Avanços, apesar de tudo

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No momento em que a Revista ClienteSA completa dez anos seria interessante rememorar, mesmo que rapidamente, como estava a economia brasileira em 2001, e como se encontra atualmente. A crise internacional de 2000 iniciada com a quebra das empresas ponto.com e de alguns fundos de financiamento imobiliário, agravou-se com o atentado de 11 de setembro nos Estados Unidos, que gerou o temor de uma escalada terrorista que pudesse desestabilizar as economias.

No Brasil enfrentávamos um forte ajuste das contas externas, com desaceleração expressiva da economia, o PIB cresceu apenas 1,3% em 2001, baseado em taxa de juros básica superior a 20%, inflação superior a 7% e uma carga tributária crescente, na casa dos 30,8% do PIB. Esse processo de ajustamento se estendeu a 2002 e 2003. Graças à recuperação da economia mundial e, sobretudo, ao crescimento da demanda da China, as exportações brasileiras, especialmente de commodities, aumentaram vigorosamente. Complementada pela  expansão do crédito, elas propiciaram a retomada econômica, que perdurou até 2008, interrompida com a nova crise internacional que atingiu fortemente o crescimento da economia brasileira em 2009.

No entanto, as medidas adotadas pelo governo e a continuidade da demanda por commodities permitiram rápida recuperação da economia, com o PIB se expandindo em 7,5% em 2010, compensando em parte as perdas de 2009, mas com reflexos sobre a taxa de inflação, que chegou a 5,9% no final do ano.

O Banco Central, preocupado com o aumento da inflação, elevou a Selic, visando desacelerar a taxa de crescimento da economia, que vinha em ritmo bastante forte a partir do segundo semestre de 2010. Apesar das medidas adotadas pelas autoridades monetárias, o crescimento do mercado de trabalho continuou intenso e as vendas do varejo, alavancadas pelo crédito, se mantiveram acima do desejado pelo BC, o que levava o mercado a aguardar novas elevações da taxa Selic. Com o recrudescimento da crise mundial, no entanto, seu impacto começou a se fazer sentir sobre a economia brasileira, que vem apresentando desaceleração gradativa, mas consistente, no segundo semestre deste ano. Preocupado que a desaceleração pudesse se converter em recessão na medida em que o cenário externo continuou se agravando, o BC iniciou uma redução da taxa Selic, mesmo com a inflação apresentando aceleração, atingindo a 7,1% em doze meses, acima do limite superior da meta inflacionária.

A grande diferença entre a situação brasileira de 2001 e a de 2011 é a de que o Brasil acha-se agora muito mais preparado para enfrentar a deterioração da economia mundial, dispondo não apenas de alto volume de reservas cambiais, como de instrumentos para impedir que a economia entre em recessão.

Fato notável a destacar nesse período de dez anos foi o significativo crescimento do mercado interno, com a incorporação de mais de 40 milhões de novos consumidores, chamados de classe média emergente, que representa importante ativo para evitar maior impacto da crise externa sobre a economia brasileira. Ressalte-se ainda, que esse novo contingente de consumidores veio ao mercado para ficar, não aceitando voltar à situação anterior, quando não tinham acesso ao crédito e, em consequência, aos bens de maior valor.

Marcel Domingos Solimeo é economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo.