Lá vem um novo ciclo!

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O papel de coadjuvante já era. O Brasil assume cada vez mais um papel importante no cenário econômico mundial. Hoje, o cresce a passos largos – mais que os próprios países desenvolvidos. Um dos fatores desse bom momento é a política econômica adotada pela equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os reflexos são muitos, como o surgimento de um novo consumidor. É a nova classe C, que chega a 30 milhões de pessoas. Embora exista motivo de sobra para comemorar, esse novo cenário também impõe novas estratégias. Foi o que refletiram durante o IX Encontro com Presidentes os mais de 430 executivos entre os mais de 180presidentes que contemplaram o encontro. Ao longo do dia, o congresso trouxe especialistas para fazer um mapeamento de cenários possíveis para 2011 e desafios para os próximos anos. Uma preocupação é manter o ritmo do crescimento, uma essa trajetória possível. Mas, apesar da nova presidente Dilma Rousseff mostrar que seu governo será de continuidade, algumas ações deverão entrar na pauta, como os investimentos em infraestrutura, reforma política e ajustes fiscais. Outro desafio, esse mais voltado para as empresas, é entender o novo consumidor. Embora bastante otimista, o perfil desse cliente é mais exigente e pede por estratégias diferenciadas, tanto no atendimento, como no desenvolvimento dos produtos e serviços.

Um governo sem radicalismos

Apesar da expectativa de continuidade com o Governo Dilma, presidentes esperam por mudanças para o Brasil manter o crescimento

Há um consenso entre os executivos sobre a necessidade de reformas na máquina política. Porém, essa grande mudança não deve vir nos próximos anos, de acordo com o cientista político Cláudio Gonçalves Couto, professor da FGV, que fez a palestra de abertura do IX Encontro com Presidentes. “É possível que uma janela se abra às mudanças na estrutura do Estado, mas o difícil é que o sistema político cria muitas travas”, conta. Couto aposta na continuidade dos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva. “Não teremos guinadas radicais. Ela manterá a política econômica. Haverá apenas mudança de estilo. Sai um presidente carismático e entra uma pessoa de perfil tecnocrático”, completa.

Couto descarta medidas radicais, como reestatizações e censura à imprensa. Para o professor, existe hoje no Brasil um presidencialismo de coalizão, que impede tomada de decisões sem consulta à base governamental e aos governadores eleitos. “O Brasil não caminha para uma mexicanização ou uma venezuelização. Para aprovar qualquer medida, é preciso maioria no Congresso. E na base do PT existem partidos moderados como o PMDB e PSB”, ressalta Couto.”Já com relação aos governadores, é preciso lembrar que o PSDB, principal partido de oposição, ganhou a eleição em oito Estados”, explica o cientista político. Couto alerta que é preciso diferenciar o discurso realizado por Dilma Rousseff durante as eleições e a realidade política brasileira. “Costumo dizer que o PT tem quatro discursos”, afirma. O primeiro é radical e tem como foco os militantes. O segundo é o do PT na oposição, partido contra todos e que só aponta defeitos nos outros. O terceiro é o de campanha, mais próximo da realidade. O quarto é o discurso do PT quando está no governo. “É preciso olhar a experiência do partido. Dilma foi ministra de um governo sem radicalismos. A expectativa é de que isso permaneça”, resume Couto.

O presidente da Aserc, Associação Nacional das Empresas de Recuperação de Crédito, e da Audac, José Roberto Romeu Roque, concorda com Couto sobre o posicionamento moderado do governo de Luis Inácio Lula da Silva. “Com Dilma no governo, acredito que haverá a continuidade dos programas sociais e o pacto entre a ascensão das classes de menor poder aquisitivo com as grandes empresas”, diz. Para ele, embora o modelo de emprego no Brasil seja gerado pelas pequenas e médias empresas, são elas que mais sofrem com problemas legais e tributários. “Esse é um ponto no qual eu gostaria de ver mudanças”, destaca.

