Um outro olhar sobre o Basiléia 2

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(*) José Gomiz Mateo

Muito tem se falado sobre o Basiléia 2, acordo que regulamentará as necessidades adicionais de capital próprio de instituições financeiras para suportar futuras perdas. Criou-se um cenário de muita expectativa e até um pouco paranóico no mercado. Várias empresas do setor financeiro aqui no Brasil estão avaliando quais os impactos que o acordo trará para seus ambientes de Tecnologia da Informação e de que forma podem tirar proveito para tornarem-se mais competitivas frente à concorrência.

As consultorias também se movimentam para oferecer ao mercado serviços que sejam necessários para a gestão de riscos, que encadeará em implementações e alterações de sistemas dentro das organizações. E, no meio disso tudo, o que realmente é essencial, e a que, tanto as empresas de finanças quanto as de TI, devem estar atentas?
A resposta é: a gestão de riscos operacionais. Do ponto de vista da governança corporativa e de TI, o acordo Basiléia 2 se aplica à exigência da criação de políticas de gerenciamento de riscos para garantir total segurança e confidencialidade dos dados de clientes. Isso exigirá que as empresas do setor alterem processos e sistemas para cumprir as regras do novo acordo.
O processo para as decisões do Basiléia 2 já começou. As novas normas do acordo que, em síntese, são para mitigar riscos de fraudes e falhas no sistema, deverão ser publicadas em breve pelos bancos centrais dos países que integram o grupo dos sete países mais ricos do mundo, G7. Isto significa que os bancos de todo o mundo deverão estar alinhados com as novas regras de gerenciamento de riscos de crédito, operação e mercado até 2006, prazo fixado pelas autoridades do setor. Isso, é claro, se o Banco Central do Brasil acatar ao Basiléia 2, já que ainda não foi decidido se países não pertencentes ao G7 serão obrigados ou não a seguir o acordo.

Mesmo assim, já há certa movimentação das instituições financeiras para se prepararem, visando o ajuste da gestão de riscos de acordo com as regras estabelecidas pelo Basiléia 2. E não é para menos. A grande questão que tira as noites de “sono” dos executivos que comandam os bancos e financiadoras refere-se ao impacto do risco sobre a lucratividade da empresa, pois quanto maiores os riscos das instituições financeiras, maior será o capital retido, ou seja, elas terão mais capital alocado para cobrir eventuais falhas. Isso terá influência direta na diminuição de recursos para as organizações do setor utilizarem no mercado. O cuidado com os riscos torna-se, então, uma questão primordial para as organizações e passa a ser também um diferencial de competitividade.
Alguns dos grandes bancos já começaram os trabalhos e outros estão a todo vapor para a adoção do risk management, cuja implantação força uma série de alterações nos diversos sistemas existentes dentro das organizações e exige o mapeamento de riscos nos processos operacionais. Quanto mais aprofundado e pró-ativo for a governança tecnológica, menor será a probabilidade com perdas.
Ações de desenvolvimento e adequação de sistemas são necessárias para tornar eficiente a gestão de riscos nos bancos, e estão aquecendo o mercado de consultoria em TI devido à necessidade de alterações de infra-estrutura e de desenvolvimento de sistemas. Após a época de ouro da implantação do sistema de pagamento brasileiro (SPB), essa será uma nova oportunidade de crescimento para os fornecedores de serviços e soluções de TI. Segundo alguns institutos de pesquisa, a estimativa é de que sejam gastos 50 bilhões de dólares em todo o mundo. Caberá, então, aos provedores de serviços e soluções de TI dar suporte às empresas do segmento financeiro, auxiliando-as no cumprimento da política de gerenciamento de riscos como um todo.

Enfim, tanto para os bancos e demais empresas do setor, quanto para as consultorias de TI, o acordo Basiléia 2 deve deixar de ser encarado como uma dificuldade ou uma barreira, para tornar-se uma oportunidade de crescimento no mercado. É desta forma que seus executivos e diretores devem enxergar esse momento de mudanças no mercado financeiro, ou seja, como um desafio. Essa será uma excelente chance para as empresas diferenciarem-se frente aos seus concorrentes. Vai encarar?
*José Gomiz Mateo é auditor de qualidade da Resource Informática. [email protected]