A segunda bolha da Internet

Um dos livros que me tem acompanhado de anos para cá chama-se Dot.Con. Escrito pelo jornalista John Cassidy, é um relato fascinante da “bolha da Internet” e seus principais vilões. O fascínio é porque eu vivi bem dentro daquilo e lembro muito do que pensava então. Agora, estamos vivendo outra bolha. Vale a pena a leitura do artigo do Luis Nassif (e ele é otimista em relação ao Brasil).

Coluna Econômica

A Internet já é uma realidade mais concreta do que na fase da primeira folha, no início dos anos 2000. Já existe o uso extensivo de suas ferramentas e há negócios consolidados em vários setores.

Mas há também uma bolha em curso. Nos Estados Unidos há projetos pagando 270 vezes a receita líquida. Um dos pioneiros brasileiros da Internet, hoje radicado nos Estados Unidos, Marcelo Ballona relata casos de uma empresa praticamente sem sede, que conseguiu captar US$ 100 milhões em cima de uma avaliação do projeto total de US$ 1 bilhão.

O momento é muito parecido com o estouro da bolha de 2.000, com a diferença de que, na época, a economia mundial era muito mais sólida.

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Um dos pontos centrais da bolha são os chamados sites de compras coletivas.

Hoje em dia, nos Estados Unidos, há mais de 1.500 sites do gênero, criando um problema complicado para as lojas parceiras.

De um lado, porque a maioria dos “groupons” (nome dessa modalidade de sites) vendia audiências fictícias. Depois, porque as promoções pouco agregavam às empresas. Por exemplo, uma pizzaria vendia pizzas a R$ 15,00. Entrava em uma promoção e o site de compras oferecia a R$ 3,00. A pizzaria lotava, mas de um público que, passada a promoção, dificilmente voltaria lá. Não era seu público alvo.

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Hoje em dia, a bolha está provocando toda sorte de incursões, do marido de Demy Moore à Lady Gaga.

Tomam-se alguns critérios, como visibilidade pública, número de seguidores no Twitter e, a partir daí, define-se a precificação do projeto.

Entram nessa mixórdia muitas ideias que não prosperaram na primeira bolha, como sistemas de reservas em hotéis, sites de viagem etc. Em muitos casos, monta-se o site, a realidade virtual, mas não se acerta sequer os contratos com os hotéis cadastrados.

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No início da bolha da Internet, foi famoso o caso do cãozinho do iG e o sistema de franquias em pizza. Para incrementar o valor do iG, o publicitário Nizan Guanaes anunciou, além da venda de flores, a venda de pizzas pela Internet, com a marca iG e o símbolo do cãozinho. Só que era o tipo do negócio que não poderia ficar apenas no virtual. Tinha que cadastrar pizzarias, definir cardápio, ambiente etc. Obviamente o projeto sequer saiu do lugar.

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Outro complicador são as mudanças que estão ocorrendo no mercado de celulares, smartphones e tablets. Ontem a Apple lançou o iPhone 100% desbloqueado. Isto é, poderá ser vendido a qualquer pessoa que poderá optar por qualquer operadora.

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Além disso, os novos sistemas operacionais de smartphones estão alijando rapidamente grandes fabricantes do mercado, redesenhando o ranking global. É uma revolução similar à que ocorre no lançamento do Windows, que permitiu à Microsoft alijar a maior parte dos concorrentes, fabricantes de aplicativos.

Agora, a própria Microsoft está ameaçada, no terreno dos sistemas operacionais de celulares.

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Hoje em dia, o fenômeno da bolha está restrito à economia norte-americana. Por aqui, há inúmeros projetos tecnológicos sendo analisados, mas com uma boa dose de realismo.