Lições que aprendemos com os erros

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Outro dia, em agradabilíssimo almoço com o CIO de uma grande organização, surgiram comentários sobre o livro “Ah, se eu soubesse” de Richard Edler, editado no Brasil pela NegocioEditora, que ambos havíamos lido. O livro mostra que a experiência é, sem sombra de dúvida, uma das melhores fontes de ensinamentos para uma pessoa e que o processo de aprendizado se contrói ao longo do tempo, com muitos dissabores e sofrimentos. O debate derivou para um tema específico de TI, no qual ele esteve envolvido recentemente: a construção de Data Warehouses.

O executivo garantiu que se tivesse determinados conhecimentos antes de iniciar seu processo de construção de DW o resultado teria sido outro. Ele disse “Ah, se eu soubesse disso, teria feito de maneira diferente”. Assim, conversamos sobre o que ele poderia ter feito de diferente se ele soubesse de…

Com a anuência dele, transcrevo aqui algumas dessas experiências para que possam servir de aprendizado a outros profissionais e assim evitem cometer os mesmos erros.

“O nosso projeto de DW começou sem que se obtivesse um prévio e visível comprometimento financeiro e moral por parte da alta administração. Foi uma empreitada bancada pela área de TI”. Os problemas advindos desta situação foram inúmeros: falta de coordenação e suporte dos executivos que seriam envolvidos nas definições de estratégias e modelos de dados; a falta de governança no projeto; quase nenhum envolvimento da alta administração e a falta de recursos financeiros e humanos. Em conseqüência, o projeto custou muito mais e levou muito mais tempo que o esperado, sendo concluído apenas porque, na última hora, obteve-se o patrocínio de um alto executivo.

E ainda restou um problema a ser resolvido: como não existe um proprietário formalmente definido, os investimentos necessários a manter o DW atualizado são difíceis de serem obtidos (“precisamos de uma nova e mais poderosa ferramenta de ETL e não temos orçamento, pois ninguém financia o projeto”), bem como as propostas de mudanças são muito mais focadas nas necessidades específicas de alguns departamentos mais agressivos que nos objetivos e prioridades corporativas. Como não existe uma equipe dedicada à manutenção e upgrade do DW, as mudanças são lentas e muito pontuais.

“O projeto de DW foi disparado porque já dispúnhamos de vários data marts e achávamos que conseguiríamos integrá-los em uma única entidade”. A complexidade do problema foi subestimada. Os vários data marts, desenvolvidos por áreas diferentes para solucionar problemas emergenciais, usavam diferentes conceitos e representações de informações como: cliente, produto, canal e assim por diante. Juntar os data marts não significava apenas integrar e interoperar bases de dados e foi necessário redesenhar todo o DW. Na verdade tínhamos silos de dados que quase não puderam ser aproveitados na construção do DW. Encontramos problemas de inconsistências e qualidade dos dados em níveis que nem imaginávamos existir dentro da mesma corporação. As fontes de informação de vários data marts tiveram que ser substituídas por outras e novas fontes de informação tiveram que ser adicionadas. Com a existência de muitos sistemas legados, a complexidade de interoperar tecnologias de idade e características tão diferentes foi muito grande. Só nos conscientizamos verdadeiramente disso já no meio do caminho!

“Não escolhemos adequadamente as tecnologias e tentamos fazer tudo sozinhos, sem ajuda externa”. Descobrimos que um projeto de DW envolve disciplinas que os projetistas de sistemas internos não dominavam adequadamente. Pelo fato de não contratarmos uma consultoria experiente, tivemos que reinventar a roda inúmeras vezes. O suporte provido pelos fornecedores das tecnologias era muito focado nas questões técnicas e pouco ajudaram nas definições conceituais. Além disso, algumas das tecnologias envolvidas ainda estavam imaturas e os próprios fornecedores não a dominavam completamente. Muito tempo foi perdido para aprender, junto com eles, como fazê-las funcionar. Existiram (e ainda existem) alguns problemas de desempenho, aliados à falta de uma ferramenta que permita monitorar o DW com maior profundidade, que nos levam a viver um eterno ciclo de tentativas e erros buscando ajustar o sistema.

Cezar Taurion – IT strategist director da PwC Consulting