Um possível tiro no pé?

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Autor: Lucas Mancini

 

Descentralizar é a moda do momento. Os argumentos a favor são muito interessantes. As grandes cidades estão saturadas. O trânsito é caótico. O tempo dispendido pelo trabalhador no percurso entre a sua casa e o local de trabalho é muitas vezes a metade do tempo da jornada de trabalho. O sujeito passa mais tempo no trânsito do que produzindo. Os sindicatos dos grandes centros exercem mais pressão (em forma de wage push = cost push) e controle (strikes) das suas bases. O custo de vida é alto, as ofertas de emprego são variadas e incidem no aumento do “turn over”. A concentração de empresas da mesma categoria em centros urbanos produz um “rodízio” da mão de obra além do desejado… E vai por aí. Criam-se dois fenômenos econômicos distintos. A concentração produz uma economia de escala tanto com relação à mão de obra preparada, como na facilidade de equipamentos e infraestruturas. Com a massificação da produção de serviços, esta concentração acaba por trazer o fenômeno da deseconomia de escala com achatamento de resultados. Se por um lado a lógica da economia de escala trata de reduzir o preço na ponta, depois de um certo ponto de saturação, (vide o gráfico abaixo) ela produz uma competição por mão de obra que se valoriza diante do aumento das ofertas de postos de trabalho, com consequente redução das margens. Todas essas percepções são verdadeiras não há como contestá-las.

 

Pela descentralização temos os argumentos contrários aos acima mencionados, o que por si só representam um grande atrativo imediato para que, alguns grandes contratantes busquem levar suas operações para diversas cidades de menor porte e de menor competitividade de mão de obra. O que pouca gente admite, porém, é que o que move realmente essas decisões é a procura por custos menores e consequentemente, preços ainda menores, o resto é álibi.

 

Economia financeira é o que importa no “Bottom line”. Os poetas ainda insistirão que o que importa é a qualidade de vida, a harmonia, e outros argumentos “politicamente corretos”. Pergunte a um gestor contratante, sobre qual é o custo real e o tempo total para se implantar uma cultura de prestação de serviços em um pequeno centro rural ou industrial?

 

Mas vamos examinar esse cenário aparentemente contrário entre os grandes centros urbanos e as pequenas cidades do interior do pais, ou mesmo, de pequenas capitais a beira mar, já que não ouvi ninguém querendo colocar uma central de atendimento no Acre ou em Rondônia ou no seio da Floresta Amazônica, ainda

 

O transporte público dos menores centros urbanos é realmente mais eficiente ou mais moderno? Não, bem ao contrário, a renovação da frota e a administração das empresas de transportes públicos ou privados dos centros urbanos menores é pior e mais lenta do que nos grandes centros. Explica-se: menos passageiros, menor demanda, menor ramificação de linhas, menores resultados financeiros, desgaste menor e consequentemente longevidade exigida dos equipamentos muito maior. Há dados da indústria de transportes que comprovam isso. Vendem-se muito mais ônibus e em menor tempo nas grandes capitais do que no interior. O tempo de percurso, porem, é bem menor nas pequenas cidades. Claro, não há muito lugar para ir… Por consequência, o ritmo de vida é outro nos menores centros.

 

Conta a lenda urbana que dois paulistanos, em visita a alguns clientes em Maceió, entraram em um estabelecimento e pediram para o balconista dois cafés, água mineral e a conta. O balconista espantado com a pressa, perguntou: “- Alguém está perseguindo vocês?”. Ou então, em Salvador, um colega nosso pediu pela manhã um suco de laranja e ouviu uma sugestão alternativa: “- Serve uma Fanta?”

 

Examinemos as organizações sindicais. Podemos acreditar que com menor base sindical as pressões tendem a ser menores, dependendo do tipo de setor produtivo ou de serviço envolvido. As centrais de atendimento hoje representam para os sindicatos um grande público. Formado por jovens entre 18 a 31 anos e com imensa maioria de mulheres, geralmente com grau médio de escolaridade e cursando, pelo menos tentando, cursar o Superior. Ainda encaram essa atividade como uma passagem para um nível maior de profissionalização. As reivindicações básicas giram em torno de melhoria salarial, jornadas de trabalho compatíveis, planos de saúde, alimentação e apoio para as mães com filhos em idade de creche.

 

Efetivamente o “turn over” tem que ser analisado com maior amplitude, pois não é só a oferta de outros empregos que move este indicador. Trata-se muito mais da capacidade de retenção que uma empresa possui em manter seus funcionários, motivados, atendidos, treinados, promovidos, bem tratados e reconhecidos, do que qualquer outro fator isolado de oferta. É evidente que se não existem muitas opções para a absorção da mão de obra em uma cidade, os empregos tendem a ser melhor preservados. Mas é evidente também que se a juventude não enxerga opções naquela cidade, que ela busque opções em outros centros. A migração em busca de melhores postos de trabalho e realização de sonhos é histórica.

