A crise, o crédito e a vez do Brasil?

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O consumidor brasileiro começa a sentir os efeitos da crise mundial que eclodiu com a quebra do Lehman Brothers, nos Estados Unidos, a origem do terremoto financeiro. Mas ao mesmo tempo em que o crédito foi afetado, pode ser a grande saída para manter a economia funcionando e diluir os efeitos colaterais. O cenário pode ser otimista, para os pessimistas.  Mais ou menos importante é o cenário de oportunidade que a crise abre, com transformações profundas em algumas áreas, a exemplo da financeira, e consolidação. “O podre vai ser excluído, com certeza”, justifica Manoel Felix Cintra Neto, presidente do Banco Indusval Multistock e conselheiro da BM&F, nesta Entrevista Exclusiva.  A surpresa levou à interrupção do crédito, deixando as empresas com dificuldades de liquidez, de honrar seus compromissos. Houve interrupção de projetos e investimentos. “Efetivamente, chegamos a dezembro apontando para um processo de desaceleração e desaquecimento forte da economia, com grande risco de chegar a uma recessão”, afirma o empresário.
O Brasil poderia ter se desviado da crise, se o governo tivesse se antecipado e garantido os seus bancos, como aconteceu nos países europeus e nos EUA, como Cintra Neto argumenta. “Não teríamos crise nenhuma de crédito, o dinheiro continuaria fluindo normalmente. Mas essas situações são complexas”, analisa. A recuperação de crédito passou a ser ainda mais fundamental dentro dos bancos que, para gerarem liquidez, resgataram os empréstimos feitos aos clientes. “Crédito 100% renovado foi dado apenas para aqueles clientes que realmente não tinham condições para pagar”, diz. Entretanto, essa situação não pode permanecer por muito tempo, é necessário que as movimentações retornem, “porque banco é acumulação de ativos e tem de operar para gerar ativos e lucros”, explica. 
Cintra Neto acredita que o Brasil entrará em recessão, mas será um dos primeiros países a sair dela, com potencial para se tornar uma das soluções para o colapso financeiro. O segredo está na mudança do foco dos investidores estrangeiros, que, segundo a previsão do banqueiro, deixarão de investir nos Estados Unidos (onde a crise nasceu e permanece) a procura de novas economias que proporcionem crescimento sustentável, sem gerar novas bolhas. Nessa perspectiva, as economias emergentes do Bric têm grande potencial, e o Brasil leva vantagem entre eles. Um momento importante para a retomada do crédito e volta ao crescimento.
Quais os impactos da crise financeira mundial no Brasil?
A crise passou a ser sentida no Brasil a partir da quebra do Lehman Brothers. Começou com o corte das linhas de crédito estrangeiras para o mercado brasileiro (exportadores e bancos) e com a interrupção de crédito para as empresas, como consequência. Com isso, deu-se início a uma seleção, por parte dos investidores institucionais, em relação à aplicação em bancos, atingindo os pequenos, médios e, até, alguns grandes. Quando o crédito escasseia é natural que haja um upgrade na seleção: o banco irá emprestar para quem tem melhor possibilidade de pagar e não para quem precisa mais. Dessa forma, as melhores empresas acabam levando o crédito e as pequenas e médias, que são atendidas pelos bancos pequenos e médios, sofrem mais dificuldades.
Qual a relação entre o crédito e a crise?
O crédito é fundamental para que a economia se movimente. Comparo às artérias do corpo humano: não adianta ter muito sangue concentrado no coração, as artérias são necessárias para levar o sangue para todos os órgãos do corpo. E cada instituição, cada artéria, tem a sua importância, mesmo as menores que levam sangue ao dedinho do pé. Se não irrigar determinado setor, vai gangrenar e atingir todo o corpo. Foi o que aconteceu com a economia brasileira, quando começou a restrição de crédito aos investidores institucionais e atacados, e, até mesmo, entre grandes bancos, que interromperam o CDI (o crédito interbancário), assim como o crédito externo foi interrompido, só que o Banco Central demorou a reagir e abrir linhas. Dessa forma, houve uma parada na atividade em geral de forma muito brusca. E a velocidade com que as coisas aconteceram no Brasil impressiona: em setembro houve recorde de produção de automóveis, a economia estava a todo vapor; a partir de setembro, a curva desceu de forma impressionante, foi um tranco mesmo.
