Crescimento em ritmo mais lento

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O desempenho  expressivo das vendas do varejo em 2010, com expansão na casa dos 11%, não deve se repetir neste ano, mas, mesmo assim, as perspectivas para o comércio ainda são positivas. Diversos fatores contribuíram para o bom resultado das vendas no ano passado, mas podemos destacar entre eles o crédito abundante para o consumo, com prazos longos de financiamento e taxas de juros mais baixas, o que propiciou queda do valor das prestações.

O forte aumento do emprego e da renda, por sua vez, influenciou positivamente a confiança do consumidor e, em conseqüência, a sua disposição de comprar. Isso possibilitou o ingresso de um amplo contingente de novos consumidores no mercado.  A queda dos preços dos de muitos produtos, especialmente dos eletros-eletrônicos, provocada pela valorização do Real, tornou mais fácil o acesso das camadas de menor renda aos bens de maior valor. O crescimento do gasto público também contribuiu para o aumento do emprego e da renda, em parte devido às eleições nos vários níveis. A facilidade de crédito e o aumento do emprego e da renda permitiram que essa forte expansão do consumo se fizesse com baixo nível de inadimplência.

A contribuição de alguns desses fatores, no entanto, não deverá ser tão relevante como a do ano anterior, pois a retomada da inflação vem consumindo maior parcela da renda da população, e levou o Banco Central a adotar medidas restritivas ao crédito, com aumento dos depósitos compulsórios e elevação da taxa SELIC. Essas medidas deverão implicar em redução dos prazos dos financiamentos. O governo anuncia um corte de gastos da ordem de R$ 50 bi, o que, se confirmado, contribuirá para a desaceleração do crescimento da economia. Apesar disso, a perspectiva ainda é de aumento do PIB, menor do que o do ano passado, na casa dos 4,5%, resultado bem inferior ao de 2010, mas que pode ser considerado bom, porque a base de comparação é bastante forte.

O comércio vem apresentando nos últimos anos desempenho superior ao do PIB, o que permite esperar para 2011 uma expansão da ordem de 6% a 7% para o varejo, porque o mercado interno é o principal fator do crescimento. O forte aumento do endividamento verificado em 2010 não deve resultar no  descontrole da inadimplência, embora os atrasos de pagamento devam se situar em um patamar superior ao do ano passado, mas ainda administrável, porque o emprego e a renda devem continuar crescendo.

Em resumo, os empresários podem esperar mais um ano de crescimento da economia, e o varejo em especial deverá apresentar bom desempenho em 2011, embora em ritmo mais lento do que o observado no segundo semestre do ano passado. Existem, no entanto,  riscos que podem comprometer esse cenário favorável. Internamente, o maior risco é representado pela aceleração da inflação, o que pode levar o Banco Central a adotar novas medidas para desaquecer o consumo, além da já prevista elevação da taxa SELIC. Do lado externo, a instabilidade em diversos países produtores de petróleo pode provocar nova crise nos países desenvolvidos, com reflexos sobre toda economia mundial. Embora essa hipótese seja pouco provável, existe alguma possibilidade de ocorrer nova recessão no mundo desenvolvido, o que afetaria as exportações e a economia brasileira.

O importante é que o empresário mantenha o otimismo, mas esteja sempre atento aos acontecimentos internos e externos para adotar medidas que se façam necessárias em caso de mudança do cenário esperado, que é positivo, mas sujeito a riscos.

Marcel Domingos Solimeo é economista-chefe e superintendente institucional da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).