Não teremos mais do mesmo

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Autor: Marcos Gouvêa de Souza
O resultado das eleições deste domingo, apesar da vitória da situação, definitivamente não significará mais do mesmo para o país, em especial porque o país que emerge dessas eleições não será o mesmo. Parafraseando o ex-presidente Lula, nunca antes neste país a análise dos temas políticos foi tão ampla e intensa, não por mérito de uma nova consciência, que até existe, mas fundamentalmente porque os instrumentos de informação, discussão, debate e opinião estão disseminados e potencializados pelo uso de novos meios e recursos, especialmente a internet.
A grande praça central digital que se tornou a internet traz consigo um nível de envolvimento e conhecimento que coloca a consciência política em outro patamar e, como tal, além da informação, traz outras consequências. Ao acessar informações ou boatos, trocar mensagens, acompanhar momentos, manifestar ideias e preocupações, as pessoas se envolvem de uma forma que não faziam antes ou, se faziam, era em uma escala com repercussão muito menor.
A eleição presidencial, com disputa mais acirrada da história recente do país, trouxe para a praça a discussão e a divisão do próprio país. Os mapas eleitorais mostram essa realidade no plano geográfico, separando claramente regiões, mas, para além dessa divisão territorial, existem outras ainda mais relevantes no plano dos segmentos econômicos e educacional. Nesses três planos que se interconectam o país sai dividido e isso fará com que não tenhamos mais do mesmo, exclusivamente no plano dos fatos, sem nenhum viés político.
Porque o momento do país é totalmente diferente por conta do quadro econômico interno, apesar de um melhor cenário externo. Porque o ânimo empresarial e dos consumidores, expresso nos índices de confiança, é muito diferente, com sentimentos de cautela e desconfiança marcantes e crescentes. Porque a necessidade de ajustes inadiáveis é reconhecida e só não foram feitos antes exatamente por conta do período eleitoral. Porque existe nos setores empresarial e de comunicações fortes razões para temores com respeito ao futuro próximo. Não há como negar que um país como o Brasil tem recursos e potencial para enfrentar momentos de desconfiança como o que vivemos e relembrar que a presidência da república no sistema democrático dá o tom, mas não toca sozinha a orquestra.
Já havia destacado que uma coisa são reformas e ajustes serem feitos em um momento em que se crê que eles são fundamentais para o futuro melhor, com amplo apoio da população. Outra coisa, muito diferente, é fazer os ajustes num país dividido e no qual as lideranças empresariais e metade da sociedade, mais especificamente 48%, sentem-se derrotados. Não há como negar que a competência de comunicação foi um dos pontos relevantes que permitiu a vitória da situação, fazendo uso dos recursos e tempo disponível para isso, e essa qualidade poderá ser usada para tentar criar esperanças para uma nova realidade, porém também não se pode negar, que aquela parcela da população e da sociedade que poderiam contribuir para uma retomada do “animus” no curto prazo sente-se, para dizer o mínimo, profundamente desanimada.
A realidade é que quem mais se beneficiou dos programas sociais implantados e que permitiram essa vitória da situação, não tem muito mais potencial para expansão de curto prazo do mercado, em especial porque, apesar do endividamento das famílias no Brasil ser de apenas 15% em relação ao PIB, baixo em relação a outros países maduros, o forte crescimento dos últimos anos nesse endividamento restringe no momento a capacidade de tomar mais crédito, especialmente do setor financeiro privado, que poderia contribuir para a expansão do consumo. 
E de outro lado, aquelas parcelas que poderiam estimular um comportamento mais positivo de curto e médio prazo, especialmente pela recuperação da confiança, estão com um sentimento ainda mais negativo, que terá impacto direto na sua atitude e na propensão ao consumo.
A conjugação desses fatores, aliada com os ajustes generalizados que deverão ser feitos, sinalizam períodos mais difíceis à frente, compensados apenas por um certo “destravamento” de decisões e ações que naturalmente acontece em períodos eleitorais como o que acabamos de passar.
O crescimento econômico que beneficiou a economia, o consumo e o varejo é coisa do passado e a nova realidade é que o país e as empresas terão que buscar novas alternativas para a manutenção e, quem sabe, a expansão de atividades, porém, antes ou concomitante, terão que ajustar tudo o que precisa ser ajustado. O que vamos ter mesmo é muito mais preocupação e, definitivamente, isso não será mais do mesmo.
Marcos Gouvêa de Souza é diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza

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