Comprando e vendendo gente

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Artigo: Mario Ernesto

Antigamente, pessoas eram vendidas nas praças ou em mercados e tinham de trabalhar o resto da vida para o novo dono, a menos que fugissem. Hoje elas são vendidas como parte da empresa em fusões e aquisições. Melhorou muito, pois inexiste a obrigação de trabalhar para o novo dono e, às vezes, surgem oportunidades profissionais melhores e até mais interessantes.

Mas trocar de camisa não é simples, em especial para quem pertence à empresa minoritária. Mudam valores, forma de atuação, chefias, planos, política de RH e, às vezes, local de atuação ou função.

Analogia interessante pode ser feita com o futebol, pensando numa fusão envolvendo Palmeiras e Corinthians. Como este tem maior torcida, seu nome continua, talvez com Palmeiras como segunda marca para o time reserva, ou para outro esporte, como muitas vezes acontece nas empresas.

A negociação seria divulgada com as tradicionais palavras: “reunimos os melhores talentos do setor, fortalecemos as operações, teremos novas oportunidades e agora estamos irmanados no mesmo objetivo: torcer juntos e trabalhar para fazer do novo Corinthians o grande nome do futebol brasileiro e mundial”. É só imaginar como se sentiriam corintianos e palmeirenses, para ter ideia do que ocorre no íntimo de boa parte das pessoas envolvidas nesses processos.

Por mexer com sentimentos, expectativas e valores pessoais, fusões e aquisições devem ter cuidado similar com as equipes, com os que se toma nas due dilligences com tributos, contas, projeções de resultados, pendências e outros aspectos econômicos, financeiros e administrativos. Infelizmente, em boa parte dos casos isso não acontece, com intermediários e dirigentes ou proprietários das empresas envolvidas apenas preocupados com o que vão receber ou pagar, e com a continuidade do negócio depois de finalizada a fusão ou aquisição.

Vender e fundir empresas é uma tendência que cresce por várias razões: os fundadores ficam velhos e não querem ou não podem continuar, o mercado precisa de empresas globalizadas para competir no país e fora, novas tecnologias exigem mudanças que a gestão tradicional não consegue absorver e implementar etc.

Qualquer que seja a razão é fundamental considerar o impacto sobre as pessoas envolvidas, o que exige experiência, competência e sensibilidade de quem se encarrega do trabalho. Tanto pelo respeito devido a cada um que trabalha e ajudou a construir o negócio, como também para retenção e estímulo aos talentos, que podem ou não garantir o êxito da operação.

Mario Ernesto Humberg, palestrante e consultor de comunicação especializado em mudanças empresariais, gestão de crises e ética empresarial, é presidente da CL-A Comunicações, coordenador do PNBE Pensamento Nacional das Bases Empresariais, Conselheiro da ADVB Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (SP), autor e co-autor de vários livros, entre os quais “Ética na Política e na Empresa”.