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Paixão x Amor

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Um momento em que me sinto muito empolgado em minhas palestras é quando, ao falar sobre a afetividade, mais especificamente sobre o casamento, apresento a diferença entre paixão e amor. O alívio que algumas pessoas experimentam é notório. Para algumas trata-se de uma redescoberta.

 


O mito do amor moderno, aquilo que a maioria de nós acredita espontaneamente, diz que se você encontra a pessoa certa e apaixona-se por ela, se esse amor for verdadeiro vocês devem se casar e essa sensação irá durar para sempre. Mas se por acaso essa paixão acabar deve-se concluir que o amor não era verdadeiro e devemos partir em busca de outra paixão.


 


Acontece que paixão eterna é biologicamente impossível. O cérebro humano não permite paixão inacabável.


 


A paixão é um estado alterado de consciência que gera prazer ao cérebro. Em qualquer experiência intensamente prazerosa ocorre secreção de dopamina – substância química responsável pela transmissão de sinais na cadeia de circuitos nervosos. Poderíamos dizer que a pessoa apaixonada fica “enlouquecida”. Ela coloca o seu objeto de paixão num verdadeiro pedestal, só pensa nele, não vê a hora de estar com ele e quer viver com ele para sempre. Em especial, a primeira fase da paixão é muito intensa. Quando apaixonado, o indivíduo segrega uma quantidade muito grande de dopamina que inunda seu cérebro. A química cerebral se desequilibra.

 

E o que faz o cérebro? Procura imediatamente restaurar o equilíbrio. Com isso, quimicamente, compensa o excesso de dopamina, gerando aquilo que chamamos de tolerância. É semelhante ao que ocorre quando as pessoas usam drogas ou substâncias que de alguma forma provocam euforia.  Ao criar a tolerância, há necessidade de mais “droga” para provocar o mesmo efeito. Desta forma, após passar pela fase de pico, a tendência do fogo da paixão é perder intensidade.

 


No ciclo do processo da paixão há dois riscos: 1) quando no pico, a pessoa pode tomar decisões que venham a comprometer toda sua vida. Haidt (2006) diz que nesta fase ninguém deveria pedir alguém em casamento ou aceitar casar-se com alguém; e 2) no arrefecimento da paixão, pode-se achar que era tudo uma ilusão e romper prematuramente uma relação que poderia dar certo.


 


A primeira conclusão é que paixão não se transforma em amor. Paixão e amor são processos completamente diferentes. O processo do desenvolvimento do amor começa lentamente e vai se desenvolvendo com o tempo de forma ascendente. Você não ama alguém intensamente assim que a conhece. É semelhante ao amor que o pai devota pelo filho que nasce. Aos poucos vai se estabelecendo um vínculo que na maioria dos casos se tornará muito forte.


 


Você conhece alguém, começa a conviver com essa pessoa e descobre que tem valores similares, identificações e muitas diferenças em relação a ela. O convívio leva às descobertas. Estabelece-se um relacionamento e aumenta a afetividade. Em seguida, ambos começam a fazer projetos juntos e decidem se casar. A vida do casal vai trazer inúmeras possibilidades. Juntos passarão momentos bons e felizes mas também terão que vencer muitas dificuldades. O processo se desenvolve de forma que vai havendo um verdadeiro entrelaçamento entre as vidas, até mesmo uma cumplicidade. Amar é olhar em direção ao outro, dialogar, perdoar, compartilhar, dar-se de maneira intensa. Quanto mais intensamente as pessoas se dão, mais profundo é o amor que se estabelecerá entre elas.


 


Qual é a função da paixão? Atrair. Juntar inicialmente duas pessoas. Dar a elas a oportunidade de vencer alguns passos iniciais sem o “uso” da razão. Faz com que sejamos ousados, quebremos algumas barreiras e avancemos alguns sinais vermelhos. Porém, uma pessoa apaixonada indefinidamente, com a razão suprimida pelo sentimento enlouquecido, não teria muitas chances de sobrevivência, de forma semelhante à que acontece com um “drogado”.


 


Qual é a função do amor? Estabelecer um vínculo duradouro e uma vida significativa. E quando as pessoas percebem que sua constituição biológica não permite paixão eterna, elas retiram de si um grande peso – e até mesmo um certo sentimento de culpa: “Eu amo minha mulher (ou meu marido), mas aquela paixão inicial não existe mais”. É como se tivessem perdido algo, como se o “amor” passasse a não ter qualidade. E não é nada disso. O verdadeiro amor é muito diferente da paixão. Uma relação para sempre é aquela que vem com o amor e com uma certa pitada de paixão.


 


Se esta revelação trouxe para você um certo alívio, e neste momento você não vê a hora de chegar em casa e dar um beijão no seu amor, já me sinto recompensado por este artigo.


 


E aqui podemos fazer um paralelo com o mundo corporativo. Muitos pregam que o grande funcionário é aquele que trabalha com paixão, com grande envolvimento profissional. Você já deve ter ouvido esta pregação.


 


Conforme vimos, a paixão é um processo intenso, porém instável e de curta duração. Assim, quem quer viver repleto de paixão precisa se apaixonar sempre. Ou seja, mudar de parceiro, mudar de empresa, mudar de projetos e assim por diante. Ninguém vai engajar alguém fazendo com que ele se apaixone pela carreira, pelo projeto, pela empresa etc. A Psicologia Positiva, psicologia do século 21 e voltada para o desenvolvimento do ser humano normal e excelente, preconiza que o indivíduo só irá se realizar plenamente se colocar as suas forças pessoais em ação nas várias áreas da vida que valoriza (Seligman, 2002).


 


A tristeza é natural, você não precisa fazer nada para ficar triste. E se não fizer nada também ficará triste. Já a alegria precisa ser construída. Para ser feliz e realizado, o indivíduo precisa desenvolver seus dons e colocá-los a serviço de algo significativo. E aqui o paralelo com o amor é inevitável. A recompensa maior que alguém pode ter em seu trabalho e nas demais áreas de sua vida que valoriza é fazer alguma coisa que valha a pena. Para se sentir bem a pessoa precisa fazer algo que esteja de acordo com suas forças pessoais, represente um desafio e esteja voltado para um futuro melhor.


 


Agora, cabe a nós decidir: vamos estimular em nossas vidas e em nossas empresas muita paixão ou muito amor?


 


Referências:




  • HAIDT, Jonathan. Uma Vida Que Vale a Pena. Rio de Janeiro: Elsevier Editora Ltda., 2006.


  • SELIGMAM, Martin E.P. Felicidade Autêntica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

 

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