O mercado se abre à telefonia IP

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Embora a tecnologia de telefonia IP ainda esteja ensaiando seus primeiros passos no Brasil, já começam a despontar grandes projetos que servirão de referência às empresas que, mais cedo ou mais tarde, deverão adotar soluções do gênero. Os players se empenham para contribuir com a fase de aculturamento em que se encontra o mercado nacional, e alimentam boas perspectivas para os próximos anos, convictos de que a voz sobre IP é uma tendência inevitável na realidade das organizações.
Afirma-se, por exemplo, que a VoIP proporciona reduções médias de custo com telefonia variáveis entre 25% e 40%, e que a área de telefonia pode ser integrada com a equipe de TI. Ao ser utilizada plataforma única para voz e dados, vale destacar a economia com infra-estrutura de comunicação e com os recursos humanos, assim como as facilidades para dispor de diferentes canais (voz, e-mail, fax) no mesmo equipamento.
Voice over IP ou VoIP é a tecnologia que trata da utilização de redes de comunicação de dados para a transmissão de voz, o chamado protocolo IP (Internet Protocol). Para a comunicação de voz, uma das fortes vantagens desta tecnologia é estar baseada na comutação por pacotes (tal como ocorre com as redes de dados) e não na tradicional comutação por circuitos usada na telefonia comum. Na comutação por pacotes, é otimizada a utilização da rede, que, além de trafegar dados e imagens de internet, também pode trafegar ligações telefônicas.
Outro benefício é que a distância da chamada não encarece as ligações, pois os roteadores das redes utilizadas não diferenciam se uma chamada de VoIP é para a Europa ou para a mesma cidade. Isto elimina os custos com ligações internacionais pela telefonia convencional, cujas operadoras têm de pagar às operadoras estrangeiras para que as chamadas cheguem ao seu local de destino.
Usos – Convém diferenciar as formas de utilização desta tecnologia, que oferece resultados distintos. Existe o uso de telefonia IP para interligar várias localidades da organização, dispensando a rede de telefonia tradicional e possibilitando considerável economia de tarifas com as operadoras. Isto já está bem mais difundido em nosso mercado corporativo e é recomendável para as novas localidades da mesma empresa.
Outra alternativa de uso é a telefonia IP interna, na qual a rede local de dados da companhia serve também para transmitir voz, dispensando igualmente a rede de telefonia tradicional. Neste caso, a economia obtida não tem relação com a conta de telefone, mas com infra-estrutura e pessoal, inclusive por não haver necessidade de manter duas equipes de profissionais para administrar redes diferentes.
Dois computadores equipados com placa de som, microfone e um software de telefonia podem estabelecer conversação empregando uma rede IP. Ou um computador pode se comunicar com um telefone comum, conectando-se à rede telefônica convencional através das gateways (dispositivos que fazem a conversão entre os pacotes recebidos pela rede IP para um sinal analógico). Na comunicação de um telefone para o outro, a chamada começa no sistema de telefonia tradicional, mas a gateway processa a conversão para os pacotes a serem utilizados e transmitidos pela rede IP. Tratando-se de rede privativa, há possibilidade de utilizar protocolos de priorização dos pacotes de voz.
“O investimento com telefonia IP interna é maior, o que torna mais difícil justificá-lo. Em nossa corporação, há um ano e meio estamos utilizando telefonia IP na comunicação com a nova regional do Alto da Lapa, na capital paulista, e o mesmo sistema será implantado em outras três novas localidades ainda neste semestre.. Em cada unidade será feito um estudo de rentabilidade”, afirma Márcio Gonçalves, gerente-geral da área de Enterprise da Siemens.
Ele entende que o uso dessa tecnologia para conectar diferentes localidades terá um crescimento maior do que a telefonia IP interna, “principalmente num país analógico como o nosso. O que está acontecendo é o cliente adotar um site e instalar a telefonia IP para aprender, para aculturar-se e acompanhar a tecnologia”, observa, mencionando a oportunidade de integrar os diversos canais de comunicação da empresa como um dos benefícios não mensuráveis em termos financeiros.
