Há motivo para preocupação?

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Com a inadimplência que as pequenas e médias empresas vêm apresentando entra em pauta quais são as causas. Para Flávio Calife, economista da Boa Vista Serviços SCPC, ela é resultado da redução da atividade econômica e do custo dos empréstimos, que apresentaram aumento. No entanto, ele afirma que ainda é cedo para preocupar-se com uma elevação significativa da inadimplência. Em entrevista exclusiva, Calife fala sobre esse cenário, além de destacar os desafios para essas empresas.
Portal Crédito e Cobrança – As pequenas e médias empresas têm apresentado alta na inadimplência. Quais são os principais motivos para isso?
Flávio Calife: As pequenas e médias empresas representam numericamente a maior parte das empresas na economia. Em geral, costumam refletir precocemente algumas tendências (aliviam pressões do mercado de trabalho ou regulação de crédito, por exemplo), sendo, portanto, de vital importância o seu acompanhamento. 
Avaliando os dados inadimplência, mais especificamente os dados de protestos, existe uma concentração nas empresas de pequeno porte, cerca de 93% dos casos, porém mantida em igual patamar ao encerramento de 2013. Tanto para as empresas de médio e grande porte, esta concentração se manteve inalterada, correspondendo a 4% para as médias e 3% para as grandes.
Os empresários estão mais cautelosos para adquirir crédito?
Todos os indicadores de confiança na economia tem mostrado bastante cautela, tanto por parte dos consumidores quanto por parte dos empresários. Sobre a demanda por crédito especificamente, o cenário está morno. De acordo com os dados de demanda por crédito do BC (índice de condições de crédito), houve queda expressiva da demanda por crédito por parte das grandes empresas no primeiro trimestre do ano quando comparado ao último trimestre de 2013 (caiu 0,39 pontos). Já nas pequenas e médias empresas, houve uma pequena elevação (6 pontos), contudo muito abaixo do esperado pelas instituições bancárias (0,42 pontos). 
Os bancos estão mais rigorosos na hora de conceder crédito para esses empresários?
Sim. Como consequência do aumento dos níveis de inadimplência em 2010-2011, em 2012 houve grande empenho dos bancos públicos, suprindo a fragilizada oferta dos bancos privados. Com isto, também vimos aumentar as linhas de crédito direcionadas, com menores níveis de inadimplência, amenizando a inadimplência geral do sistema e também mitigando o risco dos ofertantes através da diversificação de portfólio, reduzindo sua exposição concentrada em certas categorias. Estas tendências ainda se mantêm, mas não de forma tão austera quando como ocorreu no auge da inadimplência do período mencionado. Ainda assim, o saldo de crédito em geral cresce acima de 10%, devendo encerrar o ano em 12%, nível ainda considerado alto.
Quais são os setores das principais empresas inadimplentes?
Novamente utilizando como variável de comparação os protestos, hoje o principal setor inadimplente é o comércio, com 54% dos casos registrados. Serviços fica com uma parcela de 28%, enquanto a indústria com outros 17%. Os demais casos, 1%, ficam para empresas dos demais setores.
Quais são os controles preventivos para evitar a inadimplência nessas empresas?
Informação e planejamento. Tendo em mente todas as variáveis que afetam as dívidas, o usuário do crédito tem maior controle do pagamento das parcelas. Além disso, com estas informações, ele pode pesquisar no mercado taxas de juros menores, maiores prazos de financiamento, que barateiam o custo efetivo do empréstimo.
O problema é que empresas de pequeno e médio porte, em geral, não possuem planejamento financeiro. Alguns donos deste tipo de empresas ainda tem a mentalidade de que se endividar é algo necessariamente ruim e acabam optando por medidas não sustentáveis para expansão e/ou pagamento das contas. Para sair desta situação, acabam piorando os problemas. Quando há planejamento, o crédito é algo extremamente benéfico e dá fôlego ao empresário em certos períodos críticos. Ao se endividar, deve-se ter em mente as variáveis de custo do crédito: juros, prazo, saber o quanto a parcela compromete a renda mensal.