Os impactos do crédito e cobrança no país

Webinar da Acrefi conclui que o auxílio emergencial reduziu a inadimplência

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Luiz Rabi
Luiz Rabi

O universo da concessão de crédito envolve assumir riscos. Mas, uma gestão de cobrança eficiente mitiga possíveis contratempos nessa importante cadeia que, ao realizar sonhos, contribui para o crescimento do país. Esse foi um dos resumos extraídos da webinar “Crédito e Cobrança: Resultados Assertivos, Cenário Desafiador”, realizada este mês pela Acrefi – Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento. 

Participando do encontro on-line, Luiz Rabi, economista-chefe da Serasa Experian, mencionou sobre o dia a dia e o que afeta as instituições, diante do cenário de crédito e adversidades. “Se tem uma coisa que flutuou na pandemia é a inadimplência – estamos falando de 63 milhões de pessoas, o que equivale a 40% da população adulta. Quando veio a pandemia, na segunda quinzena de março e início de abril do ano passado, o número de inadimplentes foi para 66 milhões, foi o recorde histórico”, afirmou.

O economista avaliou que os governos não demoraram a agir no combate aos impactos da pandemia na economia, com pacotes de socorro ‘gigantescos’. “Tivemos aumentos de gastos públicos, redução de alíquotas de impostos, taxas de juros na mínima histórica (no caso do Brasil, Selic a 2%, e no exterior, taxa 0%). Além de auxílio emergencial colocando dinheiro diretamente no bolso das pessoas. Diante desse arsenal anticrise, o quadro de inadimplência foi sendo gradualmente revertido ao longo de 2020 e terminamos o ano com 61,5 milhões de brasileiros inadimplentes. Quando esgotou o auxílio, o número de inadimplência voltou a subir, o que podemos concluir que foi fundamental para compor renda – uma vez que há setores que não retomaram. Agora, com ele [auxílio] voltando a ser pago em abril – estamos vendo a inadimplência cair”, ponderou.

Já Cleber Martins, Consultor de Operações da Acrefi. “O objetivo é compartilhar conhecimento, além de gerar valor aos participantes e discutir temas da atualidade”. Martins mediou discussões sobre os lançamentos de produtos de crédito, a evolução dos meios de pagamentos e outras inovações de cobrança, além de analisar os avanços regulatórios, reformas estruturantes, adequação aos programas do governo e as relações de consumo. “Fizemos uma pesquisa durante o painel todos os participantes, formado em sua maioria por profissionais de recuperação de crédito/cobrança e gestão de riscos de médias e grandes empresas: 70% deles atingiram os objetivos planejados para suas operações durante o primeiro semestre de 2021. 83% acreditam que o segundo semestre apresentará indicadores ainda melhores.”

Por sua vez, Clariana Vieira, head de recuperação de crédito do Banco GM e vice-coordenadora da comissão de crédito e cobrança da Acrefi, comentou que o mercado financeiro passa por profundas transformações, criando oportunidades e desafios. “Trabalhamos para trazer conhecimento e superar esse cenário que estamos atravessando e, cada vez mais, impulsionar o segmento. É importante que possamos criar, cada vez mais, um ambiente saudável. Uma novidade neste momento de transformação digital, que estamos vivendo, é o quanto as novas gerações e as novidades transformam o setor – seja em pequenas ou grandes instituições financeiras. Isso passa pelo open banking, Cadastro Positivo, PIX – é um novo mundo. Não há mais volta: pensar essa inovação e suas ferramentas, como o uso de dados para sustentabilidade dos negócios – é fundamental”, classificou.

Ela falou também sobre a Lei 14.181/21 do Superendividamento, que prevê renegociação de dívidas sem encargos e traz novas regras para o Código de Defesa do Consumidor a fim de proteger o cidadão. “É uma relação de ganha-ganha, que dá transparência – e ninguém quer um cliente superendividado que não consiga sanar suas pendências. A dinâmica da Pandemia trouxe novos desafios e, lidar com essa complexidade, tornou-se um relevante”, ponderou.

Elias Sfeir, presidente executivo da Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), destacou que o crédito é um grande instrumento de recuperação da economia. “Crédito vem do latim credere – e ele é um impulsionador da economia”, disse. Segundo ele, a relação crédito/PIB no Brasil é de 53%, enquanto esse percentual corresponde a 150% nos EUA e 90% no Chile. “Então, o crédito tem um espaço de crescimento, tem um grande potencial. As atividades econômicas, em alguns países, já estão retomando e a vida como era anteriormente também – com algumas modificações no trabalho à distância. Temos problemas de matriz energética e alguns pontos para melhorar, mas vamos superar os desafios”, afirmou.

Sfeir ressaltou que os birôs são parceiros dos consumidores, consolidando e democratizando informações para concessão de crédito. “Seja para um grande banco ou pequeno varejista, eles [birôs] democratizam essa alavancagem. Sempre respeitando a LGPD – isso abre um grande espaço, como o Cadastro Positivo, para negociação”, afirmou. Para ele, a inteligência artificial e o machine learning são grandes auxiliares nesse processo, assim como os investimentos em plataformas de decisão, que colaboram com esse ciclo. “Outro ponto de destaque é o investimento em ferramentas de proteção a fraudes, que colaboram com essa atualização tecnológica, para que todos possam tomar suas melhores decisões. Dados são o grande garantidor do crédito, quanto mais informação melhor será a decisão. O desafio é fazer essa integração com uma dinâmica simples”, ponderou Sfeir, alertando.

Sobre a proposta de Reforma Tributária, em tramitação na Câmara dos Deputados (PL 2337/2021), foi Luiz Rabi, do Serasa, quem se manifestou. O economista alertou que muita gente acredita que o maior livro do mundo é a bíblia, mas há um equívoco. “Não é a bíblia, mas o Código Tributário Brasileiro – pesa duas toneladas, dois metros de altura e 1,40 de largura. Houve um advogado que imprimiu e chegou nesse ‘livrão’. É preciso resolver a questão do gasto público e essa complexidade tributária – e se isso não se equacionar, não vejo muita saída nessas questões. Pode-se chamar de qualquer coisa, menos de Reforma Tributária: não terá grande impacto relevante na macroeconomia e somente servirá para redistribuir o ônus de quem paga mais ou menos Imposto de Renda (IR)”, finalizou Rabi.