Aculturar – A utilização que a Siemens vem fazendo da telefonia IP, em suas filias, também se destina a aculturar o seu próprio pessoal, a sua equipe de vendas, admite Márcio. E acrescenta que a rede deve garantir Qualidade de Serviço (QoS) para a implantação de VoIP. Do contrário, será inevitável fazer upgrade da rede.
Antevendo uma tendência para a adoção de IP PBX pelo nosso mercado, a Siemens acredita que, nos próximos três anos, 5% dos terminais em redes com mais de 100 computadores serão IP, e que este volume poderá saltar para mais de 10% em 2007.
Na análise de Don Peterson, presidente e CEO da Avaya, “a telefonia IP para empresas atingiu a maioridade, e agora a decisão crítica de comunicações a ser tomada pelas empresas não é se vão ou não adotar a telefonia IP, e sim quando vão fazê-lo”.
No mês de junho, a Avaya anunciou as novas soluções de seu portfólio Eclips (Enterprise Class Internet Protocol Solutions), que abraça todos os seus produtos de telefonia IP, numa iniciativa que visa a sua rápida adoção pelo mercado corporativo. Segundo Fernando Lucato, gerente de soluções para essa linha de produtos da empresa, a própria Avaya é um exemplo da redução de custos e do aumento de produtividade em curto prazo trazido pela telefonia IP, uma vez que a companhia conseguiu reduzir em 50% os custos com ligações internacionais entre seus escritórios localizados em São Paulo e Miami. Agora, a comunicação é realizada através do seu link de dados.
“Temos um cliente de varejo, em Curitiba, que possui solução 100% IP, com entroncamente IP com São Paulo e cerca de 300 usuários no Sul. Outro cliente da área de educação, em São Paulo, já utiliza aparelho telefônico com visor de cristal líqüido”, informa Fernando, considerando que a massificação de tecnologia vem pelas pequenas e médias empresas, “que só investem em soluções que tragam ganhos concretos e imediatos”.
Gateways IP – Pesquisa da Forrester Research avalia que, entre os anos 2000 e 2006, o crescimento de unidades de gateways IP, vendidas na América Latina, deverá ser de 117%. A Avaya lançou a linha Eclips no mercado brasileiro em março de 2001 e, hoje, tem na telefonia IP um dos seus quatro pilares de atuação.
“No Brasil, os projetos de telefonia IP começaram a surgir no ano passado. O mercado ainda está aprendendo, sendo que nos Estados Unidos e na Europa essa tecnologia é mais utilizada. Nossos produtos têm configuração modular, pois a tendência futura é ter plataforma aberta para mesclar”, diz o gerente, que estima em US$ 300 o custo médio por usuário conectado ao sistema de telefonia IP.
Entre as vantagens da configuração modular, Fernando ressaltou a possibilidade de a empresa poder experimentar uma evolução gradual, além da proteção sobre o investimento já realizado, pois não há necessidade de trocar toda a plataforma ao migrar para a telefonia IP, o que confere interoperabilidade com outros vendors.
Não há dúvida de que a convergência é um assunto de primeira ordem entre os fornecedores de tecnologia. A Alcatel, por exemplo, nos últimos tempos investiu US$ 4 bilhões em desenvolvimento de tecnologia para suportar redes convergentes. “A estratégia é disponibilizar solução com foco em convergência, capacitando também os canais de parceiros que possam trabalhar com projetos para esse tipo de solução. Em 2001, lançamos um programa para integrar novos parceiros com perfil para convergência”, justifica Lourinaldo Silva, diretor de e-business networking da Alcatel, acrescentando que 80% dos produtos comercializados pela empresa nos EUA são soluções de convergência com VoIP.
No mercado brasileiro, a empresa introduziu o assunto há cerca de dois anos, segundo o executivo, e aposta num rápido crescimento do número de implementações até 2005: “Nos próximos três anos, creio que haverá um crescimento de 30% a 40% dos negócios realizados no mercado corporativo das soluções de convergência e VoIP.”
