Ser bom profissional ou boa mercadoria?

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Autor: Celso Poderoso

 

Algumas empresas parecem utilizar mão-de-obra como se fosse uma commodity. Isso é observado com alguma freqüência em TI. Muitas empresas contratam e demitem funcionários como se fossem produtos, ou seja, enquanto são novos e dão bons resultados, os funcionários têm emprego garantido. Se estiverem desatualizados ou velhos, são rapidamente descartados.

 

Embora isso ocorra em algumas empresas, no Brasil e no mundo, nota-se que há um grande equívoco neste tipo de interpretação. Alguns dizem que se uma pessoa não consegue emprego é porque não é um “produto competitivo”. O problema, portanto, pode estar relacionado com qualquer dos fatores que influenciam na venda de produtos, como marketing, embalagem, preço ou falta de qualidade. Como em qualquer outro mercado, o vendedor é que escolhe estes elementos para que alguém o consuma. Portanto, caso não se consiga um emprego, pode ser que algum destes fatores esteja com problemas.

 

Sem discordar completamente deste argumento, nota-se que ele é, no mínimo, incompleto. Se é certo que as empresas não querem mais treinar e/ou (re)treinar seus funcionários (especialmente na área de TI), também é sabido que, para se realizar trabalhos de qualidade, é necessário ter um bom nível de maturidade nos processos. Daí a importância de uma formação para o mercado de trabalho com alto grau de especialização para solução dos problemas da empresa. Da mesma forma, sabe-se que não se atinge bons níveis de maturidade apenas com “sangue novo”. É necessário ter pessoas que conheçam os procedimentos e saibam aplicá-los com qualidade. Portanto, a experiência é muito importante.

 

Conversando com alguns colegas que já possuem bastante tempo de atuação nesta área, pude notar algumas argumentações interessantes. Sempre costumo falar sobre a falta de mão-de-obra especializada em TI e a quantidade de vagas sobrando à espera de bons profissionais. Um destes colegas me questionou dizendo que ele, apesar de toda experiência, teve que trocar de função para sobreviver. Com um pouco de conversa, notei que a coisa não é bem assim. Ele teve oportunidades de trabalho, até mesmo em grandes empresas. Porém, ele teria que trabalhar de noite e sua idade lhe permitia optar por não mais fazer isso.

 

Fica claro que o problema não está na oferta de trabalho, e sim no estágio no qual o profissional se encontra. É natural que aquele que procura uma oportunidade de trabalho tenha condições de atender àquele que quer contratar. Do contrário, por melhor que seja o “produto”, o “comprador” não se interessa. Um jovem, cursando ou recém-saído de uma faculdade, com certeza aceitaria a proposta imediatamente.

 

Às vezes vemos uma coisa e enxergamos outra. Muitas vezes as empresas preferem contratar mão-de-obra mais nova porque o jovem tem a disponibilidade que o experiente não tem. Isso não pode ser comparado com a questão da commodity. Mas é importante que cada profissional saiba “vender” e valorizar muito bem seu “produto”, mantendo-o bonito, de fácil acesso, atualizado e sintonizado com o mercado.

 

Celso Poderoso é diretor de relações internacionais e coordenador dos cursos de graduação tecnológica da FIAP.