Crise traz oportunidade de repensar estratégias

Especialista encara com otimismo retomada do mercado a partir de uma ampla mudança de visão dos empresários

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Jorge Bahia
Jorge Bahia

Na visão do especialista nas áreas econômica, tributária e contábil, Jorge Bahia, consultor e sócio do Grupo Bahia Associados, as organizações de todos os segmentos, sem exceção, poderão sair fortalecidas da crise trazida pelo novo coronavírus. Otimista ou simplesmente realista, ele fundamentou essa expectativa, hoje (08), dentro da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br, concebida para analisar sob todos os ângulos o momento de crise e o futuro próximo. Sua análise foi embasada dos contatos diários com os empreendedores em busca de saídas para sobreviver e retomar com ânimo as atividades. A tendência vislumbrada pelo especialista, então, é a de que haverá mais busca de diversidade e de novos acordos em todas as áreas. “Como a crise é de âmbito mundial e generalizada, os empresários estão percebendo que o bom senso fará com que tudo seja renegociado e repensado.”

O executivo vê novas alternativas surgindo no horizonte, tanto da parte de quem produz como de quem governa o país. “A situação agora está bem delicada. Tudo mudou do dia para noite. Havia inúmeros projetos que estavam em andamento e foram paralisados. Isso impacta os negócios em nível global. O que até nos serve de consolo, paradoxalmente. Estamos todos no mesmo barco.” Assim, Bahia tem aconselhado os clientes a, neste momento, sentarem à mesa e reestudar o business plan, orçamento, planejamento estratégico e situação do fluxo de caixa. “Pela magnitude da crise, depende-se muito do governo. Então, analisar em que ele poderá nos ajudar para um fôlego financeiro, saídas jurídicas, acordos, contratos, em tudo isso. Antes de mais nada, muita calma. E concluir em que área a empresa precisa se reposicionar mais rápida e fortemente”, completou.

Na previsão do consultor, o setor de serviços deverá retomar em 4 ou 5 meses a um estágio próximo ao de antes da pandemia. Indústria em 5 a 6 meses e o comércio varejista não chegará a isso antes de 8 a 10 meses. “Cabe, então, a cada empresa”, salientou ele, “ter agilidade para rever seus planos e como aproveitar da melhor maneira possível a ajuda e as medidas emergenciais do governo.” No entender do especialista, depende dessa análise minuciosa das alternativas do momento para estar bem preparado para o pós-crise. Ele sugere que se formule e responda a algumas questões: Quais instrumentos o governo propôs que melhor se encaixam nas minhas dificuldades? Se não estou faturando agora, qual meu horizonte para retomar as vendas num nível adequado? E, ao colocar tudo na mesa de estudos, o empreendedor tem de se lembrar que muitas obrigações, embora postergadas, vão-se acumular para serem cumpridas lá na frente. “Esse é um ponto importante. Fazer opções com base no que se espera acontecer no futuro próximo. Poderei parcelar o que foi postergado? Terei condições? É situação de calamidade pública até dezembro. O governo terá de ter bom senso também dependendo como a economia evoluiu.”

Na concepção de Bahia, o setor de comércio, principalmente o varejista, foi o mais impactado. O de serviços não essenciais também foi duramente afetado. Já o de comércio atacadista pode ser enquadrado naquela máxima segundo a qual a crise traz risco e oportunidade no mesmo patamar. “Muitos deles, pela própria estrutura, já estavam partindo para o e-commerce e agora usufruem disso e continuam operando”, conta o especialista. Enquanto isso, a indústria acaba sendo afetada em maior grau porque não tem como escoar a produção e ficaria oneroso para estocar além do planejado, dentro do quadro geral traçado pelo consultor.

Incentivo à inovação

Em meio aos aconselhamentos delineados, o consultor lembrou que poucas empresas do setor de contact center, por exemplo, podem estar atentas a uma oportunidade que existe dentro e fora da crise. O governo oferece incentivos fiscais para a adoção de inovações tecnológicas. “Isso deve entrar no rol de análises para uma retomada com maior diversificação de operações e modelos de negócios no setor”, arrematou.

Mas de maneira geral, o especialista propôs que as organizações primeiramente avaliem todas as possibilidades de aproveitar essa redução da carga de horas dos colaboradores ou até suspender contratos de trabalho por 60 dias. Em segundo lugar, melhorar o fluxo de caixa protelando as obrigações fiscais. “De repente, se utilizar de saídas jurídicas para lidar com esta situação pontual na qual está impossibilitada de gerar receitas”, acrescenta.

Renegociações com fornecedores é um dos passos fundamentais nesse receituário do consultor. “Esse será o grande fator do processo: renegociação de todos com tudo e todos. O momento é de bom senso em geral. Verificar que, da parte do governo, todos os dias estão sendo publicadas medidas de ajuda. O esforço de acompanhar isso é grande. As organizações não estão faturando, mas tem parcelamentos que vinham do passado e outros encargos que independem de elas estarem obtendo receita ou não. Há no panorama geral favorecimentos em relação a PIS, Cofins, INSS, Fundo de Garantia e outros, mas é preciso mais. Ampliar ajuda sobre tudo que incide sobre operações e vendas.” E ele ainda acrescenta uma dificuldade atual que são as restrições e desinformações quando se recorrem aos bancos para obter recursos para cobrir folha de pagamento. O custo Brasil não diminuiu com a crise.

A visão de Bahia é que, para um futuro próximo, haverá significativas mudanças de processos e de teorias empresariais. Diversidade de fornecedores e de canais de comercialização. “A cultura do empresário mudará também em termos de poupança para além de dinheiro em caixa. Se resguardar mais. Por fim, como contabilizar o gasto para a empresa, as cláusulas empresariais. Ele não terá mais a visão que tinha antes da crise. Será agora de muito mais cautela e precaução.” Na retomada, o planejamento que era feito em três ou quatro meses terá que ser realizado numa revisão dentro do espaço de uns 15 dias, acena o especialista E isso a partir de variáveis que não existiam antes da crise. “Mas, com certeza, todas as empresas vão-se sair mais fortes. A necessidade de sobrevivência levará todos à diversidade de alternativas e negociações amplas e irrestritas. Em nível mundial.” A entrevista, na íntegra, estará disponível em nosso canal no Youtube.

série de entrevistas segue, amanhã (09), com o “Quintou”, por conta do feriado, tendo como tema a gestão de pessoas em meio à crise do coronavírus. O bate-papo terá Rosylane Rocha, presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho; Leyla Nascimento, vice-presidente de relações internacionais da ABRH Brasil; e Cida Garcia, assessora da gestão da cultura da Algar Telecom. E para a próxima semana já estão confirmados Altivo Oliveira, VP de clientes da Mutant; Jefferson Frauches Viana, CEO da WayBack, board member da TCM Group e iGeoc; e Luís Carlos Bento, CEO da Intervalor / Arvato e board member iGeoc.