Câmbio trava a indústria

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Após quatro anos de “céu de brigadeiro” na economia, eis que surgem no horizonte, nuvens escuras, que poderão causar turbulências na travessia de 2007. Trata-se do câmbio, ou como preferem alguns, a valorização do real frente ao dólar e seus efeitos sobre o setor industrial.
Por enquanto, analistas abordam o tema com cautela. Alguns acham que o real não estaria assim tão valorizado. Para outros, o problema seria o dólar, muito desvalorizado, e não o real. Talvez ambas as correntes estejam certas, mas apenas em parte.
O importante é que, de uma forma ou de outra, tal fenômeno não é recente e continuará por um bom tempo sendo uma espécie de contraponto negativo ao “mar de rosas”, idealizado por estrategistas do Planalto.
Em outras palavras, mais depressa do que imagina, o governo terá de deixar de lado a agenda política (definição de alianças na Câmara e no Senado, reforma ministerial etc.) para dedicar-se, com afinco e seriedade, à questão do câmbio.
O problema sempre reaparece na mídia quando o dólar cai para a faixa de R$ 2,10, mas é abordado como se fosse uma disputa pessoal entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Ou então como uma briga por espaço entre desenvolvimentistas e monetaristas.
Da mesma forma que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve de desvalorizar o real, em janeiro de 1999, no início da sua segunda gestão, em algum momento, do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o governo terá de enfrentar tal desafio.
Naquela época, como o leitor se lembra, a paridade entre real e dólar era fixa: um real valia um dólar. Em seu lugar, foi adotado o câmbio flutuante. Num primeiro momento, nossa moeda desvalorizou-se 15%; alguns meses depois, perdeu mais dez pontos percentuais, ou seja, de janeiro a abril, o real teve sua cotação diminuída cerca de 25% em relação à divisa americana.
É difícil estimar hoje quanto a nossa moeda está valorizada em relação ao dólar e isso por um motivo simples: a divisa americana está desvalorizada também em relação a duas outras moedas importantes, o euro e o yuan.
O que interessa, contudo, não é saber o quanto o real está valorizado, mas que a tendência de alta é firme e, por isso, deverá sustentar-se no longo prazo.
Vamos analisar rapidamente os fatores responsáveis pela alta da nossa moeda. Em primeiro lugar, no período 2003 a 2006, soja, açúcar, café, carne bovina e frango, dentre outras mercadorias agrícolas de exportação, valorizaram-se bastante, principalmente devido às elevadas taxas de crescimento das economias de China, Índia e Rússia, grandes consumidoras desses produtos.
Em 2006, a quantidade de commodities agrícola de exportação embarcado para o exterior elevou-se apenas 3% em relação a 2005, menos da metade da taxa de crescimento do comércio internacional, registrada no ano passado. Apesar disso, e do aumento das importações, o superávit na balança comercial foi superior a US$ 45 bilhões.
As perspectivas para 2007 são de que os preços de tais mercadorias subam ainda mais, puxadas pelo consumo maior de etanol, que passará a ser misturado à gasolina consumida nos Estados Unidos e União Européia.
Além disso, China e Índia, pelo menos, deverão crescer bem acima da média dos demais emergentes, o que significa mais exportações brasileiras de soja, açúcar, café, frango e de carnes bovina e suína.
Por último, mas não menos importante, continua inalterada a política do BC de reduzir lentamente as taxas básicas de juros. Isso tem atraído para cá uma “enxurrada” de dólares do exterior, em busca da remuneração elevada, que é paga, por exemplo, pelos títulos da dívida pública.
Só há uma forma de o governo não mexer no câmbio: é lançar uma política industrial para utilizar a “montanha” de dólares, estocados no BC, no setor produtivo da economia. Trata-se daquela mesma política que, timidamente, o governo fez “vazar” para a mídia em 2004, baseada na substituição seletiva de importações de máquinas e equipamentos, na produção de fármacos, e de chips.
Financiar via BNDES, importações necessárias para a implantação e o fortalecimento desses setores, é a primeira coisa a fazer. Depois disso, o governo poderia apoiar, por meio da criação de linhas de crédito para importações seletivas, aqueles setores que vêm perdendo terreno para concorrentes de fora: calçados, têxteis, móveis e brinquedos, dentre outros.
Isso é urgente e necessário. Até porque se as negociações entre Estados Unidos, União Européia e Grupo dos 20 avançaram, no âmbito da Rodada de Doha, muitos outros setores industriais ficarão expostos à concorrência de similares americanos e europeus.
Não há desculpa para a inação do governo no setor industrial, já sobrecarregado por elevada carga tributária e encargos sociais. Seria uma compensação mais do que justa enquanto as reformas não forem aprovadas. Agora, há recursos. E em dólares!
Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).