Responsabilidade Social ou Corporativa?

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Cibele Salviatto

Os muitos dos artigos que saem na mídia sobre Responsabilidade Social mostram a grande confusão que paira sobre o assunto. A análise mais freqüente é que as empresas têm exercido sua Responsabilidade Social ou sua cidadania por meio de parceria com ONGs ou apoio a projetos desenvolvidos pelas mesmas. Também se observa, ao lado do enorme crescimento de ONGs e entidades não governamentais, uma proliferação de fundações e institutos de empresas com essa mesma finalidade, ou seja, projetar e estruturar investimentos sociais. Assim, as empresas entendem que estão fazendo seu papel de contribuir positivamente na busca da transformação da sociedade. Seria isto Responsabilidade Corporativa?

A questão é que parece que esta confusão interessa a ambos os lados. O crescimento de organizações não governamentais não significa apenas entidades idôneas cujos fins são apenas benevolentes. Significa um contingente de pessoas que perceberam que este é um ótimo caminho para oferecer serviços com impostos mais baixos, ter caixa dois, conquistar marketing e poder pessoal, um trampolim político mais “nobre” que o caminho convencional e por fim, uma boa desculpa para buscar recursos onde eles existem – na iniciativa privada.

Por outro lado, há as empresas que ainda não entenderam, ou não querem entender, que responsabilidade não significa doação ou terceirização de investimento social. Significa sim gestão, atitude. Estar atento ao consumo de insumos, buscar constantemente melhorar os processos e os produtos e adequá-los à realidade ambiental, cuidar dos relacionamentos para que eles sejam frutíferos e construtivos para todos os partícipes, ser ético e transparente para garantir que a empresa poderá continuar a exercer seu papel no futuro, trabalhar para garantir a sustentabilidade de seu negócio e ao mesmo tempo do ambiente e da sociedade em que está inserida. No entanto, ao invés de estarem empenhadas em seguir por esse caminho, algumas empresas preferem acreditar que são responsáveis e cidadãs por meio da criação de um instituto que terceiriza os investimentos sociais e apóiam organizações e projetos sociais e ou ambientais.

É evidente que o terceiro setor traz muitos benefícios à sociedade e existe muito espaço para o trabalho de muitas destas entidades, bem como para as fundações e institutos oriundos de empresas. O trabalho de entidades sérias e críveis é muito bem vindo e necessário, principalmente num país com tantas carências e sem políticas públicas claras e o apoio financeiro imprescindível. Certamente a abundância de recursos está na iniciativa privada, que não pode e nem deve se eximir, em especial se escolher campos de atuação afins com o negócio da empresa. No entanto, é importante ficar bem claro que isso não é Responsabilidade Corporativa e nem é só por esse caminho que as empresas encerram seu exercício de cidadania.

Infelizmente esse tipo de atitude, não inserida num contexto mais amplo e estratégico, apenas tira o foco do que realmente é importante e das ações que efetivamente levariam a sociedade, o planeta e as pessoas a uma transformação positiva. Também impede que as empresas olhem para esse assunto com a devida importância, uma vez que passam a acreditar que já estão fazendo o dever e não percebem que estão incorrendo em riscos futuros irreversíveis e perdendo grandes oportunidades de negócio. Riscos associados à não obtenção ou perda de licença para operar, de perder a credibilidade perante clientes e público em geral, de ter passivos ambientais ocultos. Oportunidades de perceber nichos de mercado, de conhecer melhor o cliente, de ter fidelidade e relacionamento de parceria com fornecedores e colaboradores, de inovar em processos e produtos que podem reduzir custos e criar novos mercados. Sustentabilidade é um assunto estratégico e a Responsabilidade Corporativa é o caminho de gestão que leva a empresa a ser sustentável.

As empresas, mais precisamente os dirigentes de empresas que ainda acham que montar fundações ou instituições, ou qualquer outro tipo de terceirização é a forma de direcionar seus atos de responsabilidade cometem um grande equívoco. Os benefícios são tão frívolos e de curto prazo quanto as festas de premiação. Não se enganem: fundações, institutos e maravilhosos projetos sociais não eximem a empresa de sua responsabilidade – Responsabilidade Social não é Responsabilidade Corporativa.

Cibele Salviatto é sócia da consultoria Atitude – Gerando Resultado Sustentável.