
E se um sistema como esse cai, o que não deve acontecer com outros menos ilustres, como aqueles que tratam do relacionamento com clientes. “Não podemos atendê-lo neste momento, pois estamos sem sistema”, “não podemos controlar isto, pois é feito pelo sistema” e outras tantas pérolas que costumamos ouvir. Tudo é culpa do sistema. Engraçado, pois estou no ramo há anos e um dos requisitos que as empresas mais exigem quando definem, compram ou desenvolvem sistemas é que este deve permitir a parametrização das regras de negócio definidas pela organização. Parece claro que as regras de negócio são definidas pelas pessoas que comandam a organização e incorporadas ao sistema, testadas e aprovadas. Logo os sistemas fazem o que foi definido por estratégias limitadas pelas restrições daqueles que os implementam. Deve ser por isto que existem sistemas mais e menos inteligentes. Sistemas mais e menos preocupados com o cliente.
Vejam vocês o que aconteceu comigo outro dia. Sou assinante de um serviço de locação de DVDs pela Internet. Excelente por sinal. Até o dia que o meu cartão de crédito venceu e troquei o vencimento no site. Por algum motivo o sistema não reconheceu a troca e recebi, depois de três anos pagando pontualmente, uma cobrança amigável informando-me que a minha conta havia sido suspensa por falta de pagamento. Pior, fui lá e troquei para débito em conta. Informaram-me que o sistema leva de 3 a 5 dias úteis para regularizar a situação. Para finalizar veio o débito no meu cartão de crédito novo. Enquanto isso, fiquei mais de dez dias sem poder usar o serviço. A culpa é do sistema? Claro que não. Quem definiu a regra, pensou no cliente mau pagador, talvez por achar que a maior parte deles o é. Corta, depois discuta.
Durante uma época, fui aplicador e o gerente me isentou das tarifas atendendo a minha solicitação. No dia que deixei de ser um aplicador nos níveis em que o sistema achava que devia ser, passou a cobrar a tarifa mais cara. De quem era a responsabilidade? Claro que do sistema. “O sistema aplica automaticamente a tarifa cheia, para mudar tem que entrar em contato” me informou o gerente. Há umas semanas atrás fiz novamente uma aplicação nos níveis de isenção de tarifa. O sistema foi inteligente para me devolver a isenção? Claro que não. “O sistema não concede isenção de tarifas, só o gerente”, disse o gerente. A culpa é do sistema? Claro que não! São os gestores que definiram as regras em nome da organização para qual trabalham.
Enio Klein é professor nas disciplinas de vendas e marketing da Business School São Paulo – BSP, diretor da K&G Sistemas e general manager da operação SalesWays no Brasil.