Como o Brasil perde competitividade

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Carlos Stempniewski
Em janeiro, no encerramento do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, divulgou-se relatório sobre o estágio de 104 nações quanto à Tecnologia de Informação e Comunicação (ICT, sigla em inglês). Fomos brindados com o 46º lugar, bem próximos da China (39º) e Índia (40º), países referenciais de nosso governo nos temas “desenvolvimento econômico”, “tecnologia” e “parcerias comerciais”. Colocado desta forma, o assunto não mereceria tanto destaque, não fosse o fato de termos despencado da 39º posição em apenas um ano. Na análise desta retração começam as indagações e surpresas ante um ano aparentemente bom, como foi o de 2004, com índices de desempenho bem acima de nossas médias históricas.
Vale, aqui, abrir parêntese, para estabelecer analogia com o estudo do FMI “Perspectivas para a Economia Mundial – 2005”. Nele identificamos uma expectativa de crescimento do PIB mundial, no período 2003/2006, de 19%. Os países desenvolvidos teriam expansão de 11,46% e os emergentes, 28,52%. O grupo de paises integrado por Rússia, Índia e China, no qual, em tese, também deveria estar o Brasil, estima crescer 33,17%. A previsão de expansão de nosso país, porém é de apenas 13,48%. Assim, contabilizamos uma defasagem de 15 pontos percentuais em relação aos nossos concorrentes mais diretos nos mercados internacionais.
Fechado o parêntese, que ajuda a perceber como perdemos terreno em distintas frentes, cumpre esclarecer que, na pesquisa sobre ICT divulgada em Davos, as questões econômicas não são relevantes. O ranking considera a capacidade de um país reter seus especialistas, ter entre as prioridades de governo o desenvolvimento do setor de tecnologia da informação, alta disseminação da Internet e baixa presença da burocracia na vida das pessoas e instituições.
Os países que consideram estes aspectos costumam apresentar grande competitividade global de sua economia. Com altos níveis de qualidade nos produtos/serviços que enviam para todo mundo, tornam-se extremamente eficientes. O resultado transparece na qualidade de vida de seu povo e reforço em suas reservas financeiras, tudo em função de ganhos de escala e alta rentabilidade. É o caso de Cingapura, Dinamarca, Estados Unidos e Canadá, apenas para citar alguns dos mais conhecidos.
A queda na classificação do Brasil reflete com clareza nossas hesitações em diversas áreas voltadas à ciência, tecnologia e educação, como no caso da reforma universitária, e já se vão mais de dois anos e dois ministros da Educação. A pauta de discussões continua recheada de assuntos como acelerar os cursos, cotas raciais, proibir ou não novas faculdades e conteúdo programático, dentre outros temas de impacto menor na melhoria do aprendizado cognitivo coletivo. Ultimamente, temos nos habituado a referenciar a ausência de uma formação intelectual mais elaborada, em detrimento das experiências de uma vida árdua formada ao longo das contingências.
Quando consideramos o Estado, em seu conjunto, pode-se observar a ausência de políticas claras de incentivo à pesquisa no País, ausência de um plano de cargos e salários com o objetivo de formar e reter talentos. Recentemente, assistimos a um loteamento político da Embrapa, um dos organismos de maior sucesso na esfera governamental. Trata-se de instituição de pesquisa de reconhecida excelência, somente desmontada depois de dois anos pelo ministro da Agricultura.
O caso brasileiro não deveria despertar tanta surpresa como a imprensa tem veiculado. Na verdade, nossa classificação retrata com clareza a ausência de políticas públicas e indefinições que tão bem marcaram os últimos dois anos na esfera da tecnologia e das comunicações. O tema nos obriga a refletir que, na economia globalizada, temos de ser mais pragmáticos. Nossas ações devem ser planejadas para um horizonte de mais de dez anos. Não há como simplificar por vontade própria, ambiente por si só complexo e plural. É indispensável estabelecer os marcos do conhecimento pelo nivelamento superior e não inferior. Somente desta maneira poderemos obrigar que os acomodados mexam-se e, assim, esperar um futuro mais promissor.
Carlos Stempniewski é administrador de empresas e professor dos cursos de Administração, Turismo e Sistemas da Informação das Faculdades Rio Branco.

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