Como a falta de crédito externo e nos bancos nacionais impactou as empresas?
Os créditos foram interrompidos, as empresas tiveram dificuldades de liquidez, de honrar seus compromissos, interromperam projetos e investimentos e, efetivamente, chegamos a dezembro apontando para um processo de desaceleração e desaquecimento forte da economia, com grande risco de chegar a uma recessão. Os créditos se deterioraram, com a falta de liquidez as empresas começaram a ter mais dificuldades para selarem seus compromissos; o crédito para exportação praticamente inexistiu em outubro. Em setembro, eu ainda consegui fazer uma emissão de US$ 60 bilhões, acho que foi a última do País.
É possível que o Brasil passe por uma recessão?
Nós vamos ter recessão. Todos os setores foram atingidos, não consigo achar um que esteja bem, crescendo em plena atividade. A não ser os cardiologistas e as empresas de cobrança, que vão ser procurados nessa fase.
Quais as principais dificuldades para os concessores de crédito?
Estamos atravessando um período de crédito muito difícil no Brasil, pois temos de concorrer contra os governos, e não banco contra bancos. Todos os países significativos passaram a garantir as emissões dos seus bancos. Hoje, mesmo se o Banco do Brasil, o maior do País, fizer uma emissão lá fora, dificilmente venderá, porque concorrem com o papel de um banco português e a garantia do governo português ou espanhol, por exemplo. Assim como os bancos americanos que também têm garantias do governo americano. Podemos oferecer apenas uma taxa menor para o cliente, mas o mundo está em estado de pânico. O que menos importa hoje é a taxa, a maior preocupação é a segurança. Por mais que os nossos bancos estejam realmente saudáveis e seguros, não dá para concorrer com papel do governo. E como o nosso governo não está garantindo da mesma forma, fica difícil restabelecer plenamente essas linhas externas.
Além da falta de garantia aos bancos, quais problemas o senhor vê na economia brasileira?
Não temos no Brasil uma capacidade de geração de poupança forte por parte do governo, que gasta mais do que arrecada. Muito pelo contrário, ele concorre na captação de recursos junto com a iniciativa privada. E não temos capacidade de geração de poupança na economia de modo geral, porque nós prescindimos de complementar as nossas necessidades com poupanças externas. Ainda dependemos muito da captação externa para podermos crescer e continuar desenvolvendo. A interrupção desse capital, por causa da crise, foi muito grave para nós. O Banco Central, a partir de dezembro, tomou providências e está usando as reservas para financiar o comércio exterior, mas não é um financiamento que flui naturalmente na economia. Pois, ao pedir 40% de garantias extras, o Banco Central torna o crédito muito caro. É um fenômeno econômico bem interessante: o crédito se tornou escasso e, por isso, conforme a lei da oferta e da procura, encareceu, trazendo ainda mais dificuldades para as empresas.
Como fica a gestão de clientes no setor bancário com a crise?
Em relação aos bancos, cada um tem de cuidar dos seus clientes. E não podem parar de vez, porque a liquidez e a segurança estão em primeiro lugar. Mas essa situação não pode continuar por muito tempo, porque banco é acumulação de ativos e tem de operar para gerar ativos e lucros.
Quais os impactos dessa desaceleração dos bancos para os seus clientes?
Os bancos procuraram não parar de vez, mas tiveram de fazer liquidez, já que encontraram restrições nas aplicações, principalmente por parte dos fundos de pensão e investidores grandes. Por isso, pediram resgates dos empréstimos feitos aos seus clientes, ou renovaram apenas parte deles (de 70% a 80%). Crédito 100% renovado foi dado apenas para aqueles clientes que realmente não tinham condições para pagar.
Mas e o crédito que atingiu o varejo?
No início da crise, o crédito de varejo, como financiamento de automóveis e motos, foi interrompido para gerar liquidez nos bancos. As novas linhas de crédito, que surgiram do Fundo Garantidor e de novas concessões, vieram com uma série de restrições, o que interrompeu o fluxo de dinheiro para vários setores, como o de carros usados, por exemplo. Não adianta querer financiar somente carros novos, porque para o consumidor comprar o novo, tem de vender o usado. Se não vender o usado, não compra o novo, e interrompe todo o processo de vendas.
