Iseli Yoshimoto Reis, CEO e fundadora da Fleximedical/Kure

Três movimentos que estão moldando a saúde no Brasil

Quando as empresas assumem um papel ativo na construção de soluções e não apenas como fornecedoras,elas ajudam a transformar projetos pontuais em políticas públicas replicáveis e sustentáveis

Autora: Iseli Reis

Nos últimos anos, modelos de atendimento descentralizado, remoto e itinerante ganharam força no Brasil, e acredito que três grandes movimentos vão moldar o futuro da saúde pública e privada nos próximos anos. O primeiro é a descentralização do cuidado. A pandemia acelerou um entendimento que já vinha se formando: não faz mais sentido concentrar serviços essenciais apenas em grandes centros urbanos ou estruturas fixas. Modelos móveis, modulares e itinerantes – integrados à atenção primária – tendem a ganhar ainda mais relevância, especialmente em regiões de difícil acesso.

O segundo movimento é a integração entre tecnologia e presença humana. Telemedicina, dispositivos conectados, inteligência de dados e prontuários integrados são fundamentais, mas não substituem o contato humano. O futuro da saúde passa por modelos híbridos, que combinam tecnologia com estruturas físicas próximas da população, garantindo continuidade do cuidado, vínculo e resolutividade.

Por fim, há uma tendência clara de ampliação do conceito de saúde, que deixa de ser apenas assistência médica e passa a incorporar determinantes sociais como saneamento, educação, alimentação e meio ambiente. Esse olhar mais sistêmico, alinhado inclusive aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, exige soluções mais flexíveis, intersetoriais e com capacidade de rápida implementação, exatamente onde modelos móveis e hubs de soluções ganham protagonismo.

No Brasil, as desigualdades regionais profundas em acesso à saúde, saneamento e educação ainda representam um desafio. As maiores lacunas estruturais não estão apenas na falta de recursos, mas na dificuldade de levar infraestrutura, operação e continuidade de serviços para territórios afastados dos grandes centros. Em muitas regiões, o desafio passa por estradas, energia, água, conectividade e, principalmente, por modelos que consigam operar com eficiência em contextos adversos. Outro ponto crítico é a fragmentação das políticas públicas, que muitas vezes não conversam entre si. Saúde, educação, saneamento e assistência social são tratados de forma isolada, quando, na prática, esses temas estão profundamente interligados no cotidiano das comunidades.

O setor privado pode contribuir de forma decisiva ao trazer capacidade de execução, inovação e agilidade. Isso passa por desenvolver soluções modulares, escaláveis e adaptáveis à realidade local, além de atuar em parceria com governos e organizações sociais. Quando as empresas assumem um papel ativo na construção de soluções e não apenas como fornecedoras,elas ajudam a transformar projetos pontuais em políticas públicas replicáveis e sustentáveis.

Diversas soluções inovadoras no país só conseguem ganhar escala quando operam em parceria com governos ou organizações sociais. O maior desafio ainda é o desalinhamento de tempos, expectativas e linguagens entre os três setores. Enquanto o setor privado costuma operar com mais agilidade, o poder público precisa seguir ritos, legislações e processos complexos, e o terceiro setor, muitas vezes, enfrenta limitações de escala e financiamento. Quando não há uma governança clara, bons projetos acabam se perdendo no meio do caminho.

Por outro lado, a grande oportunidade está justamente na complementaridade dessas forças. O setor público traz escala e legitimidade, o terceiro setor aporta conhecimento profundo do território e das necessidades reais da população, e a iniciativa privada contribui com inovação, gestão e capacidade operacional. Quando essas parcerias são bem estruturadas, com objetivos claros, métricas de impacto e modelos sustentáveis, é possível gerar transformações reais e duradouras. Vejo um espaço enorme para modelos colaborativos, como hubs de soluções, parcerias público-privadas e projetos alinhados a agendas globais de impacto social e climático. É nesse encontro que surgem soluções capazes de ir além do discurso e realmente mudar a vida das pessoas.

Iseli Yoshimoto Reis é CEO e fundadora da Fleximedical/Kure.

Deixe um comentário

Rolar para cima