Placar de 7 x 1 não acontece por acaso

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Autor: Sílvio Celestino
Assim que a fatídica partida entre Brasil e Alemanha terminou, recebi a mensagem da diretora de um grande grupo de comunicação que dizia que já passara por algo similar em sua empresa: ver um erro abalar seus profissionais a ponto de eles passarem a fazer tudo errado, gerar uma crise e levar um projeto à falência. Ela tem razão, isso acontece no futebol e também nas empresas. Em geral, os esportes são excelentes exemplos para reflexão, avaliação e definição de ações para o desenvolvimento de pessoas e companhias.
Um problema que enfrentamos é que muitos gestores não dão valor a fundamentos da administração de empresas para planejar, definir métricas, desenvolver e avaliar operações, negócios e pessoas. Um exemplo disso é vermos empresas se preocuparem apenas com o resultado financeiro, e não com o clima organizacional, por desconhecerem qual a relação de um com o outro. Já vi gestores dizerem algo do tipo: “Se o resultado acontece, é porque as pessoas estão motivadas.” Não se pode pensar somente em resultados e ignorar as pessoas.
Uma boa solução é ter um olhar fundamentado sobre os problemas, suas causas e, principalmente, como resolvê-los. Por esse prisma, existem muitos ensinamentos que podemos extrair desta Copa. Por exemplo, a respeito de planejamento, emoções, responsabilidade e como lidar com erros.
Vejo algumas análises afirmarem que a vitória da Alemanha ocorreu porque o planejamento de longo prazo, apresentado pelo time germânico, é mais importante que o de curto prazo. Na verdade, as organizações devem ter um plano balanceado, de curto e de longo prazo. Desse modo, o bom planejamento, após sua execução, gera como resultado maiores alternativas para a empresa. No curto prazo, a companhia deve ser capaz, sempre, de pagar suas despesas.
Entretanto, se focaliza somente em mais dinheiro, mas não treina, motiva e atrai novos talentos, lhe faltará capital humano para crescer. Portanto, o planejamento deve ser abrangente.
Outro ensinamento aparece quando os atletas da seleção brasileira começaram a apresentar problemas emocionais e chamaram uma psicóloga para ajudá-los. Acontece que não adianta muito contratá-la, se os líderes não assumem seu papel de contribuir com o estado emocional das pessoas. Nas empresas, vemos gerentes que, quando observam seus funcionários desmotivados, pedem ao departamento de Recursos Humanos que contrate um palestrante, ou que aumente os benefícios aos empregados. Querem que o RH faça alguma coisa para motivar as pessoas, mas não assumem ser, eles mesmos, a principal fonte da desmotivação.
Gerência de Recursos Humanos é um departamento da empresa, mas também uma função que deve ser apropriada por todos os administradores da organização.
Do mesmo modo, não é somente o Departamento Financeiro o único responsável por manter os custos dentro do orçamento. Alguns gerentes acham que devem conhecer em profundidade exclusivamente as questões técnicas de sua área, e ignoram os problemas humanos, financeiros, jurídicos e de segurança, por exemplo. Portanto, o administrador deve ser capaz de ver o todo de sua responsabilidade.
Outro fato relevante, que nos faz refletir, é o comportamento do técnico da seleção brasileira após a partida com a Alemanha. Suas entrevistas foram marcadas por uma preocupação maior em mostrar que não houve erros do que em aprender com eles. Um administrador que tem estofo somente para encarar as pessoas e dar explicações, mas não para admitir erros e propor novos caminhos não tem condições de ser desenvolvido. Pois esse é o comportamento típico de indivíduos que não querem mudar. E o gestor deve saber medir, avaliar o desempenho e aprimorar sempre operações e pessoas, incluindo si mesmo.
Se já é difícil, no trabalho, assumir um erro diante de pares e chefes, imagine cometê-los na frente de 70 mil pessoas ao vivo e mais de um bilhão via televisão. Penso que devemos respeitar, como seres humanos que são, todos os que têm a coragem de fazer um trabalho desses. Mas também avaliá-los se são as pessoas mais indicadas para uma empreitada desse porte.
Nas empresas, aprendemos com nossos enganos, mas também ao observar nossos concorrentes, prever suas ações, nos defender de seus ataques e aproveitar cada deslize deles para avançar. Assim é o duríssimo jogo empresarial.
Espero que os ensinamentos desta Copa sirvam, não apenas para formar um time de futebol melhor, mas também para refletir e fazer o melhor em nossas vidas, organizações e, principalmente, em nosso Brasil. Se quisermos evoluir, nada pode ser deixado ao acaso, afinal, não é ele o responsável pelas vitórias.
Vamos em frente!
Sílvio Celestino é sócio-fundador da Alliance Coaching.