de que o importante é sempre pagar o menor preço final ou sofrer a menos incidência de juros.

Cláudio Boriola é consultor financeiro e palestrante especialista em economia doméstica e direitos do consumidor.

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