“A história já mostrou ser cíclica, então temos que aprender com os exemplos. Se não olharmos com preocupação estaremos colocando em risco as gerações futuras”, lembra Paulo Neto Leite, presidente da Dedic e da ABT, Associação Brasileira de Telesserviços, preocupado com o futuro do País. Ele acrescenta que o cenário atual de instabilidade econômica está concentrado no exterior, mas nem por isso diminui a importância do próximo governo em realizar reformas fiscais e trabalhistas. O presidente da Witrisk, José Tosi, também entende que o governo precisa investir em reformas estruturais. “O Bolsa-Família é positivo porque preserva a sobrevivência de muitas pessoas, mas não existem ações radicais. Precisamos modernizar a gestão da máquina política”, afirma. Para ele, o Brasil precisa mudar a matriz das exportações. “Hoje o país usufrui do PIB gerado pelas commodities primárias”, pondera. A opinião é compartilhada por Miguel Ignatios, presidente da ADVB-SP. “Os programas sociais aumentaram muito a qualidade de vida de determinados grupos sociais, mas não vejo uma política efetiva de mudança na educação e na capacitação de pessoas”. Para ele, mais do que os produtos primários, a educação, a eficiência e a tecnologia têm que ser prioridades para os próximos governos brasileiros.

Novo consumidor, mais exigente

Bom momento econômico do Brasil eleva poder de consumo da classe C, um desafio empresarial onde ganha aquele que entender primeiro seu comportamento

O Brasil ganhou nos últimos anos um papel importante dentro do cenário mundial, resultado da estabilidade econômica até mesmo no período da crise. O crescimento do país despertou, inclusive, o interesse de investidores estrangeiros, segundo Louis Bazire, presidente do BNP Paribas, em sua palestra. De acordo com o executivo, o Brasil tem o mercado mais interessante dentre os países que formam o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). “Dentre os chamados emergentes, o País é o que tem a economia mais estável. O modelo é o mais avançado historicamente”, declarou. Bazire cita que a China é o país que cresce mais rápido, mas não conseguirá manter o volume de exportação que tem hoje. “A China tem crescimento anual de 9% a 10%. Mas a tendência é ter um desenvolvimento menor nos próximos anos. Já o Brasil tem mais perspectivas de expansão. Podemos apostar nele”, afirmou o presidente do BNP Paribas.

Como resultado, o Brasil registrou um grande crescimento da classe C. De 2005 a 2009, 30 milhões de pessoas passaram a integrar essa faixa, de acordo com o Observador, estudo elaborado pela Cetelem, em parceria com o Instituto Ipsos. Com esse boom, as empresas tiveram que sair da prancheta e passar para a prática. Um tratamento diferenciado foi elaborado para esse consumidor. “Empresas de ônibus, companhias aéreas e muitas outras estão investindo rapidamente em melhorias. A classe C representa hoje a população total do Brasil na década de 70”, comenta Marcos Etchegoyen, diretor-geral da Cetelem. Ele acrescenta que muitos dos programas são voltados às donas de casa, já que elas representam os índices de crescimento ou diminuição da compra de eletroeletrônicos, como fogão, geladeira e televisão. Outro fator importante desse novo público é a relação com o crédito. “Com maior segurança, muitas pessoas se sentem mais à vontade para comprar a prazo. Embora, a maior parte ainda utiliza o dinheiro para pagar porque vê como a maneira mais segura”, explica Etchegoyen.

O importante no relacionamento com esses novos consumidores é a agilidade, assegura Giulio Salomone, presidente da Almaviva do Brasil. “Temos de dar respostas rápidas. O cliente está cada vez mais exigente quanto a esse fator. O perfil do cliente está mudando e precisamos acompanhar essa mudança”, afirma. Para ele, as empresas têm hoje muitos dados sobre os consumidores, o que não acontecia antes. “O desafio das empresas é que seus produtos atendam os desejos do cliente. Já não basta só se relacionar bem. É preciso entender quem é ele e o que quer”, completa. Outra mudança veio com a inclusão digital. “Hoje as classes C e D sabem navegar na Internet e entrar em redes sociais. São clientes que têm a mesma análise de compra que as classes A e B. Isso cria a democratização dos canais de venda”, ressalta Marcelo Epstejn, presidente do Uol. Segundo ele, no passado, para um consumidor ser ouvido tinha que rezar para sua reclamação sair em um jornal. “Hoje, ele leva para as redes sociais suas críticas. Os desafios não são pequenos para acompanhar a evolução dos consumidores”, afirma.

