Existe limite para sinceridade?

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Autor: Sílvio Celestino

 

Os adolescentes enfrentam muitos problemas devido à sua fala e aos comportamentos sinceros. E muitos profissionais encaram o mesmo. Há algo de errado com a sinceridade? Afinal, somos tão incentivados a ser sinceros que, por vezes, nos penitenciamos por não conseguir sê-lo com nossos familiares, amigos e até mesmo com nosso par!

 

Uma criança chega até nós – até mim, com certeza – e diz: “Não gosto de seu nariz, é muito grande!” Embora seja embaraçoso para seus pais, é motivo de graça para nós, adultos. Entretanto, quando crescemos, o mundo parece não apreciar muito nossa sinceridade. Temos de ser prudentes.

 

Mas não é raro ver indivíduos que dizem não conseguir segurar sua sinceridade. Infelizmente, para alguns, ser sincero é sinônimo de dizer coisas desagradáveis para os demais. Uma estranha forma de usar a sinceridade. É surpreendente como certas pessoas são ágeis para ofender outras, mas relutam em expressar seu apreço. Que mundo estranho elas criam!

 

Algumas até consideram já ter evoluído e não acreditam que devam segurar suas opiniões e sentimentos, afinal, já “engoliram” demais. Apesar de valiosas, tornam-se solitárias. Existem também as que não conseguem se manter por muito tempo em um emprego, e suas carreiras não parecem avançar muito. Cometem, com regularidade, o chamado “sincericídio”.

 

Será o mundo, especialmente na esfera empresarial, contrário à sinceridade? Devemos fingir nossas emoções e sentimentos? Não criaríamos assim as condições para o cinismo, o estresse e seus desdobramentos em doenças?

 

Não é bem assim. Segurar nossas emoções é um risco à saúde, mas não dominá-las é um sinal de imaturidade. É importante observar, portanto, que, quando somos sinceros, não o somos com as pessoas, mas com nossas emoções e sentimentos. O que nos remete para uma análise maior do que ocorre.

 

Embora no Ocidente tenhamos o hábito de culpar os eventos, ou as outras pessoas, pelo que sentimos, na verdade nossas emoções são acessadas. Ou seja, somos responsáveis por nossos próprios sentimentos. Por estranho que pareça essa afirmação, é só observar o que os atores fazem, e facilmente concluiremos que os seres humanos acessam suas emoções. Mais que isso, dentro de cada um de nós há a possibilidade de criá-las e acessá-las, de acordo com o que considerarmos mais apropriado em um dado momento. Não precisamos nos tornar monges budistas para isso, ou mesmo fazer um curso de teatro, embora sejam boas sugestões passar um tempo com os budistas ou fazer uma atividade desse tipo.

 

Para completar esse cenário, se, para a maioria, o domínio do irracional equivale a dominar as emoções, no mundo executivo ainda temos de lidar com a enxurrada de pensamentos e preocupações que nos assolam 24 horas por dia. E que são os principais responsáveis por nossos sentimentos. Portanto, de fato, é um problema complexo. Nossos pensamentos geram nossas emoções, e depois afirmamos que somos sinceros com elas.

 

Entretanto, qual o poder que tem uma pessoa diante desse contexto? Se tentar controlar seus pensamentos, somente vai tornar as coisas piores. Sua mente tem a capacidade infinita de criá-los. Seu único poder está em selecionar quais irá escolher. Portanto, se você escolher aqueles que o levam para uma emoção negativa, sua sinceridade irá gerar, sempre, conversas e experiências negativas para todos na sua presença. Você pode se livrar de suas emoções com esses diálogos, mas à custa do constrangimento daqueles que o cercam: chefes, colegas de trabalho, subordinados, amigos, família ou seu par.

 

Portanto, considere como possibilidade tornar-se uma pessoa autêntica. Embora muitos considerem a mesma coisa ser sincero e ser autêntico, há uma diferença clara. O sincero age em função das emoções. Quem é autêntico age em função de seus propósitos. Para criar esse contexto, observe quais propósitos gostaria de cumprir com sua fala e seu comportamento.

 

Por exemplo: você pode ter como escopo ser respeitado, ser alguém que trabalha em equipe, ser um executivo de categoria internacional, ser inspirador, e uma infinidade de outros propósitos muito desafiadores. Ao escolher um, por exemplo, ser inspirador, verifique se suas palavras e comportamento inspiram as pessoas e, em caso negativo, faça os ajustes necessários. Isto é, pare de falar certas palavras, crie outras frases, comporte-se de forma diferente. Seja você a fonte de inspiração que deseja. Quando as falas e as ações de alguém são congruentes, é que afirmamos que a pessoa é íntegra. Por isso, você deve ser autêntico com seus propósitos. Quanto mais lapidá-los, nutri-los e cumpri-los, maior a chance de eles se tornarem as fontes de suas emoções e sentimentos.

 

Se você tem muita dificuldade em dominar suas emoções, considere como possibilidade fazer uma terapia, meditação ou alguma outra técnica que se interessar – faça todas, se for necessário. Mas não deixe que suas emoções sejam um obstáculo ao seu sucesso. Quanto mais dominá-las (não controlá-las), vai perceber que elas podem ser enormes forças para você cumprir seus propósitos e alavancar sua vida em todas as suas esferas. Não há atalhos, mas o caminho vale a pena. Seu futuro agradece! Vá em frente!

 

Sílvio Celestino é sócio-fundador da Alliance Coaching e autor do livro “Conversa de Elevador – Uma Fórmula de Sucesso para sua Carreira”.