O E-Business e as micro empresas

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A estagnação das implementações de e-business no País é freqüentemente explicada por fenômenos pontuais, como a chamada explosão da bolha da internet ou a crise cambial interna, entre outras.

O que todas essas explicações têm em comum, no entanto, está no fato de se ancorar em uma situação de conjuntura para dar conta de um fenômeno que, a nosso ver, é estrutural. Explica-se: enquanto as cerca de 5 milhões de pequenas e micro empresas existentes no País vão respondendo por nada menos que 38% do PIB e 80% dos empregos no Brasil, a indústria de tecnologia da informação – especialmente a do segmento de e-business – vai apresentando ao mercado soluções cada vez mais sofisticadas e economicamente compatíveis apenas com o topo da pirâmide empresarial.

Queremos com isso dizer que está saturado o nicho das grandes corporações?
É bastante provável que não, e talvez aí haja até uma grande demanda reprimida pela longa lista de razões conjunturais que nem iremos explicitar.

Mas cabe inquirir, afinal, por que não ir ao encontro deste imenso potencial, ainda virgem, representado pelas micro e pequenas? A resposta mais óbvia e corriqueira é de que estes 80% do PIB não estão preparados para o e-business: não possuem infra-estrutura nem know-how interno de TI, apresentam alto nível de funções artesanais na retaguarda, rejeitam o computador e a internet etc.

Numa análise fria dos fatos, este arcabouço explicativo lembra a estratégia do avestruz. Se só 20% do mercado está apto a comprar nosso produto, por que queimar as pestanas com essa enorme massa desorganizada? Enfia-se a cabeça no buraco para não enxergar a gigantesca perda de receitas potenciais que este despreparo do mercado representa.

Olhando mais friamente, constata-se que a concepção de e-business proposta pela indústria de TI é, em muitos casos, excessivamente sofisticada, até mesmo para a média e grande empresa. Ela pressupõe a possibilidade de se criar um workflow que abarque transações de negócio em níveis de intra-empresa e inter-empresa. E o repertório de soluções exige pré requisitos que vão da disseminação de data marts até a integração da cadeia de fornecedores (supply-chain), passando por data mining, business intelligence e uma dezena de hi-lighs tecnológicos ainda longe de ser dominado pelo conjunto da elite corporativa brasileira.

Mas vamos considerar que esta elite pode e vai absorver estas exigências pela simples constatação de que ela tem fôlego para tanto e não pode ficar defasada em relação à concorrência. Infelizmente, porém, o mesmo não se dirá dos demais 80% do PIB. Esperar que este contingente se adapte ou se torne apto a absorver esta tecnologia do e-business, significa praticamente abrir mão dos potenciais de negócio que ali estão.

Urge, então, repensar o conceito de e-business que vem sendo oferecido pela indústria. O primeiro ponto a considerar é que o B2B precisa de um meio e que este é – em geral – a internet. Em segundo lugar, tenhamos em mente que as transações de negócios por meio eletrônico dependem da existência de grupos de compra e venda com níveis semelhantes de capacidade técnica.

A partir destes dois pré-requisitos, está constituída a base evolutiva para níveis de transações que irão passar por sofisticações paulatinas, segundo um equilíbrio natural de oferta e demanda de tecnologia. Assim, se as pequenas e micro ainda não dispõem destes requisitos, a primeira providência da indústria de e-business, para alavancar os potenciais deste nicho, está justamente em produzi-los.

É desta constatação que começa a emergir com grande força a estratégia de criação das comunidades de negócios eletrônicos a partir de comunidades de fato. Um exemplo é o da RNPN (Rede Nacional de Portais de Negócios), que hoje já congrega cerca de 6 mil estabelecimentos comerciais das Associações Comerciais de São Paulo. Um contingente que, há menos de um ano, não estava sequer imaginando a hipótese de alavancar negócios via web.

Sua adesão à rede aconteceu de forma rápida, e continua a crescer vertiginosamente. Para que isto ocorresse, ofereceu-se á micro empresa uma solução de portal na filosofia agite e use. Qualquer usuário de windows pode obter exposição na rede, via conexão ao portal, de forma rápida e organizada, a custos muito baixos, e num ambiente altamente confortável. Pronto, está criado um poderoso e vasto networking com enormes possibilidades de evolução no médio prazo.

Por enquanto, os níveis de transações efetuadas neste princípio de marketplace estão bem longe dos sonhados pelas caríssimas e complexas soluções de e-business do mercado. Mas estes milhares de negociantes já começam a se valer da internet em funcionalidades como a de catálogo eletrônico, troca de informações eletrônicas sobre produtos e serviços da comunidade, e também para cotação genérica ou dirigida, o que representa um importante gerador de negócios. É pouco? Não exatamente: é o possível por ora e, mais importante, é o essencial para que o ambiente de B2B comece a fazer sentido e viabilizar demandas mais complexas neste universo de 80% do PIB.

A estratégia da RNPN tem ainda a vantagem de contar com o efeito cardume; ou seja, esta capacidade que o grande cardume tem de atrair peixinhos isolados. Com isto, o fornecedor de solução de e-business consegue vencer a enorme capilaridade das pequenas e micro, e estabelecer o ganho de escala necessário para aglutiná-las em sua oferta.

Com base nesta experiência de poucos meses, oferecida pela RNPN, estamos aptos a apostar que a estratégia dos portais de negócios por comunidades representa o primeiro caminho aberto entre as pequenas empresas e a tecnologia de TI. Quanto aos 20% restantes do PIB nacional…bem, este nicho rico e sofisticado também vem demonstrando cansaço com as soluções demasiado complexas. E também começa a perceber que a estratégia de comunidades baseadas em soluções muito simples pode ser um ótima saída para aglutinar sua cadeia de clientes, fornecedores e parceiros? Estamos falando de CRM? Se sim ou se não, pouco importa. O que vale, de fato, é a tendência de que a solução de relacionamento possa ser gerenciada e disseminada sem as onerosas exigências técnicas que a maioria das soluções de mercado apresentam para esta função.

Mário Firmino é diretor da Bizavista