Além do automobilístico, quais os setores que mais sofreram com a crise?
Ela pegou todos os setores. Na agricultura, a crise veio em um momento importante do plantio e este setor ficou sem crédito, já que o crédito estatal corresponde a apenas 26%, o resto é privado. Nesse período, plantou-se de 10% a 15% menos, por dificuldades como comprar sementes, e também houve uma queda nos preços das commodities. A agricultura, um setor que contribui para a balança de pagamento e crescimento do País, está sofrendo muito. Grandes empresas, como Sadia, Aracruz e Grupo Votorantim, que estavam ganhando com os derivativos, Real contra Dólar, foram pegas despreparadas, com a desvalorização muito rápida do Real, e tiveram prejuízos grandes. Será necessário mapear todo o mercado para saber quem tinha ou não derivativo de mercado, e quais as perdas reais. Essa situação também deixou os bancos apreensivos com os seus clientes, porque os efeitos da crise apareceram rápido para quem tem capital aberto, mas para quem não tem, é necessário esperar o fechamento dos balanços.
O senhor se avalia pessimista ou otimista em relação à crise?
Estou expondo fatos, não estou fazendo conjecturas. Não dá para esconder que estamos em uma crise e que ela atingiu o Brasil. Poderíamos ter desviado do colapso, pois nunca tivemos tantas reservas e nossa economia estava muito bem, mas isso não aconteceu. Fomos atingidos quando o Lehman Brothers quebrou e não percebemos prontamente, porque o grupo estava no Brasil há pouco tempo e não tinha captado muito dinheiro. O mercado brasileiro não sentiu que um banco Triple A americano tinha quebrado, como a Islândia, que tinha 60% de suas reservas aplicadas no Lehman. Quando houve a quebra, os bancos ficaram mundialmente sob suspeita. Na Inglaterra, formaram-se filas nas portas dos bancos para se sacar dinheiro e guardar em casa. Para contornar essa corrida, Gordon Brown (primeiro-ministro do Reino Unido) tomou a atitude de garantir os seus bancos que não tinham problemas, mas não aguentariam a corrida.
Houve uma crise de confiança a partir da quebra do Lehman Brothers?
No momento em que quebrou o sexto maior banco americano o investidor perdeu a confiança em todos os bancos, por isso os governos passaram a garantir as instituições para estancar esse pânico. O Brasil não fez a mesma coisa, porque o Lehman Brothers não estava aqui e não sentimos. Mas o efeito veio aos poucos. Nós não tivemos o choque, mas a água foi esquentando. Todos os bancos que foram afetados pelo Lehman Brothers cortaram suas linhas de crédito. Nós vínhamos bombando com a exportação e, de repente, em setembro e outubro, eu não renovei nenhuma linha de crédito, só que um mês antes havia negociado US$ 60 milhões.
Como o Brasil poderia ter escapado da crise?
O Brasil poderia ter escapado se antecipando e garantindo os depósitos, como outros países fizeram. Não teríamos crise nenhuma de crédito, o dinheiro continuaria fluindo normalmente. Mas é fácil falar. Essas atitudes são complexas, pois envolvem diálogos e negociações com o Congresso, e teriam de partir do princípio que todos os políticos têm espírito estadista e põem o País acima dos seus interesses político-partidários.
E como o País pode sair da crise?
O governo vem tomando uma série de medidas que são pontuais, mas que não resolvem o fluxo todo de maneira geral. O Lula parece entender que é necessário irrigar o mercado com crédito. Ao declarar que com a compra do Banco Votorantim visava restabelecer o crédito para o financiamento de automóveis, demonstrou o conhecimento de que não basta ter dinheiro no Banco do Brasil ou no Bndes. São necessários os canais de distribuição, e ele está preocupado em fazer o crédito chegar às pequenas e médias empresas, que também foram muito atingidas.
Posto todo este cenário de crise, como os bancos estão administrando a concessão de crédito?
