O termo Polycene descreve uma era em que sistemas antes tratados de forma isolada passam a operar de maneira convergente, interdependente e simultânea
Autora: Simone Gasperin
Durante décadas, lideranças foram treinadas para decidir a partir de escolhas contrastantes: crescimento ou eficiência, global ou local, escala ou nicho, tecnologia ou criatividade. Esse modelo mental, que ajudou a organizar o mundo corporativo por muito tempo, começa a revelar seus limites diante de um presente marcado por sobreposições, ambiguidades e múltiplas forças atuando ao mesmo tempo.
O artigo The Polycene Era Demands a New Kind of Foresight, assinado por Melanie Subin, oferece uma chave conceitual potente para compreender esse cenário. Inspirado em uma provocação de Thomas L. Friedman, o termo Polycene descreve uma era em que sistemas antes tratados de forma isolada passam a operar de maneira convergente, interdependente e simultânea.
A inteligência deixa de ser apenas humana ou artificial e passa a ser distribuída entre múltiplas formas de conhecimento, disciplinas e sistemas que operam de maneira integrada. A geopolítica se organiza de forma policêntrica. As economias assumem configurações polimórficas. O efeito combinado dessas transformações desafia leituras lineares e modelos baseados em previsibilidade.
Essa leitura se soma ao que Rishad Tobaccowala descreve em Tectonic Times: 5 Shifts, autor sobre quem tenho escrito em outros artigos. Tobaccowala descreve o momento atual não como mais um ciclo de transformação, mas como um deslocamento das placas que sustentam negócios, organizações e lideranças. Quando o terreno muda, ajustes marginais deixam de ser suficientes.
Ferramentas clássicas de planejamento estratégico e mesmo de foresight foram concebidas em um contexto no qual mudanças relevantes tendiam a ocorrer de forma mais espaçada e sequencial. Hoje, desafios tecnológicos, climáticos, sociais, geopolíticos e culturais se manifestam de forma simultânea, interdependente e cumulativa, pressionando estruturas até então consolidadas.
Isso ajuda a entender por que o foresight, também referido como prospectiva estratégica, ainda encontra resistência em muitas organizações, frequentemente associado a algo abstrato, filosófico ou distante da tomada de decisão. O artigo de Subin propõe o oposto: a prospectiva como disciplina rigorosa, orientada por dados, integrada aos processos decisórios e conectada a escolhas reais de investimento, capacidade e posicionamento.
Em um mundo poly, insistir apenas na evolução de produtos, estruturas e modelos legados tende a ser insuficiente. Concorrentes emergem de setores inesperados, lógica que orientou a metodologia Três Ondas de Impacto, da Aerolito, da qual fui uma das responsáveis pela criação. Mais: tecnologias dissolvem fronteiras entre produto e serviço, entre mídia, plataforma e experiência, alterando profundamente a forma como o marketing é pensado, planejado e executado.
Tobaccowala descreve esse movimento como parte da Terceira Era da Conectividade, marcada pela convergência entre dados, inteligência artificial, automação, blockchain e novos modelos de propriedade e distribuição de valor. Nesse contexto, a comunicação deixa de operar como fluxo unidirecional e passa a se estruturar como um sistema contínuo de interação, antecipação de necessidades e capacidade de ação distribuída.
O impacto mais profundo da Era Polycene talvez recaia sobre a liderança. Espera-se que as lideranças sustentem resultados de curto prazo enquanto reinventam modelos de negócio, redesenham estruturas organizacionais e atravessam rupturas geracionais relevantes. O talento se distribui, a autoridade baseada exclusivamente em hierarquia perde tração e a mudança passa a emergir com frequência das bordas, especialmente nos processos ligados à adoção da inteligência artificial.
Liderar, nesse contexto, exige leitura sistêmica, capacidade de influência e disposição para sustentar decisões. Como observa Tobaccowala, não basta acompanhar o presente; é necessário desenvolver repertório para o que ainda está em formação.
O artigo sugere cinco movimentos práticos que ajudam a traduzir o pensamento poly para o cotidiano das organizações: construir um ponto de vista próprio sobre fatores externos convergentes; estabelecer rituais regulares de leitura do ambiente com equipes multifuncionais; ensaiar cenários de forma recorrente, inclusive os menos confortáveis; priorizar não apenas o que é provável, mas o que teria maior impacto caso aconteça; e integrar a visão de longo prazo ao planejamento anual, recalibrando decisões de curto prazo.
Para quem atua em marketing, comunicação e inovação, isso implica abandonar estruturas rígidas e adotar modelos mais dinâmicos, nos quais estratégia se comporta como sistema em evolução, comunicação como arquitetura relacional e tecnologia como linguagem capaz de reorganizar experiências, processos e expectativas.
O futuro não cabe mais nos contêineres do passado. Persistir neles é, atualmente, a escolha mais arriscada de todas.
Simone Gasperin é sócia & head de marketing e growth da BPool.





















