Ética também nos negócios

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Marcos Andrade

De toda dificuldade surgida no cotidiano pode sair um lição. O momento político nacional, permeado por incertezas, traz à tona um debate que pode ser salutar para o país. Há uma convergência em torno da idéia de que chegou a hora, definitivamente, de se repensar as relações entre as instituições democráticas.

Muito mais do que o necessário combate ao câncer da corrupção, o debate atual passa invariavelmente pela ética nas relações com partidos, governos, fornecedores, empresários e políticos. Nesse sentido, o anseio por mudanças é urgente e demanda o engajamento de toda a sociedade civil.

Não basta, entretanto, exigir rigor nas investigações, punição aos responsáveis e ações mais contundentes por parte do governo. É preciso dar o exemplo. Relações éticas começam a ser construídas dentro de casa, na família, no trabalho, no convívio com os amigos, na administração dos negócios.

É bem verdade que, segundo diz o ditado, o exemplo deveria vir de cima. Mas se queremos, verdadeiramente, construir um país mais justo e ético, é necessário que cada cidadão dê sua contribuição, avaliando rotineiramente suas atitudes, seja na vida pessoal ou profissional.

Quem acompanha superficialmente o noticiário pode ter, de forma equivocada, a impressão de que relacionamentos desprovidos de ética predominam, eminentemente, no setor público. Ledo engano. Não é de hoje que o mundo corporativo apresenta, por assim dizer, desvios de conduta que acabam prejudicando as próprias empresas.

Evidentemente que é preciso separar o joio do trigo. Existe um sem número de empresas cujo trabalho é pautado por normas de conduta absolutamente sérias e irreparáveis. Por outro lado, o mercado competitivo acaba convidando outro sem número de empresários a adotarem práticas pouco ortodoxas.

A concorrência desleal, por meio da guerra de preços, é um desses cânceres a serem combatidos. Não falamos, aqui, das salutares alternativas adotadas por empresas para garantir qualidade pelo menor preço, mas sim do aviltamento do mercado, nos mais diversos setores da economia brasileira, muitas vezes pela opção de fornecedores que atuam no chamado mercado informal.

No setor de equipamentos e serviços para o varejo, que ganhou oficialmente uma representação em nível nacional há pouco menos de dois anos, é comum depararmos com situações no mínimo delicadas. É o caso, por exemplo, do desrespeito à propriedade intelectual, seja pela simples cópia de projetos ou produtos, ou mesmo quando se designa uma empresa para fornecer, por vezes sem nota, arremedos de projetos originais, sem qualidade nem garantias.

A contratação de empresas informais gera uma concorrência extremamente predatória, especialmente numa economia sangrada por tributos como a brasileira, uma vez que para se ofertar produtos e serviços de qualidade é necessário um mínimo de investimento em tecnologia, processos e capacitação de pessoal, o que implica aporte de recursos.

Mais do que desgastar o mercado e prejudicar empresas idôneas, esse tipo de relacionamento é maléfico para o próprio varejista, uma vez que o resultado final de seu investimento ficará aquém do inicialmente previsto para conquistar novos clientes e fidelizar os atuais. O próprio consumidor, em última instância sairá perdendo com esse ciclo vicioso.

No caso de equipamentos para o varejo, como gôndolas e mobiliários, a falta de regras normativas para a produção industrial faz com que produtos adquiridos por lojistas coloquem em risco, inclusive, a segurança dos consumidores. As empresas realmente preocupadas com a qualidade têm suas rígidas normas de produção, mas não respondem pelas demais concorrentes.

É hora de aproveitarmos o momento político nacional para colocar na pauta, urgentemente, a discussão em torno da necessária relação ética empresarial. Para tanto, é fundamental a mobilização cada vez maior das entidades de classe representativas de seus setores, por meio de campanhas institucionais e união de esforços.

Marcos Andrade, empresário, é presidente da Associação Brasileira da Indústria de Equipamentos e Serviços para o Varejo (Abiesv).