QoS na rede – Lourinaldo admite que a implementação de telefonia IP não é algo muito simples. “Deve ter rede que suporte Qualidade de Serviço (QoS) e, obviamente, ter equipe capacitada para lidar com o assunto”, avisa o executivo, considerando que o pessoal de TI absorve facilmente o conhecimento de VoIP, “que já é tema de atualização tecnológica”.
Primeiramente, a Alcatel faz uma auditoria para verificar se a rede tem condições para o tráfego de voz. Se não tiver, poderão ser feitas inclusões de hardware ou de software, alguns upgrades ou mesmo a atualização total da rede. “Se em algum momento a banda não dá mais, está esgotada, o sistema de telefonia tem inteligência para identificar isso”, informa.
O diretor de e-business aconselha as empresas a buscarem escalabilidade quando forem escolher uma solução de VoIP, para que ela possa ser introduzida de forma gradativa, e que também queiram ter a telefonia com VoIP, “que significa ter todos os recursos de PBX disponíveis na VoIP”.
“Rede de computadores, rede de telefonia (PBX), servidor de e-mail, acesso rápido à internet, VPN (Virtual Provider Network). A Alcatel juntou tudo numa única caixa, o que é um conceito muito importante para o cliente, que gerencia uma plataforma com um único fornecedor”, diz Lourinaldo, concluindo que a convergência é um caminho real a ser seguido por todas as empresas.
A telefonia IP tem sido mais utilizada por empresas que dependem de estrutura de comunicação de rede, como companhias da área financeira e organizações corporativas. E já começa a ser implantada em central de atendimento.
Os benefícios das soluções IP convergentes
Estudo realizado pela Siemens e Deloitte Consulting, sobre os benefícios das soluções IP convergentes para pequenas e grandes organizações, revelou os seguintes resultados: maior produtividade do funcionário, menores custos operacionais, menor gasto de capital, redução de custo total de propriedade e uma maior capacidade para atrair e reter novos clientes. Por si só, o Retorno sobre Investimento de curto prazo demonstra ganhos rápidos e uma maior credibilidade para futuros lançamentos.
Desde que as soluções IP convergentes sejam implementadas de forma compatível às necessidades do negócio e preservem a infra-estrutura já existente, tais benefícios podem ser obtidos por qualquer tipo de organização, seja pública ou privada.
Além da redução de custos de investimentos na rede, segundo o relatório, as soluções IP convergentes também preparam a organização para novas maneiras de fazer negócios, utilizando, por exemplo, recursos multimídia.
A estréia da tecnologia IP na Copa do Mundo
Durante os jogos da Copa do Mundo, a telefonia IP possibilitou a redução de custos de contas telefônicas da FIFA, simplificou a administração de sua rede e conferiu maior flexibilidade de trabalho aos usuários. Foi o caso da equipe da Avaya que, através do IP Softphone em seus laptops, pôde utilizar seus computadores para fazer chamadas ao mesmo tempo em que acessava seus e-mails, sem ter de pagar tarifas de ligações de longa distância. A telefonia IP viabilizou o roteamento das chamadas entre as localidades do torneio no Japão, sobre a rede privada de computação da FIFA, em vez de trafegarem nas redes de telefonia pública.
Vanderlei Rigatieri Jr., diretor presidente da Avaya, comentou que a rede convergente da empresa forneceu as estatísticas dos jogos e informações para suprir um banco de dados de grande volume, como o site FIFAworldcup.com, além dos sistemas gráficos e de comentários da TV Host Broadcast Services, que produziram imagens e as retransmitiram ao mundo.
Nos dias de jogos, a rede convergente registrou uma média de cem mil chamadas telefônicas IP, e um total aproximado de 3,2 milhões de chamadas combinadas IP e analógicas foram efetuadas durante os 31 dias do campeonato. Apenas no último jogo, 1,5 bilhão de pessoas assistiram a vitória do Brasil sobre a Alemanha.