Amigo oculto corporativo

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Autor: João Paulo Azevedo

 

A crise financeira global, com oscilação do dólar e retração do crédito, tem levado empresários brasileiros não apenas a um alto grau de incerteza, mas também a um forte sentimento de estagnação. Se por um lado o fantasma da crise de 1929 fez com que os norte-americanos disseminassem a desconfiança aos quatro cantos do planeta, por aqui a instabilidade mundial trouxe muita especulação, sacudiu a bolsa de valores e gerou abalos em diversas áreas, sobretudo na de TI (Tecnologia da Informação).

 

Considerado um dos setores mais prósperos da atualidade, o setor de tecnologia, que irá movimentar US$ 51,45 bilhões só na América Latina, está em sinal de alerta. Em meio a tantas incertezas, uma coisa é certa: o segmento sabe que sofrerá conseqüências e que não sairá imune desse efeito dominó, mas ainda não conseguiu detectar quais serão os reais danos.

 

Especulações à parte, temos de encarar esse período com uma postura otimista. Isso porque as empresas continuarão a demandar recursos de tecnologia. A grande diferença será na forma de adquiri-los. Na prática, à medida que o mercado buscar alternativas para cortar custos e reorganizar suas planilhas de investimento, os fornecedores de TI devem aproveitar essa brecha para propor novos modelos de negócio. Ganhará quem conseguir inovar e buscar oportunidades na crise.

 

Nesse sentido, um nicho que tem tudo para ser explorado e que pode gerar boas oportunidades é o de Utility Computing, que propõe o uso dos serviços de TI em função das necessidades da empresa, potencializando a otimização da infra-estrutura de hardware, software e serviços, com redução dos custos fixos por capacidade não utilizada. Ou seja, a empresa irá pagar somente pelo o que efetivamente consumiu.

 

Já disseminado dentro de alguns setores, como energia e telecomunicações, o Utility Computing desponta como uma realidade no universo da TI, pois se apresenta como uma excelente alternativa para empresas que, em tempos de crise, buscam economia e controle na utilização dos seus recursos. Algumas abordagens inovadoras já são realizadas por empresas como a Salesforce.com, que disponibiliza software de relacionamento com o cliente no formato de serviço. Além dela, outro exemplo é a Amazon, que se transformou numa vendedora de serviços de Utility Computing, oferecendo ao mercado o modelo de aluguel de serviços, como armazenamento, banco de dados e processamento. Na prática, os clientes deixam de investir na compra e manutenção de infra-estrutura.

 

Por outro, também não temos dúvidas de que a valorização do dólar acaba beneficiando, de certa forma, a prestação de serviços offshore a partir do Brasil, já que os serviços são cotados na moeda americana. Assim, o desaquecimento da economia dos Estados Unidos vem fazendo com que as principais empresas consumidoras de TI passem a aumentar, gradativamente, as atividades offshore em destinos como Brasil e outros mercados emergentes. Isso pode trazer impactos positivos, como a redução de concorrência internacional.

 

Outro aspecto interessante, com crise ou sem ela, é o forte movimento de fusões e aquisições em diversos setores, principalmente na indústria financeira. Santander/Real, Unibanco/Itaú não nos deixam mentir. Nesse cenário, a tecnologia da informação desempenhará um papel fundamental para integrar plataformas e aplicações. Mais do que nunca, a TI terá a oportunidade de contribuir para reduzir custos e incrementar a qualidade dos processos organizacionais.

 

Em temporada de crise, a renovação dos parques tecnológicos, por questões óbvias, não deve se concretizar, bem como o crescimento de parte da indústria de TI, que se baseava, em grande parte, nas demandas no segmento de pequenas e médias empresas. Assim, para combater essa onda de estagnação é preciso fazer uso de estratégias arrojadas. Uma delas, por exemplo, pode ser a internacionalização das operações, que faz diminuir a dependência do mercado americano e, paralelamente, pode ampliar a participação em receita vinda de outras regiões.

 

No Brasil, infelizmente, crises não são novidade. Em 1999, por exemplo, o país sofreu com a volatilidade cambial provocada pela crise dos tigres asiáticos, que trouxe alguns solavancos à indústria nacional. Nesse sentido, os fornecedores de serviços de TI que não apostarem em ações inovadoras, incontestavelmente, perderão liquidez e concorrência.

 

Em meio à turbulência da crise, existe outro aspecto positivo. Se antes muitas organizações aderiam a tendências tecnológicas sem conhecê-las e sem mensurar como poderiam impactar positivamente seus negócios, agora o momento é outro. As compras em TI irão se ater à demanda real, sem nenhum excedente. Por isso, é preciso conseguir prover esse mercado com soluções e ofertas flexíveis com custos competitivos.

 

De fato, a agitação global pegou muita gente, como diz o ditado, “de calças curtas”. E esse fato acionou o sinal vermelho em algumas empresas no que se refere aos processos de gestão de risco. O lado positivo é que metodologias primárias de controle, que não conseguiam conter perdas repentinas, se mostraram insuficientes. Resultado: a crise fez com que muitos empresários repensassem suas rotinas de gestão de risco.

 

Os efeitos da crise no cenário econômico brasileiro se acentuam, especialmente, em função de desconhecermos as conseqüências que o mercado sofrerá. Certo é que elas virão. Sendo assim, criatividade deve ser a palavra de ordem para quem pretende (e precisa) resistir à turbulência. Como nas brincadeiras de amigo oculto, onde o mistério dita as regras do jogo, não sabemos o que nos reserva o outro lado. A diferença é que nesse cenário a surpresa quase sempre é agradável. Tomara que no mundo corporativo também.

 

João Paulo Azevedo é diretor de marketing da BSA Brasil.

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