As escolhas nos levam às lições

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Assim como um sorriso tão grande como o vale de Panjsher, este livro é pura emoção. Desde o início, com uma história ingênua que parece tão distante, mais precisamente no gélido inverno asiático de 1975, até as lágrimas (muitas!) que insistem em acompanhar as páginas e os acontecimentos no decorrer da narrativa.

O romance de estréia do médico e escritor afegão Khaled Hosseini é uma obra de arte. Obviamente, gosto não se discute, mas é quase impossível você passar por esta história e se sentir a mesma pessoa ao término da leitura. Como no comentário de ninguém menos que Isabel Allende, “esta é uma daquelas histórias inesquecíveis, que permanecem em nossa memória por anos a fio”.

O Caçador de Pipas é uma narrativa que aborda a relação entre os nossos sentimentos mais complexos como amor, honra, culpa, abuso, medo e perdão, e temas profundos na relação humana como amizade, família, a fragilidade da relação entre pais e filhos, entre ídolos e suas expectativas frustradas. Nunca imaginei que pudesse haver tanta empatia com a realidade de um país distante e obscuro para a nossa cultura ocidental como o Afeganistão, que ganhou a mídia depois do sangrento golpe comunista e a invasão soviética, passando pela “salvação” do regime Talibã e as conseqüências que mudariam nossas vidas após a queda das Torres Gêmeas.

A grande lição desta comovente história são as escolhas. Tudo gira em torno da relação entre dois meninos – Amir e Hassan que, como seus pais, cresceram juntos apesar de suas diferenças de religião, etnia e principalmente condição social. O conflito constante de Amir em relação a Hassan, um menino simples, de lábio leporino, sem educação e cultura, mas cheio de coragem, dignidade e sobretudo, lealdade ao amigo, fez com que uma escolha mudasse o rumo de sua própria história. Uma escolha mal feita se reflete por toda uma vida e Amir, que cresceu sofrendo com a sua difícil e frustante relação com seu pai – baba, só pode entender muitos anos depois, o verdadeiro laço que o unia ao fiel Hassan, muito mais que um amigo. A vida lhe mostraria que aquela chance desperdiçada em um beco sujo, por medo e covardia, o acompanharia na forma de náuseas que envergonhavam seu baba. Este sim, ainda lhe daria uma grande prova de honra e coragem, mesmo em um momento de fuga e humilhação, por uma simples desconhecida mas, principalmente, pelo seus valores humanos.

Mas, às vezes, a vida nos oferece uma outra chance, não para corrigir nossas escolhas e nossos erros, mas de certa forma para compensar a nossa própria frustração e para reconstruir nosso caminho em busca de escolhas melhores, de novas oportunidades para recomeçar. E Amir teve que voltar ao seu passado, enfrentar seus demônios e buscar uma coragem que ele nunca pensou que pudesse ter, às custas de muito sofrimento para pagar suas dívidas, mas uma por uma causa mais do que justa. Uma causa que valeria uma vida inteira, do passado mais distante ao futuro incerto, mas cheio de esperança, como as crianças e as pipas voando no ar. Amir, que teve seu único momento de glória perante o seu baba durante uma inocente competição em Cabul, retomou a sua vida anos mais tarde, de novo entre as pipas e as crianças. Uma coragem que seu ídolo e pai, que também deixou seus erros pelos caminhos da vida, certamente se orgulharia de novo. Uma redenção do seu próprio passado, em busca da esperança de um futuro melhor para o pequenino e sofrido Sohrab.

As escolhas são feitas e as lições devem ser aprendidas pois, de uma forma ou de outra, colhemos aquilo que plantamos. Espero sinceramente que muitos façam a escolha de ler este romance, que se emocionem e se inspirem nessa ficção, que pode e deve ter sido a realidade de muitos amigos, filhos, pais e irmãos espalhados pelo planeta, em outras épocas, em outros países e com outras escolhas, certas ou não, mas que levam ao aprendizado da responsabilidade sobre as nossas decisões em casa, na rua, na escola ou no trabalho. Inshallah!!!

Marco Barcellos é diretor de Marketing da Cisco do Brasil. Email: [email protected]