De quem é a culpa?

0
6
Autor: Celso Amâncio
O fantasma da inadimplência ronda a economia brasileira. Segundo a Serasa Experian, o número de pessoas inadimplentes chegou a 57 milhões de brasileiros este ano, que também mostra que 60% dos inadimplentes têm contas mensais a pagar que custam acima de 100% de sua renda mensal.
Apesar do esforço dos analistas de gabinete, com espaços garantidos nas principais mídias, a culpa não é dos consumidores de baixa renda, que chegaram recentemente ao mercado consumidor.
Alega-se que falta educação financeira. E quem defende a tese está certo. Erra apenas ao apontar o dedo para os consumidores mais pobres e desinformados. Esse pessoal das classes C, D e E se tornou, apenas, a principal vítima do mercado financeiro.
São profissionais treinados e incentivados a “alcançar metas a qualquer custo”, em “empurrar” o crédito que agora se transforma em inadimplência.
Esses 57 milhões de brasileiros endividados receberam em suas casas, muitas vezes sem ter pedido, os vários cartões de crédito com os quais realizam os malabarismos do endividamento irresponsável.
A justificativa das instituições financeiras era a baixa “bancarização”. A realidade se percebe agora, era criar um canal para empurrar o crédito inconsequente.
Gerando, em menos de uma década, um endividamento que foi alavancado pelo sistema de credit-score, vendido como uma ciência que se basearia em “redes neurais” e outras besteiras do tipo e que garantiam a concessão de crédito com riscos mínimos.
E, ainda por cima, diminuir fraudes e manter um controle rígido sobre a inadimplência. O vício dos operadores de crédito nas ferramentas de credit-score induzi tanto os consumidores como o mercado como um todo a se tornarem vítimas da atual inadimplência.
Cometeram o típico erro dos que adotam tecnologias estrangeiras sem adequá-las às nossas realidades e sem ajustar os softwares de validação de crédito aos nossos indicadores de renda e emprego, além dos hábitos culturais e familiares.
Erraram ao abandonar e deixar em segundo plano a experiência e a intuição dos profissionais (vendedores, lojistas e analistas de crédito) sensíveis às nossas vivências e preparados para entender a real disponibilidade de pagamento da dívida do cliente na hora em que negociam com ele (ou ela) o crediário.
Resultado: juros cada vez mais altos reduzem o universo dos  clientes que aceitam o crediário e comprometem a saúde financeira dos que assumem as prestações, os levando a médio prazo à inadimplência crescente, como a que experimentamos agora.
Os consumidores, especialmente os de baixa renda, descobriram, intuitivamente, que foram induzidos a cair nas armadilhas do cheque especial e do crédito rotativo do cartão, com taxas de juros muito próximas as praticadas por agiotas.
Caíram na armadilha quando consumiram para satisfazer a demanda altamente reprimida. Até que a demanda reprimida se satisfez e a renda familiar foi superada pelo montante de dívidas contraídas. O que obrigou esses consumidores a caírem na real. E serem obrigados, por pura necessidade, a priorizar os gastos.
As dívidas não pagas, captadas por empresas como a Serasa Experian e demais agências de validação de inadimplência, foram para o fim da fila. A inadimplência iniciou, então, sua escalada, seguida das observações, alertas e avisos dos fornecedores de crédito.
Esses mesmos fornecedores de crédito que há poucos anos foram os responsáveis pela adoção de caríssimas ferramentas de análises de risco, transplantados de culturas que nos são alheias.
Que estimularam a oferta de crédito a partir de softwares que eliminaram o talento e a sensibilidade dos analistas humanos, que acumularam, ao longo das décadas, a expertise de avaliar a renda familiar dos consumidores de acordo com suas capacidades de assumir e, o mais importante, de honrar suas dívidas.
Ainda dá tempo de buscar saídas.
É hora de eliminar as improdutivas reuniões que tentam culpar os consumidores por decisões de oferta de crédito adotadas.
E resgatar para a análise de oferta de crédito ferramentas que agilizam o processo, mas que incorporem na decisão final as expertises humanas, com conscientização, integração e ajuste da oferta de crédito à real capacidade de pagamento das dívidas assumidas.
O que obrigaria os analistas de crédito a uma volta ao básico de toda e qualquer venda: se lembrar sempre que estamos tratando com gente.
 
*Celso Amâncio é presidente da Agência Consumidor Popular e especialista em concessão de crédito para o consumidor popular.