 

O problema do turn over nos centros menores esbarra com o problema do crescimento populacional histórico daqueles centros. Quantos jovens em inicio de carreira são colocados no mercado de trabalho por ano? O numero é suficiente para povoar demandas das centrais alienígenas? Como falamos em trabalhos qualificados, onde se necessita de mão de obra com gente cursando o ensino Superior ou mesmo tendo concluído o ensino médio, essa “reserva” será suficiente para suprir a demanda criada numa central com 1.000 ou 2.000 PA´s?

 

Uma central com cerca de 3.000 funcionários, precisa de 450 novos funcionários x mês para fazer frente a reposição de mão de obra. Em 10 meses, terão girado 4.500 trabalhadores. Dados conservadores, frente a situações encontradas nas grandes capitais e multiplicados pelo numero de centrais existentes.

 

Aqui existe uma consideração a fazer sobre dois tipos de operações. As de baixa pressão e as de alta pressão. As ultimas tendem a exibir números mais agressivos no ABS e no turn over.

 

Uma operação com alta pressão diária onde os indicadores são cobrados hora a hora pode ser assimilada facilmente sem causar os mesmos efeitos que causam nas centrais das grandes cidades? Isto é para os mesmos sintomas, espera-se resultados diferentes? Por qual razão, a não ser a ingênua crença, fazer as mesmas coisas do mesmo modo produzirá resultados diferentes? Portanto será benéfico escolher muito bem o que levar para um centro menor?

 

Narro aqui como experiência profissional, a oportunidade que rapidamente se transformou em pesadelo, de montar duas centrais de atendimento, em cidades menores e distantes de uma grande capital.
 
Sentimos na pele o que significa aculturar o conceito de prestação de serviços, em regiões com características de centro rural, industrial ou comercial. Simplesmente as pessoas “choram” nas primeiras vezes que ouvem manifestação mais ríspida de um consumidor insatisfeito e literalmente abandonam o emprego. Isto, sem considerar o pouco apoio que os líderes podem oferecer neste momento.
 
No dia seguinte ao tal abandono do emprego, era bastante comum que os pais destes jovens nos procurassem para tomar “satisfações” do que havia ocorrido e porque o filho ou a filha fora tratada daquela forma…
 
Com relação ao custo de vida dos centros menores, temos que considerar que muitas vezes a distância dos grandes centros pode trabalhar para produzir custos menores, mas pode também contribuir para aumentar esse custo. A tecnologia, por exemplo, tanto com relação às telecomunicações como com relação à mão de obra qualificada representam um complicador considerável nos pequenos centros. Os famigerados degraus tarifários, as dificuldades de abordagens em diversos lugares e a nossa magnífica rede de banda larga falam por si.

 

Em seguida é preciso montar uma ação para o suporte de toda tecnologia embarcada numa central, tais como; desenvolvimento de aplicativos e de customizações diversas, servidores, redes, aplicativos e outras soluções com a mesma capilaridade e disponibilidade que existe nas grandes capitais. Isso pode levar algum tempo. Hoje esse tipo de mão de obra nos grandes centros resiste a um gap de perto de 20 mil vagas não preenchidas.

 

Nos centros menores, o custo da produção acaba sendo paradoxalmente maior, pois inexiste a economia de escala.

 


No pequeno centro, a indústria estaria ali no começo da curva (alta Average Cost). Q* seria o tamanho ótimo. Depois só tende a piorar.

 

A conclusão ao menos provisória deste cenário não pode ser esperada como uma espécie de veredito. Ficar nos grandes centros ou partir para a descentralização? Depende dos objetivos, dos investimentos, do foco de cada empresa e especialmente da maturidade em encarar desafios e novas situações. Positivamente para quem somente quer encontrar custos menores, a descentralização pode ser um tiro no pé.

 

Uma grande virtude deste processo deve ser enfatizada. A descentralização é um sonho desde que rasgou-se o tratado de Tordesilhas. O Brasil precisa se desenvolver mais homogeneamente. Porem, isso só será possível através de uma política de Estado combinada com uma ação programática das empresas privadas. Quando digo política de desenvolvimento do Estado, não me refiro a soluções táticas menores e míopes como a guerra fiscal entre as cidades e regiões do País. Esperam-se estratégias nas áreas da educação, financiamentos, saúde, tributária e fiscais e nas relações de trabalho (CLT) e não apenas soluços.

 

A descentralização irá levar um pouco dos grandes centros para os menores centros, mas, por perversão ou virtude das leis da economia, a busca pela economia de escala tenderá a repetir o ciclo. Levará as virtudes e os vícios, mas, ao final de um longo processo, se ele vier mesmo a ocorrer, o País sairá ganhando. Os que permanecerem nos grandes centros urbanos ou os que desbravarem os menores centros, na esperança de produzir alguma coisa diferente terão os seus resultados. “Nada será como antes, amanhã…”

 

Lucas Mancini é CEO do Voxline e presidente do Sintelmark.