Com inclusão, todos ganham

Debate sobre como superar os preconceitos oferece dicas para um ambiente plural nas empresas

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Edvaldo Pereira, Daniela Gonçalves e
Edvaldo Pereira, Daniela Gonçalves e Vinicius Silva

As empresas são um reflexo direto das sociedades. Por isso, têm que enfrentar igualmente a necessidade da inclusão, oferecendo oportunidades para alavancar a evolução da luta contra os preconceitos. Na medida em que os negros, por exemplo, avançam em suas conquistas, se tornam inspiração para uma movimentação social mais aberta e empresas bem mais produtivas e criativas. As reflexões a respeito da temática do racismo, as carreiras profissionais e os programas inclusivos das organizações fazem parte do “Sextou?”, de hoje (24), com Daniela Gonçalves, expert na Veraque, Edvaldo Pereira, COO da Amil, e Vinicius Silva, diretor de transformação digital e inovação no Shopping do Cidadão, durante a 85ª live da série de entrevistas dos portais ClienteSA e Callcenter.inf.br.

Ressaltando a importância de se tratar de um tema tão relevante e contemporâneo, Daniela abordou, primeiramente, o momento de pandemia e o quanto o modelo de home office, que era adotado pontualmente, passou a fazer parte do dia a dia. “Trata-se de uma fase de adaptação para nós, principalmente porque as aulas virtuais passaram a ser uma necessidade. Temos que buscar foco e disciplina para atuar em casa, também no sentido de que, de repente, ficamos conectados diuturnamente. Podemos ter uma sensação de estar produzindo muito, mas ainda sem saber se é tudo com a qualidade essencial.” De qualquer forma, ela entende que, em sua atividade, enquanto consultoria de treinamento, a produtividade tende a aumentar, principalmente pelo aproveitamento do tempo que antes era gasto em deslocamentos.

Já Edvaldo divide o momento em três capítulos. Primeiro, o da maior convivência com a família e a nova divisão do trabalho doméstico. Depois, a coordenação da transição das novas responsabilidades no novo modelo de trabalho na empresa. “Em duas semanas, passamos sete mil pessoas para o home office, enquanto outros 34 mil trabalham nos hospitais. Houve uma diminuição do absenteísmo para quase a metade. Estamos buscando o equilíbrio entre o acompanhamento dos indicadores de performance e os cuidados com as pessoas. Como ajudamos a s equipes a alcançar o equilíbrio nessa nova realidade.” E, em terceiro, ele coloca a necessidade de se debater o chamado novo normal, levando-se em consideração o lado da sociedade que sequer tem o que comer. “Ficar em casa é para quem pode, mas os demais têm de ser ajudados. Temos que buscar uma sociedade mais igualitária.”

Já para Vinícius, a pandemia acarretou aumento de produtividade e conhecimento, como consequência de contar com mais tempo para trabalhar e pesquisar. Ele mudou de emprego em plena quarentena, uma transição para um serviço essencial em plena crise. “Enquanto nossas equipes administrativas migraram para o trabalho remoto, o pessoal que está no front, atendendo às pessoas presencialmente, é que requerem maiores cuidados. A população continua precisando desse serviço. E ainda nos mantemos em um período de adaptação, notadamente porque cada região do país requer customização.” O Shopping do Cidadão é uma empresa privada que cria centrais de atendimento voltadas para os programas de governo, além de contar com uma plataforma digital integradora e unidades presenciais instaladas em todo o território nacional ligadas ao setor público. “O propósito é entregar ao cidadão aquilo que espera do Estado.”