Para Marcelo Schulman, presidente da Vitaderm, a palavra-chave para entender os novos consumidores é comunicação. “São pessoas exigentes e conscientes, já que contam com mais informações, até pelo uso maior da Internet”, pondera. O presidente da Vitaderm também alerta para o fato desse cliente utilizar diferentes canais para se relacionar. Nelson Armbrust, presidente da Atento, concorda com a visão de Schulman. “Os consumidores agora são multicanais. Não existem clientes que gostam de ser atendidos só por telefone ou por e-mail”, pondera. Para ele, o importante é ver a atuação do cliente no longo prazo. “Devemos olhar o relacionamento com o consumidor como um processo”, pondera.

Os desafios à frente

Embora próspera, economia brasileira deve passar por prova de fogo. Novo governo terá que se movimentar para manter crescimento saudável do País

“O momento do Brasil já é de pensar na economia a médio e longo prazo”, declara Raul Aguirre, presidente para a América Latina da At Kearney, durante sua palestra. Os números apresentados pelo executivo mostram que o Brasil ainda não é o líder dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) mesmo nesse momento de prosperidade. “Para sustentar uma posição crescente ao longo do tempo os desafios serão aumentar a participação da poupança interna e do comércio exterior no PIB, além dos bens manufaturados nas exportações”, opina Aguirre. De acordo com ele, o PIB per capita do país aumentou cerca de 22% desde 1995, por isso é mais do que necessário um conjunto de discussões a respeito dos desafios que o Brasil enfrentará nos próximos anos. O fator positivo é a janela demográfica de oportunidades na qual o Brasil encontra-se no momento, com grande população economicamente ativa e estável, diferente do que ocorre com vários países da Europa e do que será, daqui a alguns anos, a situação da China. Porém, Aguirre comenta que o Brasil é ainda um país em desenvolvimento que gasta como um desenvolvido.

Já Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban, vê três cenários econômicos possíveis para os próximos anos. Todos otimistas. O primeiro é, de acordo com o economista, o mais provável, que será de continuidade com ajuste fiscal. “O governo dá sinais de que terá austeridade no campo fiscal. Dá sinal também de contenção do crescimento e de que a taxa de juros recuará a médio prazo”, afirma. Para ele, o ajuste fiscal necessário seria diminuir a carga tributária, diminuir os juros praticados e encontrar formas de aumentar o investimento privado. Já no segundo cenário seria uma espécie de continuação do segundo governo Lula, seguindo a trajetória de crescimento, mas com a preocupação de haver uma pressão inflacionária, define o economista. Uma virada desenvolvimentista seria o pano de fundo para o terceiro cenário. “Significa a manutenção da política fiscal em curso”, disse. Apesar do otimismo, Sardenberg acredita que Dilma Rousseff terá de gerir a política econômica em meio a um cenário externo desfavorável. “O cenário espetacular que aconteceu entre 2002 e 2008 não volta mais. Hoje é bem menos favorável. A recuperação norte-americana é muito lenta”, resume.

“Se o governo fizesse uma boa previsão fiscal poderíamos investir mais e as empresas estariam mais seguras para realizar investimentos duradouros”, adverte Antônio Cruz, presidente da Graber. Segundo ele, hoje os obstáculos para o desenvolvimento pleno da economia brasileira são muitos. O presidente da Mundial, Michael Ceitlin, vê na tarifa alfandegária um dos pontos fundamentais para o desenvolvimento do país. Ele diz que o Brasil vive em uma ilha, esquecendo-se dos preços relativos dos produtos. “O brasileiro se conforma ou desconhece os preços reais dos produtos e serviços”, opina.

O presidente da Reader´s Digest Brasil, Luis Henrique Fichman, avalia que pela experiência da empresa após 70 anos no país, este momento mostra-se como um dos melhores para investimento e crescimento econômicos. “Estamos na crista da onda. Até 2007 a subsidiária brasileira estava em 7º lugar e hoje está em 3º”, comemora. “No entanto, existem muitos gargalos importantes que se não forem resolvidos causarão problemas, como a área de logística”, alerta. Para ele, o que tem que ser perguntado é se existem condições que suportem os gastos públicos. Já Jorge Tena, presidente da Commodity, enfatiza a questão da educação. “A Coréia do Sul investiu em um modelo forte de educação e hoje é um exemplo. A mão de obra precisa de treinamento e qualificação, pois o recurso humano hoje está pobre. A educação é a única forma de termos uma economia melhor”, considera.

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