A surdez de empresas e líderes

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Autor: Edilson Menezes
Será que o futebol tem algo a ensinar ao corporativo sobre talento e boa performance? Eu tenho certeza que sim…
Existe uma evidente escassez de bons centroavantes no Brasil. Onde terá se escondido esta figura tão marcante e determinante para os bons resultados de uma equipe? Está difícil encontrar nomes que façam a diferença assim como o passado viu Evair, Luizão, Careca, Serginho Chulapa, Edmundo, Romário, Ronaldo e tantos outros fazerem. Logo, se não está fácil para o clube de futebol encontrar os chamados “matadores”, aqueles que podem tranquilizar o torcedor porque previamente provaram que se a bola chegar ao seu pé é gol, imagine, em tempos adversos, se está fácil ou difícil encontrar, contratar e reter grandes centroavantes nas empresas.
Repare que não mencionei apenas o desafio de encontrar estes centroavantes. Contratar e reter são outras grandes demandas e o primeiro caminho para fazê-lo é contar com profissionais de recursos humanos que sejam bons “olheiros” do mercado. Obviamente, bons olheiros têm uma remuneração diferenciada e o que mais se pode ver por aí é empresa que tenta contratar os melhores ao menor preço. Isso não existe.
Você pode formar um profissional da base, assim como o futebol faz e, tempos depois, terá no elenco um grande profissional de contratação, porém é necessário tempo, flexibilidade e coragem.
Tempo porque nem todo empresário se permite esperar o amadurecimento de uma carreira e poucos, dentre pequenos e médios, oferecem plano de carreira.
Flexibilidade porque poucos empresários avaliam a performance além “do mês”. Os colaboradores devem ser medidos e avaliados pela performance anual. A pontualidade de esperar que a pessoa vá render e dar resultados três meses depois de ser contratada, ou “depois da experiência”, atrapalha o setor.
Coragem, pois nem todos, devemos convir, querem bancar o salário de alguém que somente dará resultados em médio prazo e tampouco querem correr o risco de que o colaborador deixe a empresa, por vontade própria, antes disso acontecer.
Outro problema sério, muitas vezes convertido em solução no futebol, pode ser analisado através da janela de transferência que prevê a venda de craques para outros países. É uma ótima fonte de inspiração para empresas e organizações diversas. Observe que o time, principalmente quando conta com uma diretoria empreendedora e que entende de boa gestão e bons negócios, segura o seu craque até o momento certo de negociá-lo pelo melhor valor possível, enchendo os cofres do clube. Enquanto não chega este momento de dizer adeus ao craque e rescindir seu contrato, reside o grande segredo do futebol que toda empresa deve aprender:
O atleta, por acaso, é deixado num canto, sem treinamento diário, quando se cogita a possibilidade de vender seu passe? Não, é claro que não. Ele segue a rotina de exercícios, preparação e treinamento. Diferente desta realidade é o que tem acontecido nas empresas. Quando a liderança intui que determinado colaborador deixou de render e provavelmente será demitido ou se demitirá, a primeira ação é deixá-lo de lado. Surgem os treinamentos e os líderes incluem quase todos os colaboradores, mas deixam o êx-goleador de lado. 
– Não vale mais investir. Tem estado desmotivado e logo vai se demitir. Por que vamos investir dinheiro se ele com certeza já faz planos de nos deixar? – Assim diz o líder para a segunda hierarquia que às vezes cobra dele um motivo que justifique porque tal pessoa não tem sido treinada.
– Você precisa se motivar e se envolver com a equipe. Se fizer assim, nos próximos treinamentos eu te incluo! – Assim diz o líder para o excluído.
A falta de feeling impede que estes líderes investiguem porque o colaborador deixou de render. Ninguém desiste de ser melhor no que faz sem um motivo, consciente ou inconsciente, que justifique a queda na performance.
No futebol, uma equipe de profissionais está pronta para rapidamente identificar que determinado atleta dispersou em atenção ou espírito de equipe. Tomam ações, informam a diretoria e o trazem de volta. Nas empresas, entretanto, é comum que se negligencie o sentimento do centroavante.
Contemplar a desmotivação de um colaborador apenas pela perspectiva e pelos interesses da empresa, ignorando o que e como ele se sente, deveria ser crime.
Ninguém faz planos para desmotivar-se. Colaboradores se tornam cabisbaixos após uma sequência grande de ocasiões nas quais foi ignorado. Todo ser humano, portanto, tem seu lado criança e procura chamar a atenção da liderança e da empresa para o fato de estar infeliz.
Triste mesmo é saber que muitos líderes e muitas empresas contraem uma incurável surdez quando o assunto é escutar o grito que vem da alma do ser humano.
O futebol brasileiro ainda está longe de alcançar o ápice da performance gestora, mas já temos excelentes e intercambiáveis exemplos do que deve ser feito e neste sentido, é válido indicar a obra que acaba de chegar ao mercado literário sob o título @praserfeliz, de Lisete Frohlich, que narra sua trajetória como presidente de um clube de futebol da região de Santa Maria, RS. A autora ensina o que é gestão de excelência no esporte e no corporativo. Vale a leitura!
Enquanto as lições de Lisete Frohlich chegam ao mercado, deixo uma observação: em tempos de escassez de centroavantes que possam marcar os gols da sua empresa, valorizar, ouvir e entender seus momentos adversos é mais saudável, barato e justo do que buscar novos centroavantes a toda hora, até mesmo porque o mercado não tem uma oferta assim tão vasta a oferecer.
A escolha, como sempre, é apenas sua!
Edilson Menezes é treinador comportamental e consultor literário. Atua nas áreas de vendas, motivação, liderança e coesão de equipes. ([email protected])