Thiago Terra, gerente executivo de estratégia comercial e trade marketing da Grano Alimentos

Quando cozinhas mudam, categorias também mudam: o caso dos vegetais congelados

Hoje, as pessoas não buscam apenas alimentos saudáveis, buscam soluções que se encaixem em rotinas cada vez mais dinâmicas

Autor: Thiago Terra

Durante muito tempo, a ideia de que apenas os vegetais frescos garantem valor nutricional ou sabor dominou a percepção dos consumidores. Mas quando analisamos toda a jornada do alimento, da colheita até o consumo, percebemos que o conceito de frescor vai muito além da exposição nas gôndolas do hortifruti. Em muitos casos, o principal fator que compromete a qualidade nutricional não é o congelamento, mas o tempo.

Para um vegetal, tempo é o maior inimigo da qualidade. Estudos mostram que, poucos dias após a colheita, vegetais frescos podem apresentar perdas relevantes de vitamina C durante transporte, armazenamento e exposição até chegar ao consumidor. No caso dos ultracongelados, o processo realizado logo após a colheita preserva vitaminas, minerais e fibras por períodos mais longos, garantindo maior estabilidade nutricional.

Mas o ponto central vai além da ciência. Ele também reflete uma mudança clara no comportamento de consumo. Hoje, as pessoas não buscam apenas alimentos saudáveis, buscam soluções que se encaixem em rotinas cada vez mais dinâmicas. Tempo e praticidade passaram a ser fatores centrais nas decisões de compra.

Nesse contexto, categorias que oferecem maior praticidade e previsibilidade de preparo passam a ganhar espaço, tanto nas cozinhas de casa como nas profissionais.

Os números mostram que essa transformação já está em curso. Entre 2023 e 2024, segundo dados da Nielsen IQ, o mercado de vegetais congelados cresceu 14% em volume e 17% em valor no autosserviço e no atacarejo. Em 2025, mesmo diante do impacto da inflação de alimentos, a categoria segue em expansão, com crescimento adicional de 4% em volume e 7% em valor. Esses indicadores mostram algo mais profundo do que um crescimento pontual: indicam uma consolidação estrutural da categoria nos canais de consumo.

A leitura regional reforça esse movimento. Dados da NIQ mostram que São Paulo, entre capital e interior, concentra mais de 50% do mercado de vegetais congelados no país. O Sul apresenta maior protagonismo no autosserviço, enquanto o Nordeste ganha relevância no atacarejo. Esses recortes mostram como a categoria já está integrada a diferentes dinâmicas de consumo e perfis regionais.

No dia a dia das negociações com grandes redes varejistas e operadores de food service, fica claro que o conceito de frescor está evoluindo. Previsibilidade de abastecimento, padronização e controle de perdas tornaram-se critérios tão relevantes quanto preço e sortimento. Frescor hoje não é apenas proximidade da colheita, mas sim eficiência ao longo de toda a cadeia.

Essa transformação também reflete mudanças estruturais na forma como os alimentos são preparados e consumidos. No food service, duas pressões vêm redesenhando a dinâmica das cozinhas profissionais: a inflação de alimentos e, principalmente, o custo e a escassez de mão de obra. Em muitas operações, atividades como lavar, descascar, picar ou cortar vegetais ainda ocupam parte relevante do tempo da equipe. Preparar um brócolis ou cortar grandes volumes de cebola, por exemplo, exige pessoas dedicadas a tarefas que agregam pouco valor ao serviço final. Em um cenário de equipes mais enxutas e pressão constante por produtividade, esse tipo de alocação de mão de obra tende a se tornar cada vez mais raro.

Ao mesmo tempo, no consumo doméstico observa-se uma dinâmica semelhante. As pessoas cozinham menos tempo em casa, os apartamentos nas grandes cidades são cada vez menores e a rotina urbana exige mais conveniência. Essas mudanças apontam para uma reconfiguração gradual da relação das pessoas com o preparo de alimentos, tanto nas cozinhas profissionais quanto nas residenciais.

Há ainda o componente da sustentabilidade. Ao permitir melhor aproveitamento da produção agrícola, reduzir perdas e garantir oferta ao longo de todo o ano, os vegetais congelados contribuem para um uso mais eficiente de recursos naturais e para um modelo alimentar mais equilibrado.

Desmistificar os vegetais congelados não significa desvalorizar o hortifruti tradicional. Significa reconhecer que tecnologia, logística e novos hábitos de consumo estão redefinindo o que entendemos por qualidade alimentar.

No fim do dia, a discussão não é apenas sobre o tipo de vegetal que chega à cozinha, mas sobre como as cozinhas, tanto profissionais como domésticas, estão evoluindo. Em um cenário de menos tempo, equipes mais enxutas e rotinas cada vez mais dinâmicas, a forma de preparar alimentos está mudando de maneira estrutural.

Thiago Terra é gerente executivo de estratégia comercial e trade marketing da Grano Alimentos.

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