Um novo modelo de relacionamento?



Mais um, diria meu lado cínico. Pode até ser, o fato é que as mudanças estão ocorrendo rápido demais e não dá para ficar parado. Yes, we can, disse Obama, e com a ajuda maciça de um bando de jovens que usou a Internet para doar 10, 20, 30 dólares, ele chegou à presidência. E começou a fazer algumas mudanças já, para surpresa de muitos.

 

Só que não dá para mudar por mudar. Alguns anos atrás, cansado de bater com a cara na porta de empresas que não eram sequer 1.0, eu comecei a propor projetos 2.0, tipo redes de relacionamento em vez dos programas de fidelidade típicos. Mas eram projetos que faziam sentido para as instituições com quem eu estava discutindo e para as comunidades que podiam ser construídas em volta. Falo isso porque, de repente, virou in vender redes de relacionamento para empresas. Como se fosse fácil. O diretor de uma rede de lojas amigo meu fez uma concorrência para um programa de relacionamento com públicos intermediários, basicamente especificadores dos produtos que ele vende. E lá vieram as propostas de redes sociais. Problema: os especificadores concorrem entre si.

 

O devaneio acima me ocorreu porque visitei um blog chamado Projeto Secreto (http://projetosecreto.wordpress.com) e eles falaram de uma comunidade de raquilabis (vocês vão entender) cuja experiência achei muito interessantes e gostaria de compartilhá-la com vocês. Leiam e se divirtam (ou não).

 

Vamos todos virar manteiga?


Começamos a nossa aventura conversando com os ciberativistas / ciclistas / educadores / programadores / malabaristas membros de um hacklab aqui em São Paulo.


E aí você pergunta: o que diabos é um hacklab?


Hacklabs são grupos que desenvolvem tecnologias de software livre e mídia alternativa como incentivo à cultura, educação e mudanças sociais. Esse hacklab ainda não tem um nome oficial, então eles aportuguesaram a expressão e se referem a eles mesmos como um raquilabi. Além de criar e administrar websites e oferecer soluções para vários tipos de clientes, eles são um dos grupos que ajudou a levar o software livre para o Ministério da Cultura, e estão envolvidos na ação Pontos de Cultura, incentivo a instituições por todo o país que fazem o conhecimento circular. Não é legal ter que resumir o que esses caras fazem, sozinhos ou em rede, em poucas linhas. Porque é muita coisa, e é coisa grande. Mas também não dá para segurar informação e não abrir o código, então confira os melhores momentos clicando em “ler o resto” aí embaixo. Ou gaste uns 5 minutos pra ver nosso vídeo no youtube. http://www.youtube.com/watch?v=qVv7Kezu6y8&eurl

 


Onde?
São Paulo – SP


Quem?
Luis Fagundes, coder e assessor de comunicação
Leonardo Germani, blogueiro e professor de robótica
Pedro Germani, primo do Leo, sósia do Jim do The Office e o único com formação em ciência da computação
Rodrigo Sampaio, pedagogo e malabarista
Fabianne Balvedi, ciclista e curitibana
Joana, a filhote de maritaca que caiu no quintal


O quê?


* O grupo defende que software é ferramenta de cultura – os índios têm lá o tipiti para secar mandioca, nós temos o software. Ciberativistas acreditam que cultura não pode ser propriedade de uma empresa, por isso a defesa do software livre. Código aberto estimula inovação em rede, comunidades pelo mundo inteiro, algo que não existe com softwares proprietários. O software nasceu livre, o que aconteceu foi que as empresas descobriram que poderiam ganham MUITO dinheiro com eles. Abrir o código é o que permite a longevidade de um software – além de ser muito mais divertido.


* O que o grupo descobriu é que não é preciso ser uma ONG, um instituto, não é preciso fazer parte do governo para promover mudança social. Dá para ser uma empresa que trabalhe com esses valores novos que estão surgindo, aplicando conhecimento. Ganhar dinheiro, sim, mas do jeito que eles acreditam.


* Então por que as grandes empresas ainda não adotaram a cultura do software livre? Segundo eles, existem algumas impressões erradas. Por exemplo: software livre não significa que ninguém vai ganha dinheiro. Significa que o código é aberto. O próprio raquilabi ganha dinheiro com software livre, é o negócio deles afinal. Outra coisa é que muitas empresas pensam que, se elas usam software livre, elas são obrigadas a distribuir e redistribuir o código, o que significaria repassar segredos para a concorrência. A Fabianne diz que isso não é verdade. Se o software é modificado e se mantém in-house, ele não precisa ser divulgado. Finalmente, o Luis explica que são essas impressões erradas e a inércia das grandes empresas que inibem o esforço para mudar – e quanto maior a empresa, maior a inércia.


* Para o pessoal do raquilabi, a cultura colaborativa está se espalhando por todas as áreas. Mesmo no mundo empresarial – eles mesmos são uma empresa que usa um modelo totalmente horizontal de administração. Não existe hierarquia e nem chefe. Outro exemplo é o da Bicicletada (http://www.bicicletada.org/tiki-index.php), um movimento sem líderes no qual ciclistas se juntam para reinvidicar seu espaço nas ruas. Outro ainda é o das comunidades que fazem legendas e disponibilizam episódios de séries americanas na internet poucas horas depois da exibição nos EUA. Para o Leonardo, não é mais possível separar cultura de tecnologia, a tecnologia já alterou o comportamento e as relações das pessoas de um jeito que as duas coisas viraram uma só.


* O Rodrigo diz que uma amiga dele tem a seguinte viagem: para fazer manteiga, é preciso bater e bater e bater o leite até que uma hora ele vira manteiga. Certo? Muito bem, se as pessoas estão batendo o leite desde os movimentos de resistência das década de 60 e 70, agora que está todo mundo conectado, será que tudo vai, finalmente, virar manteiga?


Os crânios do raquilabi agora vão enfrentar o desafio de ajudar na criação de uma escola, a Politéia (http://www.politeia.org.br/tiki-index.php), seguindo o modelo horizontal de administração. É parte de um movimento de escolas democráticas que, segundo o Luis, está para a educação como o software livre está para a cultura.


No meio da nossa conversa, o Pedro grita do quintal que encontrou um passarinho caído no chão. É a Joana, filhote de maritaca que ainda não consegue voar e já tinha aparecido no jardim alguns dias antes. “Põe ela numa caixinha”, o Luis responde de volta, “e a gente cuida dela até ela aprender a voar”.


Acho que eu nem preciso explicar porque eu coloquei essa história aqui no final do post.”