Engana-me para eu ser produtivo!

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Esta é um tanto antiga e prosaica. Mas vou contar porque se trata do melhor exemplo que conheço como metáfora daquilo que desejo abordar. Um time de futebol de São Paulo, desses com grande torcida, foi jogar contra uma equipe na capital do Pará. O repórter se aproxima de um jogador do time paulista e pergunta: “Como você se sente jogando aqui em Belém?”. E o craque: “É com muita emoção que vou atuar na cidade onde nasceu Jesus Cristo”! Dizem que aconteceu de verdade. E tratam do fato como simples anedota do folclore futebolístico. Mas eu, por meu lado, sempre fiquei imaginando: e se ninguém dissesse ao jogador que ele estava equivocado? Provavelmente faria o melhor jogo de sua vida. Inspirado. Pisando em “solo santo”.
 
Por isso, a cada ano que passa sou mais a favor do saudável e positivo faz-de-conta. Se você fizer de conta que está trabalhando na melhor empresa do mundo, ela se torna a melhor mesmo. Você se transforma naquilo que faz de conta ser. Isso não é, de forma alguma, pensamento mágico. A imaginação criativa, mesmo com a “moral” distorcida por causa dos exageros dos falsos gurus, é uma lei da ciência. Se você se imagina com entusiasmo, fica entusiasmado de verdade. Sempre pensando em você mesmo, no seu progresso, nunca para agradar aos outros. Senão acontece como a Carmen Miranda, conforme percebeu com muito humor Tom Jobim. “Ela certa vez colocou um abacaxi sobre o turbante tropical para agradar aos americanos, e nunca mais conseguiu retirar a salada de frutas da cabeça”. Um peso eterno a carregar.
 
Isso tudo tem como pressuposto uma lei paradoxal da vida. O livre-arbítrio. Jean-Paul Sartre dizia que “o ser humano está condenado a ser livre”. O que o genial Millor Fernandes traduziu da seguinte forma: “O ser humano é livre como um táxi”. Ou seja, quanto mais livre, pior. Talvez sejamos, sem saber, avessos à liberdade. Melhor alguém dizer o que é que tenho de escolher. Mas ninguém diz. Porque a responsabilidade é minha. Em meu primeiro livro, editado e lançado pelo Estadão em 1985 – “A Façanha da Liberdade”- eu já enfocava esse dilema do ser que abdica do poder de ser livre para tentar sofrer menos. E voltei ao tema no meu livro de 1998 – “O Desafio da Liberdade”. E, na época, eu sequer imaginava que a Internet fosse colocar esse poder tão forte em nossas mãos. Na web, ninguém manda. O mundo é nosso, para navegar e realizar a expressão à vontade. E agüentar – ou gozar – as conseqüências.
 
O pior de tudo é que, quando o líder nos delega poder, por exemplo, tendemos a duas vertentes: ou passamos do ponto naquilo que nos foi confiado, ou nos omitimos. A liberdade de decidir complicou tudo. “Era melhor aquele crápula ter dito o que era pra fazer, e pronto!”. Mas há uma saída mais fácil para tudo isso. Basta simplificar. Quando somos livres, temos a incrível inclinação para complicar as coisas. Criatividade é sinônimo (quase) de simplicidade. Fazer menos. Esperar um pouco. Não se precipitar. Pode reparar, praticamente todas as inovações tecnológicas são criadas para simplificar a nossa vida. A inovação é sinônimo (quase) da simplicidade. A própria Internet faz isso. O que antes demandava um périplo infernal atrás de informação, hoje se transformou num clique. E de pensar que há gente que complica sua própria vida com a Internet!!!
 
Em resumo. Primeiro você se imagina diretor ou diretora daquela organização. Em seguida, enxuga sua vida, jogando literalmente fora tudo o que signifique complicação. Por último, mantém o bom humor em primeiro plano. Mesmo nas situações onde haveria uma “saia justa”. Porque bom humor é sinal de inteligência. Como no exemplo do Cassius Clay, ou Mohamed Ali, talvez o maior campeão de boxe de todos os tempos. Quando perguntaram a ele por que falava demais, por que se gabava tanto de suas próprias qualidades, ele respondeu: “Às vezes até tento ser modesto. Mas me faltam argumentos para isso”. E o riso dispersou as nuvens.
 
Claudir Franciatto, jornalista, escritor e consultor, autor de 10 livros, é  parceiro
da Cliente SA e do Callcenter.inf.br. E-mail: [email protected]