A responsabilidade de comunicar bem

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Não fosse a saída honrosa para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, encontrada pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o embate do governo com o jornalista Larry Rohther, do New York Times, teria conseqüências ainda mais negativas para a imagem nacional. Entretanto, a repercussão mundial do fato, com a conotação de que o Brasil cerceia a liberdade de imprensa, já causou sensíveis estragos. Paulatinamente, à medida que novos temas de relevância passem a dominar a pauta jornalística, o episódio tenderá a ser esquecido. Porém, para manter e melhorar sua imagem — e a do País –, o governo precisa realizar programa mais eficiente de comunicação.
Lamentavelmente, a Administração Lula parece não conferir a essa
atividade o estratégico, decisivo e contemporâneo significado que tem para governos, empresas e todas as organizações. O caso do
correspondente foi apenas mais um exemplo do descaso com o setor. Isto não arranha apenas a imagem e a credibilidade de um político e de um governo, mas prejudica a Nação. Ao se comunicar mal com a imprensa, sociedade, entidades de classe e comunidade internacional, o governo gera incredibilidade, expõe-se ao efeito de rumores e torna a política e a economia mais suscetíveis às crises.
Comunicação não se limita à concessão de eventuais entrevistas à
imprensa, à elaboração de cartas com réplicas e tréplicas e à divulgação da rotina dos gabinetes. Há todo um kow how e consagradas estratégias para se estruturar e exercitar política eficiente nesse segmento. O episódio do jornalista norte-americano já seria suficientemente grave como fato isolado. Contudo, é mais um dentre vários equívocos na comunicação. Não é o caso de os enumerar, mas de alertar o governo, para o bem da Nação, sobre a necessidade de os corrigir.
Como em outras oportunidades, o País não aproveitou, com inteligência e estratégia, a publicação da matéria no jornal de Nova York. Diante da persistência desse problema, os craques do jornalismo institucional e assessoria de imprensa, do marketing e da publicidade — e são muitos os profissionais brasileiros de qualidade nesses segmentos — poderiam ser escalados para compor um Conselho Nacional de Comunicação. Seria um colegiado de alto nível, cujos membros doariam parte de seu tempo para elaborar uma política de comunicação para o Brasil, voltada às estratégias e ações necessárias à fixação e desenvolvimento da imagem do País. Caberia à equipe governamental da área implementar e executar o programa estabelecido.
Cuidar ou não de sua própria imagem é decisão pessoal e soberana de cada cidadão. Porém, preservar a imagem da Presidência da República, do Governo do Brasil e do País é dever inalienável de quem está investido no cargo. A omissão nesta responsabilidade prejudica muito a Nação, conforme, aliás, tem sido possível notar diariamente na seqüência de trapalhadas, como o paralelismo e contradições nas declarações públicas do próprio presidente e seus principais ministros. Afinal, diante da aproximação da alcatéia, se o líder do rebanho não balir com ênfase, muitos cordeiros podem ser devorados…

Ruy Martins Altenfelder Silva, advogado, é presidente do Instituto Roberto Simonsen. É Irmão Protetor e Mesário da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Foi secretário da Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo