A revolução da agricultura urbana

CEO da Yes, We Grow fala da retomada do velho hábito do plantio caseiro de alimentos diante dos novos hábitos de consumo

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Rafael Pelosini, fundador e CEO da Yes, We Grow
Rafael Pelosini, fundador e CEO da Yes, We Grow

A busca por um estilo de vida mais voltado à natureza, o aumento de adeptos ao veganismo ou ao vegetarianismo, entre outros fatores, favorecem o retorno a um antigo e abandonado hábito: o cultivo caseiro para consumo de frutos, verduras e vegetais. Detectando o potencial de demanda para aquisição de sementes, mudas e brotos nesse emergente mercado, nasceu a Yes, We Grow, há dois anos. Vitaminado pelo isolamento social no período da pandemia, o negócio da startup cresceu de forma exponencial e ruma já para a quarta rodada de investimentos. Com a ambiciosa meta de se tornar a principal marca global no segmento de agricultura urbana, a empresa envereda pela sofisticação e tecnologia de produtos e atende todo o país por meio de sua plataforma digital, conforme detalhou, hoje (21), Rafael Pelosini, fundador e CEO, ao longo da 289ª live da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br. 

Neto de ex-bóias-frias que se transformaram em comerciantes na região do ABC paulista, o executivo herdou a veia empreendedora, iniciando-se logo cedo os negócios próprios. Manteve, por oito anos, uma empresa especializada em soluções de CRM e, depois de se arriscar em empreendimentos na área de bares e restaurantes, fez um curso de imersão no MIT para melhor conceituação e tendências, de onde surgiu a ideia da Yes, We Grow. “Ao observar os hábitos de jardinagem e cultivos caseiros, percebi a ausência de uma marca representativa junto a esses consumidores. Como me especializei nas técnicas de construção de marcas e possuía interesse nessa área, por acreditar ser rentável, atender a um propósito e deixar um bom legado, fundei a empresa em 2018 e começamos as vendas. De lá para cá, já fizemos três rodadas de investimentos e estamos empolgados com os rumos que o negócio tomou.”

Indagado sobre as principais dificuldades iniciais, o CEO disse que a principal foi convencer os investidores sobre o potencial de demanda local e global, o que se apoiava na observação do hábito natural de cultivo de plantas em praticamente todas as residências. Algo que estaria sendo turbinado ainda pelo crescimento do vegetarianismo, do veganismo, etc., e do que chamou de lifestyle conectado à natureza. “Tão logo obtivemos os primeiros recursos e agimos, em 2019, essa demanda se confirmou e hoje já somos uma startup praticamente consolidada, com mais de 20 colaboradores e um grupo de investidores com muita consistência na retaguarda.” Para ele, o sucesso imediato da marca foi fator fundamental para conquistar as demais rodadas de investimentos e possibilitar que a ideia fosse amadurecendo na prática.

Outro elemento apontado pelo empreendedor para alavancagem do negócio foi justamente a experiência anterior no mercado de CRM. Isso o ajudou a lidar com a multiplicidade de interesses dos clientes, desde os que só buscam, por exemplo, pelo manjericão ou tomate, até os que desejam cultivar uma horta completa ou aqueles que necessitam mais de orientações para êxito nessa nova atividade caseira. E complementou esse quadro citando o surgimento recente do plantio de ervas medicinais também como uma tendência. Perguntado sobre o que pesaria mais na balança para escalar o negócio, se os recursos financeiros ou esse entendimento do cliente, Pelosini não hesitou em apontar o segundo aspecto como preponderante. “Esse é um ponto chave para qualquer startup. Se a empresa não tiver bem claro o perfil do cliente que quer atingir, acaba gastando muito dinheiro para atrair, desnecessariamente, públicos muito diversificados. Notadamente para a atuação e crescimento exclusivamente no digital – um pouco de B2B e muito no B2C -, o custo de aquisição de cliente tem que estar ancorado em consumidores que tragam valor. Caso contrário, inviabiliza o negócio.”

Um diferencial destacado pelo executivo está na dupla jornada a ser permanentemente estudada. Uma é a do cliente, em seu ciclo que é idêntico ao de muitas organizações, mas nesse negócio há uma outra bem específica: a jornada do produto. “O consumidor de sementes, brotos e mudas de plantas tem que entender que há um ciclo natural de desenvolvimento de cada produto. A natureza não liga para o imediatismo que se vê em inúmeras atividades atualmente, nem age pela vontade daquele que cultiva os vegetais e legumes.” E brincou afirmando que, se um cliente ligar reclamando que o tomate está demorando quatro meses para nascer, “só resta reclamar com Deus”. Por isso, de acordo com sua análise, o aprendizado da organização também é grande. Por exemplo, ao oferecer brotos que permitem colheita em menos de duas semanas ajudou no crescimento do negócio. “Neste segmento, nos encontramos praticamente no estágio em que estava a alimentação pet décadas atrás. Há muito o que aprender, principalmente no âmbito da tecnologia de produtos.”

Ao exibir uma cápsula com sementes que facilita o plantio, o CEO não escondeu o objetivo que é o de ser uma espécie de Apple da agricultura orgânica, justificando pelo fato de oferecer possibilidades de que qualquer pessoa possa obter bons resultados com a atividade caseira sem que seja uma espécie de engenheiro agrônomo. “Nossa meta é ser a maior fazenda do mundo mesmo sem possuir um único pedaço de terra. Queremos ser uma marca de alcance global. O crescimento do cultivo caseiro registrado durante a pandemia – responsável por uma elevação em 20 vezes nas vendas da Yes, We Grow – tem se mantido em nível mundial. O Brasil é um grande sucesso no agronegócio, mas oferece um enorme espaço ainda para as várias vertentes da agricultura urbana.” E, fornecendo um pouco dos números atuais que sustentam a organização, o executivo relatou que, ao contrário do que se poderia imaginar, 76% dos clientes da empresa são moradores de apartamentos. Cerca de 80% dos compradores são do sexo feminino e, mesmo atingindo todas as faixas etárias, a preponderância se dá junto a um público entre os 18 a 40 anos de idade.

O vídeo com o bate-papo na íntegra está disponível em nosso canal no Youtube, o ClienteSA Play, junto com as outras 288 lives realizadas desde março de 2020. Aproveite para também para se inscrever. A série de entrevistas prosseguirá amanhã (22), com a presença de Fabio Rabelo, head de Digitalização & Novos Modelos de Negócio para América Latina da Volkswagen, que falará sobre a surpresa do digital que virou referência global; na quarta, será a vez de Alexandre Bratt, CEO da Grand Cru; na quinta, Carlos Grieco, diretor executivo de payments business unit da SumUp; e, encerrando a semana, o “Sextou” debaterá a questão da desjudicialização nas empresas, com a participação de Maria Carolina Santos, gerente de excelência da Gol, Beatriz Dias, ouvidora do Banco Safra e Maurício Lambstain, diretor de relacionamento com clientes, compliance e DPO do Ekko Group.