Os bancos tendem a procurar os créditos mais líquidos nesse momento. O crédito no Brasil estava crescendo, diminuindo taxas e aumentando prazos.  Houve o recrudescimento disso, os prazos diminuem e as empresas começam a ter de trabalhar com garantias mais líquidas de novo. Há uma mudança, de maneira geral, no perfil do crédito.
Essa mudança vai impactar o consumo?
Já impactou. A produção foi impactada e o consumo diminuiu muito, tanto que nós já estamos tendo desemprego de maneira geral. O setor financeiro tem cortado bastante, reforçando as áreas de cobranças, crédito e captação, e, para compensar, cortou nas áreas comerciais, por exemplo.
Quais as expectativas para o futuro?
Nossa expectativa é como será a economia norte-americana no governo do Barack Obama. Tenho visto na imprensa e em artigos de economistas estrangeiros um pessimismo geral, de que essa crise pode durar de três a cinco anos. Mas qualquer previsão acima de um ano é chute. No entanto, espera-se um strike de Obama para reverter essa situação, e, para mim, nós somos parte dessa solução. Se ele fizer isso, e obtiver sucesso, as coisas poderão ser resolvidas ainda no primeiro semestre. Acredito que Obama fará uma revisão nos Estados Unidos parecida com o Proer [Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, iniciativa brasileira cuja finalidade é recuperar instituições financeiras que estejam com problemas financeiros]. Ele irá separar a parte boa e a ruim das empresas, ficará com a boa e deixará a ruim para os acionistas, que terão de agasalhar o prejuízo. Não se trata de estatização, mas o governo americano pode fazer ativar e render a parte boa, e até depois pagar os prejuízos. Mas isso tudo é algo bem complexo juridicamente, são atitudes muito violentas, que carecem de aprovação nacional e internacional.
Como o Brasil poderá ser parte da solução contra a crise?
O que as cabeças pensantes estão procurando é um setor, ou uma economia pujante, que possa receber recursos de forma sustentável, sem criar uma nova bolha, promovendo o crescimento sustentável. Eu acho que o Brasil, a Índia e a China são parte dessa solução. Nesses países existe responsabilidade fiscal e monetária razoável, e todas as condições – como infraestrutura, mercado consumidor forte e classe empreendedora – para receber investimentos sem gerar inflação, e com crescimento. Hoje, o dinheiro tem corrido para os EUA. A crise está lá, nasceu lá, mas todo mundo ainda quer comprar dólares e títulos do governo americano, o que pode gerar inflação. E inflação somada à recessão é a pior situação que eles poderiam ter. Os investidores vão ter de encontrar um lugar seguro para esse excesso de dinheiro, que não os EUA. Espero que cheguem logo à conclusão que o Brasil é esse lugar, para voltarmos a receber investimentos fortes. Nós temos tido sinais disso, como no caso específico do Indusval, que hoje já está com todas as linhas de crédito restabelecidas para emprestar. Essa pode ser a solução a curto prazo, os capitais fluírem para esses países.
Todas essas mudanças no mercado acarretarão uma revisão estrutural, certo?
Isso já está acontecendo. As regulamentações que levaram a essa situação estão sendo revistas, como a alavancagem e os critérios para a concessão de crédito, de financiamentos imobiliários. Essas modificações estruturais mostram os erros que existiam na economia e levaram a essa situação.
Quais as perspectivas para o Brasil?
Nós já passamos por várias crises. Essa revisão que os EUA vão fazer, nós já fizemos aqui várias vezes. As instituições aqui não são alavancadas, nós estamos todos dentro da Basiléia [acordo internacional fechado em 1988 na Suíça, que tem como objetivo criar exigências mínimas de capital, que devem ser respeitadas por bancos comerciais, como precaução contra o risco de crédito] que eles recomendaram tanto, mas não estavam, a fiscalização das instituições é algo efetivo. O Brasil está numa situação muito boa e, apesar de sofrer, pode sair dessa crise. Com o relançamento da economia mundial, essa base que temos vai nos diferenciar. E nós temos vantagens sobre a China e a Índia – que também têm possibilidades de receber esses investimentos -, como viver sob um regime democrático consolidado, o que dá muita segurança para o capital.