Uma via de duas mãos

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Muito tem se discutido sobre a legalidade do uso do score de crédito. De que forma essa ferramenta auxilia o sistema financeiro? Como ela afeta o consumidor? Falta transparência sobre seu uso? Essas são algumas perguntas que ainda persistem. Para Aglas Watson, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o caminho correto é atingir um resultado satisfatório, que ao mesmo tempo atenda os interesses dos agentes de mercado pela consolidação do sistema financeiro nacional em bases, bem como os interesses dos consumidores em ter seus direitos respeitados. Em entrevista ao Portal Crédito e Cobrança, Watson esclarece algumas dessas questões, além de comentar as vantagens e desvantagens do uso do score de crédito.
Portal Crédito e Cobrança – Se o score de crédito for determinado ilegal pelo STJ, quais serão os impactos para o sistema financeiro?
Watson: As consequências seriam negativas. O score de crédito é um instrumento que já faz parte do conjunto de ferramentas operacionais do sistema financeiro e, em boa medida, também do comércio; de forma que sua perda representaria uma “mudança nas regras do jogo”. A extinção deste instrumento poderia se traduzir em maiores custos para as partes envolvidas em uma operação de crédito (o consumidor e o estabelecimento comercial/financeiro), devido à natural retração na oferta de crédito que sucederia a esta medida.
Quais são os benefícios dessa ferramenta?
Ao conhecer o perfil dos clientes demandantes de crédito é possível calibrar as necessidades de provisões para cobranças duvidosas de maneira mais eficaz, evitando uma exposição excessiva ou uma repressão exagerada da oferta de crédito, todo o qual favorece uma diminuição dos riscos e propicia um barateamento do crédito. Em linguagem econômica pode-se afirmar que esta ferramenta diminui os custos de transação, ampliando o acesso ao mercado financeiro a milhares de consumidores.
Adicionalmente, segundo alguns analistas, a forte expansão do crédito ocorrida nos últimos anos, de forma paralela à melhoria dos níveis de renda experimentada por parcela significativa da população, tornou-se possível, entre outros fatores, pelo fato de as instituições financeiras e os estabelecimentos comerciais terem melhorado seus mecanismos de controle de qualidade do crédito. Neste processo, a contratação dos serviços de empresas de classificação de crédito (como as responsáveis pelo sistema de Pontuação Score), teria tido um papel relevante.
Há desvantagens?
Do ponto de vista financeiro, esta ferramenta tem um saldo líquido (relação benefício custo) positivo para o comércio e as instituições financeiras em geral. Os problemas com o sistema de Pontuação Score não residem no instrumento em si; como já apontado, ele não é o primeiro nem o único a ser utilizado para identificar a capacidade de pagamento dos demandantes crédito e financiamento. O que está sendo questionado, e a justiça está examinando, é a forma como este vem sendo utilizado por parte de diversos estabelecimentos.
Do ponto de vista das relações consumidor – empresas/instituições financeiras existe o que em economia denominamos de assimetrias de informação. Termo com o qual se alude à desigualdade na quantidade de informação possuída por cada uma das partes envolvidas em uma transação comercial ou financeira. Desigualdade que se traduz em prejuízo (passível de ser medido em termos monetários) para a parte menos favorecida na transação (aquela que detém menos informação).
De que forma o uso desse sistema afeta o consumidor?
Ele afeta de diversas maneiras. De um lado, como anotado pelos defensores deste instrumento, a expansão do crédito em favor de milhares de novos consumidores foi favorecida pela existência deste mecanismo de. Se comparado este benefício com os prejuízos que seu uso acarretou a alguns usuários que tiveram seus planos de consumo/produção inviabilizados, aparentemente o saldo seria positivo. No entanto, o que levou este problema às mãos dos órgãos superiores de justiça é o efeito colateral de uma classificação negativa para um indivíduo ou firma. Os impactos de uma classificação negativa se prolongam no tempo e podem representar perdas (materiais e subjetivas) difíceis de calcular.

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