Cenário saudável na economia

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Após a desaceleração no último trimestre de 2008 e início do ano passado, o crédito voltou a se expandir fortemente, levando a que muitos analistas manifestem preocupação de que a inadimplência possa crescer de forma significativa, o que poderia comprometer o desempenho da economia neste final de ano.

É evidente que a expansão do crédito não pode continuar indefinidamente superando a taxa de incremento do emprego e da renda. Deve-se considerar, contudo, que a inadimplência não aumentou, como se poderia esperar, devido ao crescimento significativo do número de pessoas que passaram a ter acesso ao crédito, graças ao aumento da renda, fazendo com que o maior volume do crédito fosse distribuído a um contingente maior de consumidores, no geral praticamente sem endividamento.

Segundo a PNAD de 2010, cerca de 30 milhões de novos consumidores passaram a integrar as classes C e D, incorporando-se ao mercado de consumo de bens de maior valor por meio do crédito. Isso foi facilitado pelos prazos longos do crediário, a redução do valor das prestações e pelo aumento da confiança do consumidor, resultante do aumento do emprego e da renda, o que o predispõe a assumir compromissos para o futuro.

Parte expressiva da expansão do crédito para as pessoas físicas vem ocorrendo no crédito consignado, 23.3% do total, financiamento de veículos, 31.5% e imobiliário 21.5%, linhas com menor risco de inadimplência, por contarem com garantias. A linha sem qualquer garantia representou apenas 23,8% do crédito às pessoas físicas.
Embora o grau de endividamento das famílias em relação à renda tenha passado da casa dos 29% em janeiro de 2008 para 36% em junho do mesmo ano, mostra relativa estabilidade nos últimos meses, de acordo com estudo realizado pelo Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). O comprometimento da renda familiar com prestações, que mostra a capacidade de pagamento das famílias, situou-se em torno de 18%, percentual bastante próximo do estimado a partir da POF de 2010, que foi de 17,4%. Analisando-se a série relativa ao Comprometimento da Renda Familiar, nota-se que, apesar do aumento verificado desde 2006 nessa relação, os dados parecem indicar que ainda há espaço para o crescimento do endividamento das famílias, embora seja gradativamente decrescente na medida em que a expansão do crédito continua superior ao da renda.

Como a principal causa da inadimplência é o desemprego do titular do débito ou de alguém da família, neste aspecto a situação está bastante tranquila, pois o mercado de trabalho está bastante favorável. Todos os indicadores, tanto do Banco Central, como do SCPC, revelam que o crescimento dos atrasos ou não pagamentos das pessoas físicas tem sido inferior ao da evolução do crédito, e que a inadimplência mantém-se relativamente estável.

Pode-se considerar que esse cenário bastante favorável em termos de expansão do crédito e da inadimplência deva prevalecer até o final do ano, o que permite esperar um bom desempenho para o varejo no último trimestre de 2010.

Para o próximo ano, contudo, as perspectivas serão um pouco menos otimistas, pois embora deva continuar o crescimento da economia, do crédito e das vendas do varejo, há uma taxa mais moderada de expansão do que a deste ano.

Marcel Domingos Solimeo é  economista-chefe e superintendente institucional da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).