Coragem e vontade para crescer

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É uma boa notícia. De acordo com os resultados semestrais divulgados até agora por bancos e empresas, e também pelos indicadores macroeconômicos, o Brasil encerrou o primeiro semestre de 2006 com um desempenho bastante satisfatório. Os prognósticos que analistas e empresários fizeram, no começo do ano, a respeito da atividade econômica, inflação, nível de emprego, juros, afinal se realizaram.

Este é um fato de muita relevância: o ambiente econômico brasileiro tornou-se previsível. Se ainda existe alguma volatilidade, é aquela que se aceita sem sobressaltos – justamente porque é natural dentro de uma economia dinâmica. Mas a insegurança do passado, aquela que impedia o planejamento de médio e longo prazo e atravancava investimentos, essa não existe mais. Tem sido assim já há algum tempo.

Dentro desse quadro, o Bradesco encerrou o primeiro semestre de 2006 com um excelente resultado. Parcela significativa de seu lucro veio do aumento das operações de crédito, com ênfase naquelas destinadas às pessoas físicas. As áreas de Previdência, Seguros e Capitalização tiveram contribuição importante. E novas áreas de negócios, como a de Consórcios, ganharam relevância de forma rápida nas atividades do Banco.

Entendo que o bom desempenho é uma expressão de confiança de nossos clientes, pessoas físicas e empresas. Confiança não apenas numa instituição saudável como o Bradesco, mas também, e principalmente, no futuro do País. Confiança que deriva exatamente da previsibilidade a que nos referimos linhas atrás, fruto da estabilidade econômica que conquistamos e da credibilidade administrativa derivada da transparência e boas práticas de governança corporativa.

Essas conquistas devem ser preservadas e servir de apoio para um novo avanço, baseado em decisões racionais, em direção a um desenvolvimento econômico mais equânime, robusto e sustentado do Brasil. Parte desse esforço depende das empresas. Elas precisam ser boas empresas, prestar bons serviços, fabricar produtos de qualidade, além de remunerar adequadamente seus acionistas, investir em treinamento e aprimoramento tecnológico.

Os bancos, exercendo o seu papel de promover a intermediação financeira da economia, são cruciais nesse processo. E para cumprir bem esse papel precisam manter-se como instituições sólidas, com bons resultados.

Avançamos, mas ainda há muito por fazer para que o sistema financeiro possa contribuir com toda sua capacidade ao desenvolvimento brasileiro. Este salto, capaz de marcar um novo ciclo de crescimento, está diretamente condicionado ao aumento do crédito disponível. Para isso, é preciso mudar o foco da abordagem que se dá ao papel do crédito na economia. Sua inspiração ainda se baseia na lógica do controle monetário como instrumento exclusivo de combate à inflação.

Se conseguimos avançar até aqui, está mais que na hora de dar o passo seguinte e promover uma mudança necessária. O crédito é um indicador de confiança da sociedade e de vigor do sistema financeiro e, por isso, merece ser tratado como ferramenta indispensável para o crescimento e o desenvolvimento nacional. Para fortalecê-lo, é preciso cortar os excessos de regulamentação, direcionamentos e contingenciamentos, eliminar os exageros fiscais.

Diante do quadro de queda da inflação e das conquistas no terreno fiscal e, mais importante, da expectativa positiva em relação à continuidade da política econômica, é importante voltarmos a discutir a conveniência do atual elevado nível dos depósitos compulsórios. Há espaço para reduzir suas alíquotas, com intensos benefícios para toda a sociedade, sem prejuízos à política econômica.

Os juros a consumidores e empresas cairão no momento seguinte a uma eventual flexibilização dos compulsórios. E a autoridade monetária ganhará, certamente, mais espaço de manobra para administrar o ritmo de queda da Selic. Trata-se de medida firmemente escorada na alta qualidade dos fundamentos da economia brasileira.

Outro ponto a ser observado é que o Brasil é o único País a acumular a cobrança de quatro tributos sobre as transações financeiras. São eles o IOF, a CPMF, o PIS e a Cofins. Somados ao depósito compulsório, elevam em cerca de um terço o custo do dinheiro para o tomador.

O governo tem sido prudente na condução da política econômica. Mas não deve deixar que a prudência se transforme em timidez. Precisamos de coragem para crescer. Não nos interessam juros que tornem o crédito inacessível. Não nos interessa o crédito que se torne impagável.

A sociedade brasileira escolherá, em outubro, os seus novos governantes. Em termos econômicos, há alguns pontos que são consensuais, como a continuidade da política de redução da taxa Selic, criando oportunidade para níveis maiores de consumo e investimento. Entre os partidos políticos com maior expressão, também parece haver consenso a respeito da necessidade de produzir superávits primários e de manter a Lei de Responsabilidade Fiscal.

A existência de acordo a respeito desses temas já é, em si, um bom sinal, mas há uma questão maior que se sobrepõe. É a necessidade de o Brasil construir uma agenda de crescimento, com distribuição de renda. Só assim poderemos avançar sobre os problemas urgentes nas áreas da educação, segurança pública, infra-estrutura, produtividade dos serviços prestados pelo Estado.

A conquista da estabilidade econômica abriu ao País uma série de oportunidades, como mostra a safra de bons resultados empresariais. Atingir o próximo patamar, o do crescimento vigoroso, tornou-se uma questão de vontade e coragem política. Tomara que possamos dar em breve à sociedade brasileira mais essa boa notícia.

Márcio Artur Laurelli Cypriano é presidente da Febraban e do Bradesco.

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