Médicos Sem Fronteiras se reinventa

Diretora fala sobre o uso do digital para enfrentar a pandemia e os desafios para salvar vidas

0
0
Ana Lemos
Ana Lemos

Desafiadora até mesmo para os experientes profissionais que atuam em emergências médico-sanitárias há quase 50 anos pelo mundo, a pandemia do Covid-19 tem exigido do Médicos Sem Fronteiras uma rápida combinação: tecnologia, logística e profissionais multidisciplinares para responder com rapidez. Com modelo de home office, lives diárias e orientações médico-sanitárias por mídias sociais, a organização vai conseguindo complementar o incansável trabalho de campo, conforme detalhou Ana Lemos, diretora executiva da organização no Brasil, nesta segunda-feira (11), dentro da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br.

Com cerca de 120 pessoas atuando mais intensamente em cinco cidades brasileiras impactadas pelo novo coronavírus, o MSF-Brasil se viu, desde 16 de março, às voltas com a urgência de como administrar a implantação do modelo de home office para o pessoal de escritório e a estrutura de comunicação para seu pessoal especializado de campo. Um exército de médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de várias especialidades. Numa experiência inédita, já que o problema desafia a organização, desta vez, literalmente no mundo todo. De qualquer forma, a prática médico-humanitária veio a ajudar, não só auxiliando nos atendimentos, mas principalmente compartilhando sua vivência em socorrer populações em crises sanitárias. A organização atua nessas emergências desde 1971, quando foi criada para interferir humanitariamente durante o conflito na ex-Biafra, atualmente Nigéria. Hoje, são 55 mil pessoas empregadas em todo o ponto. Com escritórios locais para administrar os projetos, mais de 90% do dinheiro que sustenta a entidade provém de empresas privadas, podendo servir com independência em todos os locais, dentro de um orçamento de mais de 1 bilhão de euros.

Segundo Ana Lemos, atualmente são 200 profissionais da organização empregadas no país, em equipes formadas por gestores de recursos humanos, médicos, enfermeiros, etc.. E o número de doadores locais, notadamente pessoas jurídicas, ultrapassa 530 mil. “Em uma pandemia dessa magnitude, literalmente de âmbito mundial, até para MSF está sendo uma experiência nova”, ressaltou a diretora. “Até porque não é só pelo Covid-19, mas porque as outras doenças contagiosas continuam também merecendo cuidados. Portanto, as carências neste instante são grandes, desde recursos materiais e financeiros até de profissionais e condições de logística. Um desafio e tanto”, registrou.

Evidentemente, uma das saídas para o enfrentamento imediato das emergências foi recorrer ao mundo digital. “Tivemos que colocar em home office todo o pessoal de escritório. E, também, nos aproximar de nossos doadores de forma virtual, levando informações e mostrando com clareza a situação.” Os canais digitais passaram a produzir conteúdo para orientar o público em geral, dentro da missão médico-humanitária da organização. Além dos doadores, ela disse que têm sido importante também as parceiras, como as de empresas aéreas, por exemplo.

Ana também explicou que o MSF-Brasil tem trabalho tanto diretamente no atendimento médico, mas também como apoio orientação aos grupos de risco e quanto aos cuidados preventivos, utilizando também toda a experiência internacional da organização. Em São Paulo/SP atua em dois “covidários” além de triagem e acompanhamento das populações de rua. No Rio de Janeiro/RJ, além desse trabalho, tem oferecido treinamento e orientação no hospital de campanha da Fundação Fiocruz. E, em Manaus, estuda abrir um sistema anexo ao hospital Delphina Rinaldi, contribuindo com mais 50 leitos, pensando nas populações indígenas. Essas, mais as populações carcerárias, são o maior foco de preocupação da MFS-Brasil. “Graças às possibilidades do digital e como estamos todos no mesmo barco, há uma grande aproximação com a troca de experiência em todo o mundo nessa realidade. Nossos centros na Europa estão em comunicação constante conosco”, garantiu a executiva.

Obviamente, os maiores problemas acontecem onde os sistemas de saúde entram em colapso. Com um olhar no restante do mundo e outro aqui no país, a diretora entende que a curva de crescimento da doença ainda está em alta no Brasil porque as pessoas não estão obedecendo ao distanciamento social mínimo necessário. Afora locais ainda mais preocupantes por questões sociais específicas que agravam a situação. “Nosso objetivo”, esclareceu, “é tentar marcar presença naquelas lacunas deixadas pelos sistemas oficiais e privados nas questões médico-humanitárias.” E, enaltecendo a notória dedicação dos profissionais da saúde que colocam suas próprias vidas em risco em prol da sociedade, ela informou que a MSF-Brasil está iniciando um trabalho voltado para a saúde mental desses profissionais via mídias sociais. Além de várias atividades virtuais unindo experiência do mundo todo.

A organização conta com três empresas de call center para captar recursos e, principalmente direcionar os médicos da organização para as necessidades e emergências e solicitações relevantes. A entidade também tem, historicamente, participado do desenvolvimento de vacinas, como no caso do ebola. Atualmente isso não tem sido necessário, dado o empenho dessa busca em todo o mundo. Mas ela segue a previsão da OMS, acreditando que a vacinação em massa não acontecerá antes de 12 a 24 meses. “Entretanto”, finalizou, “tudo isso deixará como herança um mundo muito mais atento às questões sanitárias e bem mais solidário. Essa é a grande lição e aprendizado da crise.”

A ClienteSA está empenhada a colaborar com o trabalho do Médicos Sem Fronteiras nesse difícil momento dos desafios trazidos pela pandemia do Covid-19. Portanto, convida os leitores a visitarem o site da organização, por meio do qual é possível abrir caminho para doações, voluntariado e vagas profissionais. A entrevista, na íntegra, está disponível em nosso canal no Youtube. Aproveite para também se inscrever e ficar por dentro das próximas lives.

Amanhã (12), a série de entrevistas terá Arnaldo Bertolaccini, diretor de experiência do cliente do iFood; na quarta, Edgar Milagres, gerente sênior de experiência do cliente e televendas da VR; na quinta, Daniel Lopez, vice-presidente de operações LATAM da Vocalcom; e, encerrando a semana, o “Sextou? recebe Alessandra Tosta, diretora comercial/vendas, relacionamento com cliente, call center, televendas e e-commerce da Sky.