Entrando no tema do dia, a expert da Veraque indicou o fato de que, quanto maior o grau hierárquico, menor a presença de mulheres e negras. “Por mais que haja campanhas de conscientização sobre os preconceitos, a verdade é que fará diferença quanto mais nos posicionarmos entregando resultados.” Em sua concepção, é muito significativa também a atitude de a pessoa se preparar para ser protagonista e diminuir o sentimento de vitimização. “Não precisamos de autorização para nos destacar”, afirmou. Segundo ela, as organizações estão fazendo esforços na direção da inclusão ou diversidade e chama isso de respeitar as singularidades, seja de gênero, raça, orientações, etc. “Pesquisas indicam o crescimento de iniciativas para mostrar às jovens negras que elas podem também exercer funções antes preenchidas somente pelos homens. É questão de posicionamento e atitude e não de característica física. Cresci na minha carreira porque não me deixei abater pelos rótulos atribuídos desde a infância. E espero ser inspiração para as pessoas na mesma situação.”

Por sua vez, o COO da Amil enxerga essa temática da inclusão como de alta relevância, lembrando que as empresas são apenas um reflexo da sociedade. “É preciso reconhecer que o racismo existe e que tem de ser enfrentando com sabedoria. Para isso, as organizações precisam estar preparadas, pois não acontece automaticamente. Necessita de um sólido processo de educação. Pude crescer na minha carreira porque houve oportunidades.” Ele chamou a atenção para a irônica constatação de que mesmo representando 56% da população, os negros são chamados de minoria. “Foram 388 anos de escravidão contra 122 anos de liberdade. Não houve uma inclusão natural na sociedade. Então, as empresas têm de desenvolver ações afirmativas estudadas e bem aplicadas. Oferecer oportunidades para ajudar a tracionar essa evolução.” Edvaldo ilustrou sua fala também com as sondagens que apontam terem os quadros gerenciais pouco mais de 30% dos cargos ocupados pelos negros. Índice que cai para 4% quando se olha para a alta direção, sendo que somente 0,4% conquistados por mulheres negras. “Temos na empresa o Comitê de Inclusão e Diversidade, com ações para temas específicos, com a coragem de entrar nessa jornada, com seus erros e acertos. Há um gap social mostrando que 72% dos mais pobres são da população negra, e no momento em que há a inclusão todos têm a ganhar. Temos sempre que nos lembrar de uma frase de Martin Luther King aos negros, sintetizada no conselho: jamais pare de seguir em frente”, completou.

Retomando a palavra, o diretor do Shopping do Cidadão destacou a necessidade de se compreender que o problema existe. “Mas cabe ao homem e à mulher negra a reflexão sobre como eles mesmos se veem. No meu caso, tive a oportunidade de trabalhar em organizações que efetivamente buscavam a diversidade como questão estratégica. Quando se propõe a enfrentar o problema e agir positivamente para mitigar, e também sabendo que a diversidade traz capacidades de resolver melhor a visão de futuro.” Para ele, a não diversificação compromete essa perspectiva, dando ênfase à relevância dessa representatividade diversificada. A busca, na compreensão de Vinícius, é se inspirar nos negros que conseguiram superar os obstáculos e todos ajudarem trabalhando para melhorar a autoestima das pessoas. “Diante dessa estatística terrível que verifica ser a maioria das populações pobres das periferias formada de negros. Como empoderar essas pessoas? Temos que assumir a responsabilidade de ser o exemplo positivo para eles. E desejando o surgimento crescente de ambientes que valorizem as pessoas por sua capacidade de contribuir e não por suas características superficiais.”

O bate-papo, na íntegra, está disponível em nosso canal no Youtube. Aproveite para também se inscrever e ficar por dentro das próximas lives. Na segunda-feira a série de entrevistas terá a presença de Julio Cesar Ramalho Costa Filho, gerente geral do SAC do Banco do Brasil. Que desenvolverá o tema dos diferenciais de uma cultura de inovação; na terça, será a vez de William Malfatti, diretor de comunicação, marketing, relacionamento com clientes e relações institucionais do Fleury; na quarta, Mauricio Kikuchi, CIO da Ituran e Vanessa Tiba, country manager da Altitude; e, na quinta, Marcio Aparecido Souza, diretor de customer experience do Mercado Livre.