Economia de energia em casa já vira crédito de carbono



(Matéria interessantíssima que saiu no Valor Econômico de hoje)

 









    Marcos de Moura e Souza, de São Paulo
    26/02/2010




 






Lâmpadas mais econômicas, painéis solares, TVs desligadas quando não há ninguém na sala, roupas no varal e não na secadora. Com medidas como essas, famílias principalmente nos EUA e no Canadá estão tentando não apenas reduzir a conta de energia no fim do mês, mas fazer sua estreia no mercado de crédito de carbono.


No mês passado, uma família do Estado da Pensilvânia se tornou provavelmente a primeira no mundo a conseguir vender seus créditos a uma empresa que desejava compensar as emissões de gases de efeito-estufa. A venda foi feita pelo site MyEmissionsExchange.com, que pertence à corretora de energia americana Oceans Connect. A empresa diz que não conhece nenhuma outra companhia no mundo que, como ela, verifica e converte reduções individuais de emissões em créditos de carbono.


Cerca de 1.800 pessoas, a maioria americanas e canadenses, estão cadastradas no site, para tentar entrar no mercado de créditos de carbono pessoal – até agora exclusivo de pessoas jurídicas.


Há quatro famílias do Brasil e aproximadamente 20 de países da América Latina (incluindo Colômbia, Bolívia, Guatemala e Panama) disse ao Valor por e-mail o diretor de projetos da empresa, Paul Herrgsell. Ao todo, famílias de mais de 30 países estão cadastradas e em processo de avaliação pela corretora para ter seus créditos validados e emitidos. A reportagem tentou encontrar as famílias brasileiras, mas a assessoria do MyEex informou que uma delas não autorizou que seus contatos fossem divulgados; as outras três não responderam.


O impacto para o clima do corte de algumas emissões domésticas é irrisório se comparado ao impacto das medidas em escala nacional que as Nações Unidas, ONGs e governos de países pobres e em desenvolvimento cobram que sejam adotadas pelas economias mais desenvolvidas.


Mas a procura pelo MyEmissionsExchange parece indicar o quanto famílias vão incorporando no seu cotidiano ações contra a mudança climática – enquanto governos tropeçam em negociações de longo alcance.


A perspectiva de ganho com a venda de crédito de carbono pessoal é quase simbólica. Herrgsell estima que uma família média dos EUA, com quatro pessoas, fature apenas entre US$ 40 e US$ 60 por ano com créditos de carbono.


Uma tonelada de carbono que Tami e Wilson Randy, o casal da Pensilvânia, deixaram de emitir rendeu meros US$ 21,50 – ainda assim antes do desconto dos 20% de comissão da corretora – na operação de venda de crédito para uma empresa de Ohio, a Molten Metal Equipment Innovations. Os Randy, segundo reportagem do diário britânico “Financial Times” deram um fim na cama de água aquecida de seu filho, desligaram computadores e televisores quando não em uso, instalaram lâmpadas mais eficientes, aposentaram a secadora e investiram US$ 58 mil em um sistema de painéis solares. Resultado: reduziram sua conta de eletricidade a zero. E tiveram seus créditos certificados.


O que é atrai no mecanismo é a economia que se consegue fazer por ano com as medidas que o site sugere e que habilita os interessados a ingressarem no mercado. A estimativa é que, só por meio de medidas de economia de energia, uma família de quatro pessoas deixe de gastar entre US$ 400 e US$ 600 por ano.


O site tem uma ferramenta que permite aos usuários calcularem quanto sua economia de energia equivale em créditos de carbono.


“O apelo do My Emissions Exchange é que combina ações ambientalmente boas com bons benefícios econômicos”, diz o executivo. O mote da empresa é Be Green, Earn Green (algo como seja verde e ganhe uns dólares).


“Um número dada vez maior de pessoas percebe que reduzir as emissões de carbono é a coisa certa a se fazer. E é importante notar que a redução do uso de energia rende a maior parte do benefício econômico. O retorno com os créditos não é grande, mas eles representam uma confirmação positiva sobre as medidas que as pessoas adotam”, afirmou Herrgsell.


Para Marco Antonio Fujihara, consultor da área de créditos de carbono, esse tipo de iniciativa pessoal parece ter mais apelo em países com uma matriz energética muito suja – baseada em combustíveis fósseis -, como EUA, Europa e China. “Nesses lugares, qualquer esforço que empresas e até famílias façam tem um impacto na redução das emissões.” No Brasil, onde mais de 70% da matriz energética é hidrelétrica, o ganho é menor.


Mas ele tem dúvidas quanto até que ponto o interesse das famílias que tentam entrar no mercado de créditos pessoais de carbono se baseie na ideia de que estejam colaborando na luta contra o aquecimento global. “O que essas famílias estão fazendo é precificando seu esforço de redução de energia. Não sei se é por uma causa ou se apenas por uma questão de bolso.”


O site faz a verificação das medidas acompanhando mensalmente as contas de energia dos lares, por um período de 12 meses, e as reduções do consumo obtidas com algumas das medidas sugeridas. A corretora ajusta seus cálculos considerando as variações climáticas. “Não queremos punir nem premiar pessoas por mudanças no clima – somente por reduções reais de emissões de carbono”, diz Herrgsell.


Segundo o “Financial Times”, muitos especialistas dizem que a razão pela qual as tentativas de vender créditos de carbono pessoal não têm atraído empresas compradoras até agora é a grande dificuldade de verificar se as reduções de carbono realmente aconteceram e de quantificá-las.


“Isso é bom para sensibilizar e mobilizar as pessoas a agir pessoalmente contra as mudanças climáticas”, disse, segundo o jornal britânico, Davide Vassallo, diretor da Arthur D. Little, empresa de consultoria “Mas não acredito que formará um mercado.”