Acessibilidade como propósito e estratégia

Sócio-fundador da Guiaderodas fala sobre o impacto no mercado da plataforma que engloba aplicativo e certificação

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Bruno Mahfuz, sócio-fundador da Guiaderodas
Bruno Mahfuz, sócio-fundador da Guiaderodas

Aproveitando a tecnologia em favor da acessibilidade para pessoas com restrições de mobilidade, o Guiaderodas vem ganhando o mundo por dois motivos principais. De um lado, o aplicativo permite a previsibilidade sobre as condições de acessos, com autonomia, segurança e conforto, aos interessados em visitar estabelecimentos. De outro, confere a certificação de acessibilidade, que vai obtendo relevância junto às organizações, incentivando-as a irem estrategicamente além das normas básicas impostas pela legislação a respeito. Os detalhes da concepção e crescimento dessa plataforma foram compartilhados, hoje (24), por Bruno Mahfuz, sócio-fundador da Guiaderodas, na 271ª. live da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br.

Vítima de acidente automobilístico que o tornou cadeirante há 20 anos, o executivo confessa jamais haver se preocupado, antes disso, como quase todos, sobre a questão da acessibilidade. Até que, vivenciando o problema na pele, começou a perceber as enormes dificuldades enfrentadas pelas pessoas em condições, pontuais ou permanentes, de mobilidade reduzida, a um acesso seguro nos estabelecimentos de consumo. Ou mesmo se locomoverem pelas vias urbanas em geral. Depois de estudar profundamente o assunto, desenvolveu e lançou, em 2016, o aplicativo Guiaderodas. “Trata-se de um repositório de informações que oferece previsibilidade a esse público quanto às condições de acessibilidade nos locais aos quais pretende comparecer. Qualquer pessoa pode obter, gratuitamente, e contribuir com sua percepção sobre condições de mobilidade e acesso a diferentes locais. Tanto que, atualmente, 53% dos participantes são pessoas sem qualquer restrição de mobilidade.” De acordo ele, a plataforma já registra dados fornecidos por simpatizantes da causa em mais de 2.500 cidades de 115 países do mundo. 

Na avaliação do fundador, nessas quase duas décadas, desde a percepção do problema até a consolidação da ferramenta, houve grandes avanços nas organizações em geral. Como exemplo, citou o fato de, já como cadeirante, ao cursar uma faculdade de ensino, precisar lutar pessoalmente por adaptações que lhe permitissem, no mínimo, ter acesso ao banheiro. Hoje, entretanto, ele reconhece que qualquer universidade permite uma mobilidade facilitada e segura para pessoas nessa situação limitativa. “O processo de conscientização sobre esse problema pode até demorar, mas segue sempre adiante. Não para de progredir.” Nesse sentido, Mahfuz refletiu sobre ser um dos grandes complicadores o fato incontestável de que a imensa maioria das cidades simplesmente surgiu, sem nenhum planejamento. Em consequência, há muitos espaços urbanos com total impossibilidade de se melhorar a acessibilidade. “Por isso, na verdade, o nosso app pretende ser apenas a ponta do iceberg. De início, não houve preocupação de nossa parte sequer em monetizá-lo, pois o propósito foi criar uma ferramenta de informação e conscientização. E sua sustentação veio depois, pela via da Certificação Guiaderodas de acessibilidade. Uma proposta bem simples: já que é obrigatório que a empresa faça o mínimo a esse respeito, porque não mirar estrategicamente no topo da questão?”

Ainda sobre o aplicativo, ele conta que, em função dos critérios impostos pelo advento da LGPD, ficou mais difícil abordar as organizações por e-mail para sondagens e efetuar recomendações para aquelas eventualmente mal avaliadas na ferramenta.  “Então, a saída tem sido mesmo dar destaque, por meio do reconhecimento público via certificações, para aquelas com iniciativas positivas nesse âmbito. Com isso, ao mesmo tempo em que esse reconhecimento vai ganhando relevância em todos os segmentos, a plataforma vai somando dados cada vez mais significativos.” Dentro dessa realidade, o executivo enfatiza outro aspecto que passa, muitas vezes, despercebido: com o crescimento do número de idosos nas sociedades, as limitações de locomoção começam a chamar a atenção.

 

Indagado sobre a surpreendente internacionalização do aplicativo, o executivo contou que houve, mesmo sem um planejamento efetivo nesse sentido de início, a preocupação intuitiva de traduzir o conteúdo da plataforma para os idiomas inglês e espanhol. Em função disso, a ferramenta pode ser baixada nessas versões em qualquer lugar do mundo, surgindo avaliações de estabelecimentos em locais do planeta os mais inesperados. E, analisando o fato de mais da metade dos participantes que contribuem com essas percepções não serem portadores de deficiência física ou restrições temporárias à mobilidade, ele comentou a grande e crescente quantidade de simpatizantes em relação à causa.

Ao discorrer sobre os detalhes da certificação, Mahfuz relatou que, partindo da visão inicial de criar um diferencial estratégico que poderia representar a oferta de acessibilidade nos pequenos estabelecimentos, percebeu-se o quanto isso seria fundamental também para as médias e grandes empresas. Ou seja, levá-las a irem além das normas básicas determinadas em legislação. “Trata-se de um incentivo ao processo de melhoria contínua na experiência de acesso generalizado. Um valor que precisa ser mantido na companhia independentemente do quadro de pessoas no tempo. Dessa forma, a certificação busca que haja uma configuração de espaços acessíveis sempre atualizada. A partir de orientações do guia e de sua visão de 360 graus obtida através de dados dos próprios colaboradores da empresa inseridos no aplicativo.”

O vídeo com o bate-papo na íntegra está disponível em nosso canal no Youtube, o ClienteSA Play, junto com as outras 270 lives realizadas desde março de 2020. Aproveite para também se inscrever. A série de entrevistas terá sequência amanhã (25), recebendo Tatiana Michelan, diretora de relacionamento com o consumidor para América Latina da Coca-Cola, que falará da estratégia omnichannel para vendas e engajamento; na quarta, será a vez de Alexandre Velilla, CEO do Cel.Lep; na quinta, Antonio Augusto, diretor de marketing da Localiza; e, encerrando a semana, o “Sextou” debaterá a relação da tecnologia com a revolução no marketing, com as presenças de Fabiana Schaeffer, cofundadora da Netza e Circle Aceleradora de Martechs, André Fonseca, CEO e cofundador da Bornlogic e Gian Martinez, cofundador e CEO da Winnin.